1. O surgimento das seis grandes escolas filosóficas indianas remonta à época bramânica, pois o budismo anterior à expedição de Alexandre já pressupõe ideias e formulações de várias delas, tornando insuficiente a hipótese de uma origem grega e permitindo compreender as semelhanças entre as duas tradições sem apagar suas diferenças de conteúdo, investigação e raciocínio.
2. Nyaya, Vaisheshika, Samkhya, Yoga, Mimamsa e Vedanta desenvolvem a herança das Upanishads e dos Brahmanas, vinculando a investigação filosófica à finalidade religiosa de libertar da existência e da transmigração, embora a cronologia de sua formação e a historicidade de seus fundadores permaneçam incertas, com o Samkhya geralmente considerado mais antigo e o Vedanta plenamente desenvolvido apenas numa época posterior.
3. A identificação de Gotama como fundador do Nyaya permanece problemática, pois esse nome pertence a diferentes personagens religiosos e eruditos, podendo designar um autor de ensinamentos normativos cuja existência não se distingue claramente das atribuições lendárias.
4. O Nyaya estabelece uma disciplina de investigação e raciocínio que reconhece a percepção, a inferência, a comparação e o testemunho confiável como meios de conhecimento, organizando a demonstração em proposição, razão, exemplo, aplicação e conclusão, segundo uma estrutura posteriormente difundida entre as escolas indianas.
5. A investigação do Nyaya ultrapassa a lógica e abrange os elementos da experiência humana e da libertação, explicando o sofrimento por uma cadeia em que noções errôneas produzem faltas, as faltas geram atividade, a atividade determina novos nascimentos e estes implicam dor, de modo que a eliminação progressiva dessas causas conduz à emancipação.
6. O Vaisheshika pode ser reconhecido como escola distinta, embora compartilhe princípios e procedimentos do Nyaya, diferenciando-se sobretudo pela investigação do mundo físico e material mediante uma classificação em sete categorias fundamentais.
7. A categoria das substâncias reúne terra, água, luz, ar, éter, tempo, espaço, alma e mente como componentes fundamentais da realidade investigada.
8. A categoria das qualidades compreende propriedades sensíveis, quantitativas, relacionais e psíquicas das substâncias, incluindo cor, sabor, extensão, conexão, conhecimento, prazer, dor, desejo e vontade.
9. A categoria dos atos distingue a ação como um domínio próprio da classificação da realidade.
10. A categoria da generalidade compreende aquilo que diferentes realidades compartilham e que permite reuni-las por características comuns.
11. A categoria das particularidades identifica os elementos distintivos pelos quais as substâncias se diferenciam umas das outras.
12. A categoria da inerência reúne relações constantes e inseparáveis, como as que vinculam uma substância às suas propriedades ou um composto aos elementos que o constituem.
13. A categoria da inexistência reconhece a ausência ou a negação da existência como objeto específico de consideração filosófica.
14. A formação dos mundos e dos seres é explicada pela agregação de átomos eternos e imperceptíveis sob a ação de uma força invisível constituída pelos atos de mundos anteriores, dispensando a intervenção divina na produção do universo, embora se admita uma alma suprema distinta das almas individuais.
15. As almas individuais são concebidas como eternas, distintas e onipresentes, mas sua atividade limita-se ao lugar ocupado pelo corpo, distinguindo-se uma envoltura material abandonada na morte e um corpo sutil permanente que permite experimentar recompensas e punições posteriores.
16. O Samkhya explica a existência pela associação entre a multiplicidade de purushas, inteligentes e passivos, e prakriti, ativa e desprovida de inteligência, cujas transformações produzem as funções mentais, os sentidos e os elementos materiais sob diferentes combinações das três qualidades fundamentais, enquanto a libertação depende do conhecimento que desfaz o envolvimento da alma nas manifestações da natureza.
17. O Yoga compartilha com o Samkhya a finalidade de superar a transmigração, mas reconhece Ishvara e concebe a salvação como união com o princípio supremo, alcançada por concentração meditativa, serenidade e supressão das paixões mediante disciplinas corporais, respiratórias, sensoriais e contemplativas, cuja articulação com austeridades favorece tanto a busca de libertação quanto a expectativa de poderes extraordinários.
18. A Mimamsa emprega procedimentos argumentativos para interpretar o ritual védico e defender sua autoridade absoluta, considerando os Vedas suficientes para fundamentar a verdade e a eficácia religiosa sem depender da existência de um deus supremo, além de afirmar a permanência eterna dos sons e das palavras pronunciadas.
19. O Vedanta apresenta indícios de uma formação antiga nas doutrinas budistas, mas seu desenvolvimento pleno e sua influência decisiva sobre o pensamento posterior pertencem a um período mais tardio.