LEVY, John. The Nature of man according to Vedanta. London: Routledge, 1956.
XVII — A definição de um ser humano
1. Individualidade e personalidade
1. A individualidade consiste na consciência de uma existência corporal separada, enquanto a personalidade corresponde ao conjunto de características físicas e mentais que distinguem essa existência individual.
2. O Si mesmo
1. A consciência distingue-se necessariamente daquilo de que está consciente, de modo que a apreensão da própria existência individual revela um princípio que a transcende, o Si mesmo imutável e impessoal, embora habitualmente seja identificado com o corpo.
3. Identidade pessoal
1. A identificação equivocada entre o Si mesmo e o corpo produz a noção de identidade pessoal, expressa pelos pronomes pessoais, reflexivos e possessivos, atribuindo pensamento, conhecimento, prazer, percepção e ação ao princípio imutável que permite reconhecer como próprias as sucessivas transformações corporais.
4. O Si mesmo imutável
1. A imutabilidade do Si mesmo decorre de sua transcendência em relação ao corpo e à matéria, pois a mudança pertence ao domínio material, enquanto o princípio consciente permanece além das transformações, inclusive do nascimento e da morte.
5. A definição de um ser humano
1. A noção de existência individual nasce da identificação entre o Si mesmo imutável e o corpo mutável, combinação incompatível que se manifesta na atribuição de características e estados corporais ao eu e constitui aquilo que se denomina um ser humano.
XVIII — Identificação
1. O pronome pessoal e a identificação
1. O pronome «eu» exprime indistintamente três modalidades de identificação: com o corpo e os sentidos, com os pensamentos e os afetos e com a suposta inconsciência atribuída à ausência de pensamento, fazendo parecer que um mesmo sujeito individual assume todos esses estados.
2. O pronome pessoal e a inconsciência
1. A afirmação «eu estava inconsciente» encerra uma contradição quando identifica o eu com o pensador, pois a ausência de pensamentos elimina essa função sem extinguir o ser, revelando que a existência permanece quando desaparece a consciência individual, como implicitamente se admite ao adormecer sem receio de aniquilação.
3. O pronome pessoal e a consciência
1. A identidade pessoal faz o Si mesmo parecer idêntico ao corpo, aos sentidos ou à mente, mas o pronome «eu» remete sempre à consciência imutável na qual aparecem pensamentos, percepções e sentimentos, de modo que pensar, ver, ouvir ou sentir felicidade significam estar consciente dessas experiências.
XIX — Consciência e atividade mental
1. Os diferentes aspectos do pensamento
1. O pensamento compreende todas as modalidades da atividade mental, incluindo raciocínio, intelecção, imaginação, sentimento, vontade e percepção sensorial, às quais se acrescenta o hábito de identificação, denominado pensamento-eu, inseparável da memória que acompanha a experiência individual.
2. Definição da atividade mental
1. A atividade mental constitui uma noção formada pela memória de pensamentos distintos, sendo cada pensamento um objeto de consciência, razão pela qual seu domínio pode ser compreendido mais precisamente como experiência objetiva ou individual.
3. Pensamento
1. A distinção entre pensamentos interiores e corpos exteriores depende da identificação com o corpo, pois, quando corpo e mundo são reconhecidos como noções da experiência individual, desaparece a oposição entre interior e exterior e todo o domínio objetivo apresenta-se como mental.
2. A superação das distinções ilusórias entre matéria e mente, vigília e sonho, exige reconhecer que todos os objetos de consciência pertencem a um único plano objetivo, tornando desnecessária a separação entre atividades mentais e físicas e revelando que o pensamento consiste na consciência de algo, posteriormente personificada como um eu pensante.
4. O pensador
1. A suposição de um pensador que produz os pensamentos de que está consciente resulta de uma interpretação equivocada da experiência, pois as expressões «eu penso» e «estou pensando» indicam consciência de algo objetivo, sem demonstrar a existência de um sujeito individual responsável pelo pensamento.
5. Conclusão
1. A multiplicidade dos objetos não modifica a consciência única em que aparecem, de modo que o Si mesmo transcende todo o domínio objetivo e não pode ser identificado com o pensador, cuja atividade é ela própria conhecida e posteriormente recordada.
XX — A ilusão da dualidade
1. Definição da dualidade
1. A dualidade consiste na aparente divisão da consciência não dual em pensador e pensamento, ou sujeito e objeto, como se um desses termos pudesse existir separadamente e estar consciente do outro.
2. Sujeito e objeto
1. A apreensão de um objeto apresenta somente esse objeto à consciência, enquanto a noção de estar percebendo constitui uma experiência objetiva diferente, evidenciando que o suposto sujeito pensante e aquilo que considera seu objeto não possuem uma relação imediata.
2. A absorção em uma atividade, como a leitura, revela que a noção de ser seu agente surge apenas como pensamento posterior e separado, de maneira que a atribuição retrospectiva da ação a um eu individual decorre do hábito de identificação e não da presença efetiva desse eu durante a experiência.
3. Memória e ignorância
1. Sujeito e objeto, considerados como experiências distintas da consciência, não possuem isoladamente o significado relacional que lhes é atribuído, sendo sua combinação na memória responsável pela formação da nova noção de um eu que percebe ou pensa.
2. A memória é indispensável ao sentido de individualidade, pois articula noções complexas e sustenta a aparente união entre o Si mesmo imutável e o corpo mutável, enquanto a ignorância consiste nessa identificação e na consequente personificação do princípio impessoal da consciência.
XXI — Vida, memória e desejo
1. A memória conserva aquilo que afetou a experiência por meio do prazer ou da dor, originando desejo e aversão, cuja expressão ativa constitui a vontade que procura o agradável e o necessário à vida e evita o desagradável e o prejudicial.
2. A existência individual, o desejo e a aversão são expressões da não dualidade, pois a finalidade última do desejo é alcançar uma condição livre de desejo, enquanto a busca do prazer e a fuga da dor constituem objetivos complementares da vida individual que somente se tornam possíveis pela memória.
XXII — A origem da memória e a testemunha
1. O pensador como objeto de consciência
1. A possibilidade de recordar tanto os pensamentos quanto o fato de ter pensado demonstra que o pensador individual é um objeto conhecido, enquanto o princípio que conhece esse pensador e todos os demais objetos é a própria consciência.
2. Egoísmo e o ato de recordar
1. A identificação da consciência com o corpo origina o pensamento-eu, que atribui a si a condição de pensador e reivindica retrospectivamente experiências nas quais não estava presente como sujeito individual, fazendo dessa apropriação um ato de memória.
3. Memória e identificação
1. A identificação entre o princípio impessoal da consciência e o corpo produz a falsa noção de um eu pensante, dividindo aparentemente a consciência não dual em um sujeito consciente e seu objeto.
2. O aparecimento descontínuo dos objetos e do pensamento-eu faz a consciência parecer igualmente descontínua e sujeita ao tempo, assumindo a forma de uma faculdade de memória que confere continuidade à experiência, de modo que memória e consciência de existência individual se tornam equivalentes.
4. Memória e testemunha
1. A experiência individual inclui tanto a recordação quanto a antecipação, sendo mais abrangente compreendê-la pela presença de uma testemunha de todo o fluxo objetivo do que por uma faculdade de retenção, embora essa testemunha, enquanto função relativa aos objetos, não deva ser simplesmente identificada com o princípio da consciência.
5. A dupla natureza do ego e a testemunha
1. O ego participa ilusoriamente do Si mesmo e do corpo, atribuindo ao primeiro atividade quando reivindica funções corporais e inatividade quando reivindica a ausência de experiências, enquanto o Si mesmo transcende ambas as condições e assume o papel de testemunha impassível sempre que a individualidade aparece.
XXIII — A dissolução do egoísmo e a restituição do Si mesmo
1. O ego e o Si mesmo não dual
1. O ego não constitui uma entidade, mas uma noção complexa de existência corporal produzida pela combinação ilusória entre o Si mesmo e o corpo, dissolvendo-se quando se abandona sua dimensão corporal mutável e se reconhece a natureza consciente e não dual que jamais sofreu uma verdadeira encarnação.
2. A restituição do Si mesmo
1. A natureza não dual do Si mesmo permanece inalterada mesmo quando aparece como testemunha dos pensamentos, e o reconhecimento de que a própria noção de ser pensador é uma experiência observada põe fim à identificação com o corpo.
2. O pensamento-eu pode continuar surgindo automaticamente como parte da representação corporal mesmo após cessar a identificação, mas o conhecimento do Si mesmo não dual impede que as vicissitudes do corpo e a aparente oposição entre sujeito e objeto imponham submissão, reduzindo o egoísmo a uma forma vazia e permitindo viver segundo as regras da experiência.
3. O núcleo do método
1. A adoção da perspectiva da testemunha interrompe a identificação e permite reconhecer que, ao voltar a atenção ao princípio consciente em vez de ao objeto, apreende-se somente o Si mesmo não dual, pois, na ausência de algo testemunhado, desaparece também a função relativa de testemunhar.
4. A superioridade deste método
1. A tentativa de impedir o aparecimento dos objetos mediante a contenção dos sentidos pressupõe atribuir realidade às aparências, enquanto a adoção da perspectiva da consciência testemunhante oferece um meio efetivo de encerrar a identificação sem depender da supressão da experiência sensorial.
2. O reconhecimento de que as circunstâncias atingem o corpo, mas não o Si mesmo, proporciona liberdade fundamental e elimina o temor da morte corporal, pois aquilo que jamais nasceu não pode ser destruído pelo desaparecimento do corpo.
5. Uma recomendação sobre a aplicação pessoal do método
1. A aplicação efetiva desses princípios exige orientação pessoal de alguém que tenha realizado plenamente a não dualidade, pois o método deve corresponder às condições particulares de cada indivíduo e nenhum livro pode substituir essa condução viva.
XXIV — A expressão verbal da não dualidade
1. A comunicação da não dualidade não resulta de uma relação causal entre sua realização e sua formulação verbal, mas de uma reciprocidade entre níveis distintos da experiência, sendo a orientação efetiva possível apenas à rara combinação de realização plena, liberdade em relação à identificação corporal, capacidade expressiva e disposição amorosa.
XXV — O problema da relação
1. Consciência e cérebro
1. A oposição entre matéria espacial e mente temporal perde seu fundamento quando a mente é reconhecida como uma noção baseada na memória de pensamentos e o corpo como uma noção baseada em percepções, restando examinar a experiência sensorial enquanto aparente combinação de subjetividade e objetividade.
2. O acontecimento cerebral e a reivindicação individual de ser o percebedor pertencem ao aspecto objetivo da experiência, cuja aparição depende da consciência não dual imutável, de modo que consciência e cérebro constituem os termos extremos de uma suposta relação entre princípios mutuamente excludentes.
2. O cérebro como lugar da experiência objetiva
1. Intelecção, imaginação, conhecimento, vontade, emoção, identificação, associação, retenção e sensação constituem aspectos interligados da atividade cerebral humana, que abrange a individualidade e toda a sua experiência objetiva, fazendo de cada objeto de consciência um acontecimento cerebral.
3. Ausência de relação direta entre percepções
1. A interdependência dos processos cerebrais não implica relações diretas entre as percepções que deles resultam, pois cada percepção se apresenta à mesma consciência, sendo a memória aquilo que faz parecer conectados objetos cuja ligação aparente ocorre somente na consciência e por meio dela.
4. O problema
1. A experiência objetiva não pode esclarecer seu próprio fundamento sem o distanciamento necessário, enquanto sua consideração a partir do Si mesmo faz desaparecer a objetividade, tornando insolúvel a tentativa de estabelecer uma relação entre consciência e objeto como entidades distintas e complementares.
5. A dissolução do problema
1. A consciência, embora não possa ser conhecida como objeto, é imediatamente apreendida como o Si mesmo e aparece como testemunha quando há experiência objetiva, permitindo que a compreensão firme dessa perspectiva conduza espontaneamente ao reconhecimento da consciência não dual.
2. O reconhecimento da impossibilidade de uma relação real entre consciência e cérebro dissolve um problema nascido da suposição de uma dualidade efetiva entre sujeito e objeto, pois ambos correspondem a aspectos de uma realidade indivisa e indivisível.
XXVI — Não dualidade
1. A disparidade entre consciência e objetos
1. A relação entre consciência e objeto permanece ininteligível enquanto ambos são tomados como entidades distintas, mas isso não autoriza reduzir a consciência a uma ficção, pois somente o princípio imutável, independente e cuja existência não admite dúvida pode ser reconhecido como real.
2. A insuficiência da palavra escrita e a realização metafísica
1. A verdade metafísica constitui experiência direta que a linguagem escrita não pode transmitir por si mesma, embora possa desfazer conhecimentos equivocados e preparar sua realização, enquanto a palavra, os gestos e a presença viva de um sábio favorecem uma comunicação que a leitura autêntica pode posteriormente aprofundar.
2. Termos como consciência, testemunha e Si mesmo ultrapassam seus sentidos pessoais habituais para indicar o princípio impessoal em que conhecedor e conhecido aparecem como experiências objetivas distintas, funcionando como meios de passagem da experiência individual à não dualidade e de abandono da identificação e da linguagem fundada nela.
3. Conhecimento direto
1. A certeza imediata expressa por «eu sou» permanece mesmo quando se tenta colocá-la em dúvida, pois o próprio ato de duvidar pressupõe a consciência que conhece essa dúvida, de modo que o questionamento da existência pode atingir a suposta entidade individual, mas não o ser incondicionado que a transcende.
4. Sobre a expressão do inexprimível
1. A consciência e a objetividade não podem relacionar-se como entidades independentes porque, em última análise, são idênticas, e, embora a linguagem não comunique diretamente essa não dualidade, pode favorecer o discernimento de uma verdade anteriormente encoberta.
5. Aquele que vê e aquilo que é visto
1. As noções de objeto e sujeito consciente pressupõem-se reciprocamente, assim como conhecedor e conhecido ou aquele que vê e aquilo que é visto, revelando que sua inseparabilidade corresponde a dois aspectos de um único fundamento.
6. Não dualidade
1. A objetividade não pode constituir algo diferente da consciência imutável em que aparece, pois aquilo que não possui existência objetiva antes nem depois de sua manifestação também não adquire uma existência independente durante ela, permanecendo em todas essas condições como o princípio consciente que é existência absoluta.
2. A consciência sem objeto transcende a dualidade e já não pode ser entendida no sentido relacional habitual, constituindo a essência única e onipresente das aparências, enquanto sua aparente divisão em conhecedor e conhecido coincide com o problema da personificação do princípio impessoal como pensador.
7. Matéria, mente e não dualidade
1. A distinção entre matéria e mente não pode explicar o conhecimento, pois uma mente imaterial somente conheceria uma matéria independente mediante uma impossível transformação de natureza, enquanto a matéria inconsciente não poderia conhecer a si mesma, evidenciando que aquilo que se chama matéria pertence ao domínio das noções e que sua oposição à mente é apenas verbal.
2. A mente também não constitui uma entidade independente, mas uma noção baseada na memória de pensamentos, e nenhum pensamento pode estar consciente de outro, de modo que pensamento e objeto formam uma única experiência e a objetividade revela-se ilusória, restando esclarecer a suposta relação entre consciência e atividade cerebral.
3. O princípio da consciência não pode relacionar-se com o cérebro como uma realidade distinta sem deixar de ser não dual, transformação impossível que tampouco permitiria torná-lo simultaneamente consciente e objeto de si mesmo, razão pela qual a experiência objetiva, aparecendo somente na consciência, não pode ser outra coisa que essa consciência.
8. Onda e água
1. Todos os objetos, quaisquer que sejam suas aparências, consistem em consciência, assim como uma onda não constitui uma substância distinta da água que a forma.
XXVII — A realização metafísica e a inexistência da memória
1. Realização metafísica
1. A realização da não dualidade permite reconhecer o mundo como irreal enquanto aparência dependente da consciência e real enquanto inseparável dela, superando a oposição entre realidade e irrealidade e todos os demais pares de contrários que estruturam a experiência individual.
2. A sucessão jamais é experimentada
1. A duração e a sucessão pertencem à aparência de pensamentos distintos, mas a consciência constitui uma perpetuidade única, imutável e não temporal, de modo que passado, futuro e continuidade individual são reflexos dessa permanência cuja realidade não pertence aos acontecimentos separados, mas ao princípio não dual.
3. A inexistência da memória
1. A recordação dos pensamentos e do fato de ter pensado permite distinguir o pensador individual, que é conhecido, da consciência que o conhece, estabelecendo inicialmente a presença de uma testemunha impessoal por meio da aparência da memória.
2. A impossibilidade de repetição real da experiência não elimina a função da testemunha, que permanece como aparência da não dualidade sempre que surge objetividade e oferece o meio de reconhecer sua natureza ilusória, assim como o conhecimento de uma miragem impede que sua persistência perceptiva produza engano.
3. A lembrança de um objeto ou de sua percepção não pode consistir no retorno da experiência anterior, pois o objeto não existia separadamente do perceber e o conhecimento que permanece transcende o domínio sensorial, de modo que aquilo que parece memória é a expressão espontânea do conhecimento absoluto, cuja manifestação não admite uma explicação causal exterior à própria não dualidade.
XXVIII — Perguntas absurdas
1. A origem do mundo
1. A investigação da origem do mundo em termos de lugar, momento e causa pressupõe aquilo que pretende explicar, pois espaço, tempo e causalidade já precisariam existir para possibilitar essa origem, tornando necessário analisar esses próprios conceitos em vez de procurar um começo formulado a partir deles.
2. A origem da identificação
1. A pergunta sobre como o Si mesmo não dual passou a identificar-se com um corpo pressupõe a existência anterior de um ego que realizaria a identificação responsável por produzi-lo, incorrendo na mesma circularidade das questões sobre a origem do mundo.
3. O problema fundamental
1. A demonstração da incoerência das perguntas sobre primeiras causas permite concentrar a investigação na questão «O que sou?», cuja resolução esclarece a natureza do suposto sujeito e da objetividade sem recorrer a hipóteses disputáveis, libertando a experiência dos problemas insolúveis associados à crença em um mundo separado da consciência.
4. Expectativas absurdas
1. A compreensão da não dualidade não oferece instrumentos para ampliar poder, prestígio ou conhecimento mundano, correspondendo à busca daqueles para quem a eliminação da obscuridade e da incerteza constitui a finalidade essencial.