DOMINGO, 15 DE JANEIRO DE 1978
Ao conhecer o que é o “eu sou”, o mundo se torna diversão
1. O movimento do prana e o de Ishwara são um só, convindo dar atenção à respiração, pois sem prana não há o “eu sou” e o sentido de ser surge sempre com o aparecimento do prana, e assim como não existe vestimenta adequada ao Atman, não há necessidade de mudar de roupa após a realização do Si, já que apenas os ignorantes procuram exibir sua realização, e até ostentar uma barba constitui sinal de identidade corporal.
2. As visões são todas ilusórias e conformes aos próprios conceitos, sendo ouvir o Guru a melhor prática espiritual e o caminho que facilita a libertação, pois a consciência possui atributos enquanto o Absoluto não possui nenhum, e assim como na velhice deixa-se de ser criança ou jovem sem esforço deliberado algum, com o conhecimento do Si o orgulho e o ego desaparecem espontaneamente, lembrando-se que nenhuma experiência é permanente.
3. O mundo não tem criador nem alguém que o mantenha ou destrua, sendo tudo um acontecimento espontâneo, e assim como uma notícia ouvida alegra ou entristece enquanto o não ouvido nada afeta, a mente, feita e repleta de conceitos, gera imaginação a partir de um conceito querido e constrói castelos no ar, ao passo que o Atman permanece à parte e desapegado, abrindo-se o Absoluto quando o conceito “eu sou” é conhecido, para o que basta ouvir, pois tudo o que se viu e ouviu desde a infância tornou-se o próprio mundo, e alma individual, mundo e Brahman são conceitos que evoluem por si mesmos até se tornarem onipotentes e plenos de qualidades, tendo na raiz o sentido de ser, cuja ação inicia as modificações mentais, sendo o tornar-se consciente da própria existência a qualidade principal, seguida pelo fluxo de pensamentos, e o primeiro pensamento ao despertar de manhã, o da própria existência.
4. O mundo surgiu como o aparecimento do universo num sonho, de modo que, se o corpo é real, o universo também o é, e vice-versa, embora o mundo, por mais vasto que seja, não contenha um átomo sequer de verdade.
5. A notícia da existência surgiu sobre o nivrutta, o estado sem notícia, dando início às modificações mentais e ao conceito de ser, que gerou outros conceitos até dar origem a este mundo de aparência tão real, e quando o sentido de ser se vai permanece-se no estado sem notícia, sem poder afirmar que se está nele, pois toda atividade começa somente após o surgimento do sentido de ser, consciência aparecida sem saber e sem expectativa a partir do estado sem notícia, sua verdadeira classe, e como os conceitos jamais concedem plenitude, convém persistir na meditação, isto é, no esforço de estabilizar-se no ser apesar das perturbações mentais, atentando para a raiz da falsa notícia “eu sou” estabelecida como verdadeira e olhando apenas para si mesmo, até que, conhecido o real significado desse conceito, o mundo seja visto como mera diversão em que nada jamais aconteceu, pois a mente mostra as coisas conforme o desejo, a consciência assume formas e visões desejadas e a identidade corporal multiplica os conceitos, enquanto a amizade com o “eu sou” revela a Verdade e, conhecido o segredo da consciência, a autoconsciência se desvanece no estado sem nome chamado Vijnana, no qual se percebe com o tempo que jamais se viu mundo algum e que não há como agir, cabendo até então prosseguir com as atividades normais e a vida familiar sem resistência.
6. Logo após o nascimento e antes de ouvir qualquer coisa a condição era mais apta, sendo o estado atual resultado de aceitar como verdadeiro tudo o que foi ouvido e agindo-se conforme o que entrou na mente, de modo que conhecer o verdadeiro Si é o maior ganho e a solução do enigma do mundo inteiro, pois conhecer a si mesmo é conhecer o mundo, convindo ter a convicção de ser exatamente como o Guru declarou, agir praticamente como homem ou mulher mas ser sem forma no núcleo interior, já que tudo dependerá da identidade no momento de morrer, sendo a morte apenas uma palavra e não experiência real de ninguém, e se apenas Brahman existe nada mais pode ser experimentado, enquanto a mente, que desconhece sua origem e fez de cada um seu discípulo, moldou-o segundo seu desígnio, cabendo jurar ser exatamente conforme as palavras do Guru, isto é, apenas o Si, e confiar que, vivendo segundo o mantra e o conhecimento secreto que Ele transmitiu, a realização da Verdade é certa.
7. Quando se diz que alguém morreu, o Jnani vê nisso apenas a libertação de uma ilusão, consistente em considerar-se homem ou mulher.
8. Primeiro prepara-se o material alimentar e dele surge um ser vivo, nomeado segundo a forma desse material, sendo o corpo alimento transformado que sustenta a consciência, e enquanto houver consciência haverá fome e sede.
9. Aceitas as palavras do Guru, é preciso firmeza para não seguir tateando a repetir “Hari, Hari”, pois a experiência de estar vivo é um engano amado que não dura para sempre e, por mais saudável que se torne o corpo com boa alimentação, a velhice trará fraqueza e tremor, reflexão que constitui o viveka, assim como entregar-se à consciência que diz “Jaya Guru” e reconhecer que, ao tomar-se pelo corpo, introduz-se a ideia de ser autor ou de parecer jovem ou velho, sendo viveka afirmar que o corpo muda, mas não o Si.