NISARGADATTA MAHARAJ, Sri. Prior to Consciousness: Talks with Sri Nisargadatta Maharaj (1980–1981). Edited by Jean Dunn. Durham, NC: Acorn Press, 1984.
De certa forma, a essência do ensinamento de Sri Nisargadatta Maharaj é fácil de compreender, mas, por outro lado, extremamente difícil. É fácil se estivermos dispostos a ser completamente honestos conosco mesmos, a examinar os conceitos alheios com os quais construímos nossas próprias prisões. Investigar por conta própria pode ser extremamente difícil, pois estamos muito apegados aos nossos conceitos — não queremos abrir mão deles. Mas se o desejo de saber for ardente, então seguiremos em frente em nosso caminho. Só podemos saber quem ou o que somos por meio da experiência pessoal, não a partir de livros ou de outras pessoas.
Maharaj nos exortava a descobrir o que é esse “eu”. Ele era como um cirurgião com um bisturi afiado, removendo tudo o que era supérfluo. Suas perguntas muitas vezes deixavam a pessoa “perdida”, sem saber o que dizer. Suas respostas nunca eram as esperadas. Ele não permitia nenhuma citação de escrituras — apenas experiência pessoal — e podia ficar bastante irritado com isso. Certa vez, quando alguém citou Dakshinamurti, uma divindade hindu, Maharaj respondeu: “Que se dane Dakshinamurti! E você? Qual é a sua experiência?”
A maioria de nós se identifica com o corpo-mente e, por isso, ele insistia para que descobríssemos o que é esse corpo-mente. Ele não veio do esperma do pai e do óvulo da mãe? O corpo, então, é um produto dos alimentos consumidos e é sustentado pela alimentação, que é a essência dos cinco elementos. Podemos ser isso? Sem consciência, o corpo é matéria morta. Quando a consciência deixa o corpo, não há indivíduo, nem mundo, nem Deus. A consciência só pode estar consciente de si mesma quando se manifesta em uma forma física. A consciência está latente em cada grão de alimento, em todos os cinco elementos — é universal, impessoal, onipresente. Tudo é consciência, e é isso que somos, neste momento. A consciência atua por meio das formas de acordo com a combinação dos gunas — satwa (ser-luz-pureza), tamas (inércia-passividade-escuridão), rajas (atividade-paixão-energia) — e com o condicionamento recebido. O que acontece quando uma dessas formas “morre”? A forma volta a se tornar parte dos cinco elementos e a consciência se funde com a consciência universal. Tudo isso é um processo em andamento, o jogo da consciência.
Antes dessa forma surgir — o que eu era? Isso é o que a pessoa verdadeiramente é. Esse Parabrahman Absoluto — essas são apenas palavras que inventamos para nomear o Imanifesto, o Innomeável. O “eu” eterno, Ser absolutamente incondicionado, atemporal e sem espaço, inconsciente de seu próprio ser (porque não há outro). Eu sou como sou, como sempre fui, como sempre serei, eternamente.
Buscadores de todo o mundo vinham até Sri Maharaj em busca de sua orientação espiritual. O conteúdo deste livro foi transcrito a partir das gravações feitas durante os períodos de perguntas e respostas de 1980 e 1981, até a morte de Sri Maharaj por câncer na garganta, em 8 de setembro de 1981, aos 84 anos. Maharaj falava apenas em marata e, em cada encontro, havia um tradutor, nem sempre o mesmo; somos muito gratos a todos eles. Os mais frequentes eram Sri S. K. Mullarpat-tan, o Dr. D. Doongaji, Ramesh S. Balsekar e S. I. Sapre (falecido), além do tradutor noturno, de quem me lembro apenas como Mohan. Havia outros em momentos diferentes, mas, em geral, esses eram os tradutores do dia a dia. Também somos muito gratos à Srta. N. Vanaja, que foi tão fiel ao registrar essas palestras.
Durante os dois últimos anos de sua vida, Maharaj não respondia a nenhuma pergunta relacionada à vida mundana e ao seu aperfeiçoamento. Ele ensinava apenas a verdade mais elevada e, devido ao enfraquecimento de seu corpo, em alguns dias havia muito pouca discussão. Mas mesmo uma única frase sua era como um Upanishad. Ele era muito direto e incisivo em suas respostas e não cedia ao ego de ninguém — na verdade, seu objetivo declarado era destruir essa “pseudo-entidade”. Estar em sua presença era sentir a verdade vibrante, impossível de descrever. Era incrível observá-lo: aquela “personalidade” podia estar feliz, zangada, triste, alegre, sarcástica ou gentil, e uma variedade de emoções passava por aquele “conjunto” como a luz do sol na água. Nunca houve qualquer tentativa de mudar nada disso… deixava-se que seguisse seu curso, pois não era ele. Havia sofrimento em abundância, devido ao câncer, mas, nesse quadro humano, nunca vi ninguém mais corajoso. Nunca um gemido saiu de seus lábios. Aquele corpo continuava quando parecia impossível que pudesse fazê-lo. Só se podia contemplá-lo com amor e admiração absolutos. Embora não houvesse dúvida de que a forma de Sri Maharaj estava sofrendo de câncer, ele continuava como de costume com a rotina diária de bhajans quatro vezes ao dia e sessões de perguntas e respostas duas vezes ao dia, embora, à medida que o corpo ficava mais fraco, essas sessões fossem frequentemente encurtadas. Bastava estar em sua presença. Foi somente no final que ele passou a falar raramente.
As repetições no texto são necessárias, pois Maharaj martelava continuamente nossos conceitos, levando-nos de volta à raiz cada vez que tentávamos nos desviar para as folhas e os galhos. Quando tentávamos nos agarrar a palavras, mesmo aquelas que ele próprio havia usado, ele as arrancava de baixo dos nossos pés. Como alguém disse certa vez: “Sou imensamente grato a Maharaj. O que mais se destaca é que, independentemente de qualquer coisa, ele responde o que é mais útil e correto, mas as pessoas querem transformar os ensinamentos em um sistema, o que, no fim das contas, os arruína. Mas Maharaj não se preocupa. Ele simplesmente diz na quarta-feira que o vermelho é preto e na sexta-feira que o vermelho é branco, mas a resposta está correta naquele momento, porque muda a orientação de quem pergunta. Isso é extremamente valioso e único.” O leitor deve ler apenas algumas páginas por vez e refletir e meditar sobre elas.
Se você estiver lendo este livro, presume-se que você tenha, como disse Maharaj, “feito sua lição de casa”. Se você estiver pronto para abrir mão de sua identidade com essa pseudoentidade, continue lendo e boa jornada.
J.D.