“A metafísica se opõe aos outros tipos de conhecimento na medida em que representa um empenho pelo absoluto, em contraposição à curiosidade pelo relativo. Mas, sob o pretexto de que ‘no absoluto, todas as vacas são cinzas’, presume-se com demasiada frequência que o metafísico reflete no abstrato ou persegue um sonho nebuloso. O absoluto seria inexprimível e impensável. No entanto, em uma dialética da razão pura, que remonta, na Europa, ao classicismo grego, o incondicional rege o condicionado. Isso já nos deixa desconfiados: não estaríamos prejudicando alguma experiência efetiva ao separar, como se fossem dois pólos, o absoluto dos metafísicos e o relativo da ciência?
Sem dúvida, é preciso levar em conta os metafísicos desajeitados e os antimetafísicos incompetentes; eles já bastam para espalhar confusão. Tenhamos cuidado: o principal adversário da Metafísica, Kant, demonstra sua necessidade justamente na refutação que faz dela. Se a metafísica se apresenta como uma propensão natural (Naturanlage), contra a qual seria preciso se defender, mas que não se pode extirpar, como nos surpreender que o criticismo tenha suscitado uma profusão de dogmatismos? Por outro lado, o fundador do positivismo afirma: “Tudo é relativo, só isso é absoluto” (A. Comte, Cartas a d’Eichtal); o que, independentemente da forma como Comte tenha interpretado isso, pode muito bem implicar, ao mesmo tempo que a relatividade do absoluto, a absolutidade do relativo. Assim, entre esses detratores da metafísica, um reconhece-a espontaneamente como inerente ao ato de pensar; o outro admite que o relativo participa do absoluto.
Assumimos como tarefa examinar de perto essa relação particular em que o “em si” e o “para nós” se afirmam juntos. Assim, evitaremos confundir a metafísica com a filosofia, da qual ela é tanto uma parte quanto uma modalidade… Durkheim nos ensinou outrora que uma disciplina sem objeto é vã: mas determinaremos o fato metafísico. Lévy-Bruhl considerava que a pior condição para aprender é presumir que se sabe: começaremos pelo reconhecimento da ignorância e investigaremos o conteúdo da metafísica por meio das principais tradições filosóficas. Devemos a Bergson essa observação tão rica quanto simples: o essencial de uma filosofia, sua própria origem, não é tal “fonte”, derivada de uma filosofia anterior, mas uma atitude vital do filósofo, tanto em sua vida privada quanto diante do mundo. Aproveitaremos essa orientação e, quanto ao restante, assumiremos nossas responsabilidades, sem nos deixarmos abalar pelos elogios efusivos e pelo desprezo com que se trata a disciplina em estudo.
O impulso que deu origem às metafísicas anima o pensamento em muitos outros contextos, aos quais não se atribui nem sublimidade nem temeridade; muitas vezes, condena-se ou exalta-se esse pensamento, interpretando-o erroneamente. O homem espera ou teme, abençoa ou amaldiçoa, antes mesmo de conhecer. Apesar de nossos clássicos, é preciso saber que o absoluto não se limita nem ao argumento ontológico de Santo Anselmo e de Descartes, nem à dedução matemática ou spinozista. Com todo o respeito à exuberância romântica, tão próxima da “Schwärmerei”, o gênio não detém o monopólio da criação. E por mais suspeita que essa linguagem possa parecer a Comte, há, como demonstraremos, uma positividade da metafísica.” P. Masson-Oursel, Le fait métaphysique, PUF, 1941, V-VIII.