Esquisse d'une histoire de philosophie indienne
Capítulo I Sistematização do pensamento védico
1. O bramanismo compreende a si mesmo como sistematização do pensamento védico, constituindo um campo de investigação amplamente documentado pela tradição sacerdotal, mas cuja análise exige independência diante dos pressupostos religiosos que orientam essa mesma tradição.
2. A transformação do vedismo, durante a primeira metade do milênio anterior à era cristã, acompanha a formação de uma ortodoxia sacerdotal que organiza os Vedas como coleção completa e desenvolve os Brahmanas, os Aranyakas e as Upanishads como modalidades de comentário, interpretação esotérica e especulação filosófica igualmente reconhecidas como revelação.
3. A constituição do cânone védico e de seus comentários acompanha a formação de uma casta sacerdotal hereditária que monopoliza a técnica ritual, a especulação e o ensino sagrado, no interior de uma sociedade cuja diferenciação em grupos preserva direitos, deveres e fronteiras entre os conquistadores arianos e as populações subordinadas.
4. O monopólio bramânico do dharma estabelece a preeminência do sacerdote como fundamento da ordem social e cósmica, convertendo os hinos em componentes de uma liturgia especializada e substituindo progressivamente seus sentidos antigos por interpretações simbólicas, etimológicas e dogmáticas orientadas pelas exigências do culto.
5. A sistematização sacerdotal privilegia conceitos rituais abstratos em detrimento das antigas figuras mitológicas e eleva Brahman, a fórmula eficaz que realiza aquilo que enuncia, à condição de princípio absoluto do universo, numa transformação metafísica que acompanha a consolidação da supremacia da casta bramânica.
6. A moral bramânica define os deveres segundo a casta e considera os ritos constitutivos da própria personalidade humana, fazendo do cumprimento das prescrições religiosas a medida da conduta e atribuindo à existência sacerdotal uma dignidade superior à das demais formas de vida.
7. A legitimidade da vida familiar depende da iniciação e da formação recebidas de um mestre brâmane, de modo que o conhecimento de Brahman e a conduta bramânica passam a definir a perfeição humana, afastando-se do ideal védico apesar da reivindicação de continuidade com ele.
Capítulo II
Intervenção de fatores não bramânicos: sofistas, materialistas, praticantes de yoga
1. Por volta do século VI antes de Cristo, a tradição védica sofre críticas de pensadores hostis ou exteriores à disciplina sacerdotal, entre os quais se distinguem sofistas, materialistas e praticantes de yoga.
1º Os sofistas
1. A irreligiosidade possui antecedentes no próprio Rigveda, cujas sátiras aos deuses e dúvidas sobre a possibilidade de conhecer a origem do ser e do não ser antecipam o sarcasmo e o ceticismo característicos dos sofistas indianos.
2. A sofística manifesta-se em diferentes civilizações sob condições de heterogeneidade social, instabilidade política, contatos interculturais e enfraquecimento religioso, favorecendo na Índia o surgimento de pensadores independentes que dissolvem crenças antigas e contribuem para a formação posterior de disciplinas intelectuais e morais mais rigorosas.
3. A antiga literatura budista e o Mahabharata, embora avaliem diferentemente os sofistas, convergem ao reconhecer dialecticistas itinerantes que negam a autoridade dos Vedas e reivindicam uma competência universal fundada na capacidade retórica de sustentar posições contrárias.
4. A convicção da relatividade universal leva os sofistas a rejeitar tanto a revelação quanto a possibilidade de estabelecer racionalmente uma verdade, uma ordem cósmica ou uma moral, suscitando como resposta a afirmação de leis não escritas inerentes ao ser e à interioridade humana.
2º Os materialistas
1. Os materialistas procuram fundamentar a rejeição da religião numa doutrina que reconhece a percepção como único critério de verdade e atribui à matéria uma consistência superior à atividade do espírito.
2. A redução do espírito a um efeito secundário do corpo acompanha a negação da autoridade sobrenatural dos Vedas, a afirmação exclusiva da existência de corpos compostos por elementos imutáveis e a adoção do prazer como orientação da vida, caracterizando os grupos denominados nastikas, lokayatas e charvakas.
3. O materialismo indiano combina a busca do prazer com formas de vida ascética destinadas a preservar a independência diante dos vínculos mundanos, revelando uma configuração própria que impede sua simples identificação com o epicurismo ou com outras doutrinas hedonistas.
3º Os praticantes de yoga
1. Os praticantes de yoga constituem uma corrente independente que pode ignorar o vedismo sem combatê-lo, compartilhando com outros adversários do bramanismo o individualismo e a inclinação ascética, mas intensificando esta última sem necessariamente formar uma seita.
2. A vida do eremita e do mendicante itinerante exerce um prestígio que ultrapassa as divisões de casta, configurando uma religiosidade baseada no desprendimento e na renúncia ao interesse pessoal, cuja sinceridade obtém reconhecimento mesmo dos sacerdotes ligados ao culto sacrificial.
3. O yoga primitivo consiste no recolhimento do indivíduo, no apaziguamento dos sentidos e na concentração das funções vitais, concebendo a disciplina dos sopros e os exercícios respiratórios como meios de adquirir uma posse integrada e voluntária das próprias capacidades.
4. A continência, as privações e a resistência ao sofrimento preparam uma concentração interior que confere sentido às posturas e à aparente inatividade do praticante, ao qual se atribuem tanto poderes extraordinários quanto a conquista de uma felicidade estável e a participação num princípio universal de vida.
5. A renúncia ascética encerra um otimismo profundo, sustentado pela certeza de alcançar o domínio da própria existência e, por meio dele, uma relação abrangente com a totalidade do ser.
Capítulo III
A síntese bramânica nas mais antigas Upanishads
1. A sistematização bramânica não se desenvolve isoladamente, pois a crítica irreligiosa contribui para enfraquecer os antigos mitos e o yoga introduz um ideal ascético e uma concepção dos sopros vitais que influenciam decisivamente os Aranyakas e as primeiras Upanishads.
2. Os Aranyakas indicam uma adaptação sacerdotal à vida de retiro nas florestas, na qual o afastamento dos altares e das funções profissionais permite interpretar alegoricamente os ritos e reconhecer nas austeridades um valor que não depende diretamente do sacrifício.
3. As Upanishads intensificam o caráter esotérico do ensinamento e libertam a especulação de sua subordinação imediata ao rito, fazendo surgir elaborações metafísicas relativamente pessoais e uma valorização do yoga que evidencia a incorporação de influências exteriores à tradição sacerdotal.
1º Metafísica
1. Brahman permanece o princípio supremo reconhecido pelos Brahmanas, mas as Upanishads introduzem como tese fundamental sua identidade com atman, estabelecendo uma nova compreensão do Absoluto.
2. Atman designa o si mesmo e a substância essencial de cada realidade, reunindo a interioridade humana e o fundamento das coisas num conceito capaz de exprimir simultaneamente a imanência em todos os seres e a transcendência diante de cada existência particular.
3. A identidade entre atman e Brahman reconhece no fundamento interior do ser humano o próprio princípio universal, conferindo universalidade ao si mesmo e interioridade à potência ritual, numa passagem do ritualismo mágico à experiência mística condensada na afirmação de que o ser humano é aquilo mesmo que constitui o Absoluto.
4. Brahman-atman ultrapassa o espírito e qualquer determinação particular, permanecendo indizível e imutável ao mesmo tempo que fundamenta todas as existências, de modo que sua presença íntima em cada ser não limita sua transcendência em relação à totalidade dos mundos.
5. As Upanishads comportam interpretações metafísicas diversas, permitindo tanto um monismo idealista que considera o mundo ilusório quanto um pluralismo realista ou uma concepção próxima do monadismo, sendo essa abertura uma condição de sua ampla fecundidade filosófica.
2º Psicologia e cosmologia
1. A teoria do Absoluto exige uma explicação complementar da realidade relativa e fenomenal, considerada simultaneamente como sujeito e objeto, em continuidade com a correspondência entre microcosmo e macrocosmo estabelecida pela tradição sacrificial.
2. A concepção da alma individual combina a representação védica do espírito como fogo ou luminosidade com a doutrina dos sopros vitais associada ao yoga, reunindo princípios fisiológicos distintos cuja conciliação permanece parcialmente problemática.
3. A psicologia organiza o ser humano como uma hierarquia de funções materiais e espirituais, na qual manas coordena percepção e ação, integra os dados sensíveis com elementos próprios e participa da vontade, tornando a experiência dependente tanto de operações mentais quanto dos efeitos de atos anteriores.
4. Os resultados da atividade de manas são apropriados pelo agente do eu, ahamkara, e submetidos a buddhi, função superior de julgamento e decisão que aprecia e determina a experiência sem constituir uma razão legisladora ou um domínio separado de ideias universais.
5. O espírito empírico depende de um órgão interno formado por manas, ahamkara e buddhi, cujas impressões e atos acumulados constituem a individualidade psicofisiológica, embora esse conjunto permaneça uma configuração contingente que não se identifica com a essência espiritual verdadeira.
6. A cosmologia corresponde à psicologia ao organizar elementos materiais e sutis como aspectos da objetividade paralelos às disposições constitutivas do sujeito, produzindo classificações nas quais fisiologia, experiência mental, estrutura cósmica, mitologia e liturgia se apresentam como ordens equivalentes.
3º Moral
1. A distinção entre realidade essencial e aparência fenomenal adquire consequências morais, pois o ser humano atribui valores diferentes a essas dimensões e orienta sua conduta conforme aquela que reconhece como fundamento de sua existência.
2. A antiga valorização védica da ação correta e dos benefícios terrenos cede lugar à renúncia, à desconfiança diante da atividade e ao temor de continuar existindo após a morte, formando uma concepção na qual a transmigração se impõe como necessidade moral e metafísica.
3. A transformação do carma de ato ritual benéfico em atividade produtora de novas existências reorganiza a escatologia, pois ações boas e más geram retribuições e renascimentos, enquanto a libertação exige o conhecimento do Absoluto e a superação da atividade que mantém a circulação das almas.
4. A nova orientação moral desqualifica metafisicamente até os atos piedosos e as doações aos brâmanes quando produzem novas existências, fazendo da superação do bem e do mal e da fuga à transmigração a finalidade dominante das iniciativas práticas e especulativas indianas.
5. A solução inspirada no yoga procura a libertação pelo recolhimento interior e pela concentração, desviando as faculdades de sua aplicação aos desejos e interesses para reconhecer a experiência comum como sonho e o retorno à essência íntima como verdadeiro despertar.
6. A solução fundada no conhecimento atribui à compreensão de Brahman o poder de dissipar a ilusão e eliminar a ignorância que produz servidão, conferindo à especulação indiana uma orientação intelectualista cujo impulso religioso se desenvolve filosoficamente.
7. A passagem do vedismo ao bramanismo envolve uma inversão de valores que não se explica apenas pela evolução interna da herança védica, exigindo reconhecer influências exteriores, deslocamentos culturais e o caráter parcial dos testemunhos literários, de modo que a ortodoxia sacerdotal permanece o fator mais visível da civilização indiana sem necessariamente representar sua força mais determinante.