1. Permaneça em ser, e todo desejo de ser se dissipará
M:
A identidade individual, fundada na identificação com o corpo e no sentimento «eu sou», constitui uma manifestação transitória cuja investigação conduz ao reconhecimento de que a realidade não depende de atributos, desejos ou conceitos, pois até a consciência que testemunha o mundo surge e desaparece, enquanto o Absoluto permanece além de qualquer expressão.
O conhecimento que se manifestou como Krishna, Buda ou Cristo reintegrou-se à totalidade, de modo que nenhuma identidade separada permanece para receber ofensas, assim como, no sono profundo, desaparecem nome, posição social, sexo, nacionalidade, virtudes e faltas, permitindo o repouso decorrente do esquecimento de si como indivíduo.
Os prazeres sensoriais e as necessidades multiplicam-se enquanto persiste o sentimento de separação, mas perdem sua exigência quando se reconhece a unidade com a totalidade, razão pela qual a compreensão espiritual consiste em descobrir que nada precisa ser acrescentado à realidade que já se é.
A cessação da identificação individual não exige abandonar as atividades, mas reconhecer, em meio a elas, que o corpo, o alimento e o sopro vital não constituem a identidade verdadeira, porque tudo o que aparece como estado está destinado a desaparecer.
Enquanto o conhecimento é recebido como aquisição de uma entidade corporal e mental, ele apenas amplia o repertório de informações e fortalece a personalidade, impedindo que se compreenda uma realidade à qual não se aplicam previsões sobre o futuro de um indivíduo.
Um Deus definido por forma, qualidades ou atributos permanece submetido ao tempo, pois até o conhecimento de ser Deus desaparece quando cessa a experiência que o sustenta, assim como a condição de rei atribuída a um mendigo dura apenas enquanto ele veste as roupas correspondentes.
As tendências e qualidades produzem os comportamentos, enquanto o sentimento «eu sou» os testemunha; contudo, esse testemunho e a manifestação inteira surgem conjuntamente e desaparecem juntos, como os raios solares dependem da presença do sol.
O conhecimento de si adquirido na infância nasce da ignorância de se considerar alguém que nasceu e desenvolve-se mediante palavras e conceitos, conservando, ao longo das mudanças corporais, o mesmo sentimento de existência que finalmente desaparecerá.
O «eu sou» anuncia uma presença, mas não constitui a realidade última, cuja expressão verbal é impossível, porque qualquer afirmação pertence à consciência manifestada e deve ser ultrapassada pela negação «não isto, não isto» (neti-neti).
O sentimento «eu sou» depende do corpo sustentado pelo alimento e permanece apenas enquanto esse organismo é viável e animado pelo sopro vital, de modo que a própria consciência carece de permanência e não pode ser confundida com o Absoluto.
As convicções religiosas e espirituais frequentemente preservam ideias preferidas e rejeitam aquilo que não coincide com elas, mas mesmo a afirmação de estar estabelecido no Absoluto pode permanecer restrita à condição de ser (beingness), pois a verdade encontra-se além dos conceitos.
Assim como uma minúscula semente de figueira-de-bengala contém a possibilidade da árvore inteira e reproduz sua história, o princípio sutil da existência contém o universo, sendo a semente, entendida como «segunda criação» (bija), a concentração de uma manifestação anterior que novamente se desdobra.
V:
O «eu sou» encontra-se na semente da manifestação, suscitando a questão de como o reconhecimento dessa semente pode conduzir ao Absoluto.
M:
A própria presença consciente constitui a semente e o sentimento «eu sou», em cujo núcleo se encontra toda a manifestação, sem que seja necessário torná-lo grosseiro mediante palavras ou determinações.
V:
O núcleo interior foi igualmente caracterizado como luz, o que sugere uma relação entre a essência de si e a luminosidade.
M:
A luz designa simbolicamente uma presença luminosa por si mesma, sem corresponder à iluminação sensível, enquanto a manifestação de Brahman nasce da condição de ser (beingness) e constitui, do ponto de vista do Absoluto, uma ilusão surgida da ignorância que se sobrepõe à verdade.
V:
A origem da manifestação na condição de ser suscita a questão do caminho pelo qual esse processo pode ser revertido.
M:
O retorno à fonte exige recuar continuamente até a semente da existência e permanecer junto àquilo que permite conhecer a si mesmo, até que os desejos e apegos se dissolvam e desapareça inclusive o desejo primordial de ser, deixando a presença estabelecida no Absoluto.
A investigação de si requer atenção ao próprio princípio pelo qual se procura compreender, pois é nessa permanência, e não na procura de objetos externos, que os desejos perdem sua sustentação.
O apego fundamental consiste no amor à própria existência, de modo que permanecer na condição de ser (beingness) conduz à dissolução do desejo de continuar sendo e à realização do estado essencial do Absoluto.
V:
A compreensão de que o próprio desejo de ser deve desaparecer produz certa tristeza, embora simultaneamente aprofunde o reconhecimento do Absoluto.
M:
A tristeza pertence ao sentimento «eu sou», pois é essa presença transitória que sofre diante da possibilidade de seu desaparecimento.
V:
A passagem do ser ao não ser revela a ausência de realidade substancial em tudo o que pertence à existência, embora a ilusão tenha proporcionado prazer enquanto perdurou.
M:
O estado verdadeiro permanece sempre puro e imperturbável, sem qualquer movimento próprio, enquanto somente a consciência do «eu sou» encerra sua manifestação, deixando intacta a presença que jamais se deslocou.
V:
A distinção entre a permanência do estado verdadeiro e o desaparecimento da consciência exige uma explicação mais clara.
M:
A compreensão da natureza da consciência permite acompanhar seu progressivo desaparecimento sem que o Absoluto seja afetado, assim como o céu permanece quando a chama se extingue e a fumaça desaparece.
V:
A comparação entre a permanência do céu e a extinção da chama exprime com beleza a relação entre o Absoluto e a consciência transitória.
M:
O desaparecimento do sopro vital e do sentimento «eu sou» revela, no momento da morte, a imortalidade da realidade que os testemunha, cuja compreensão exige abandonar a identificação com o corpo e a mente, retornar à fonte da existência e permanecer nela até que os hábitos de individualização cedam à certeza de ser a totalidade.
A morte constitui o momento em que o sopro vital abandona o corpo e a consciência se extingue, produzindo medo e resistência para quem se identifica com o organismo, mas felicidade e bem-aventurança para o conhecedor (jnani), que reconhece a permanência da realidade.
A procura de santos e centros espirituais para acumular conhecimento como indivíduo conserva a participação no sonho da manifestação, cuja repetição em formas humanas, animais ou divinas não resolve a questão fundamental de reconhecer aquilo que ultrapassa todas essas formas.
A unidade entre as presenças não depende de preferência, oposição ou apego pessoal, assim como o espaço de um aposento não ama nem rejeita o espaço de outro, porque ambos constituem um único espaço.
O conhecimento oferecido assemelha-se a um rio disponível para quem deseja beber e assimilá-lo, mas seu propósito consiste em reconduzir continuamente à nascente, onde se reconhece que a suposta água é apenas o sabor e a notícia de que «eu sou».
As perguntas fundadas na consciência do corpo e da mente prolongam o jogo enganoso da identificação, enquanto a compreensão efetiva permite permanecer na convicção de ser a totalidade e realizar a união consigo mesmo, designada como mahayu(k).
O princípio essencial consiste em reconhecer que, porque se é, toda a manifestação existe, mantendo essa certeza de modo firme e orientando a vida segundo aquilo que foi compreendido.
A reflexão sobre a realidade, sobretudo antes do sono, e a permanência em uma única indicação compreendida podem conduzir à fonte, enquanto a passagem incessante de um ensinamento a outro apenas acumula conhecimentos sem transformar a identificação.
Um conceito profundamente assimilado pode desalojar os demais, assim como, na história do homem convencido de ter sido envenenado, a crença em um antídoto substitui a certeza da morte, evidenciando o poder das ideias sobre o medo e sobre a experiência vivida.
A produção reiterada de conceitos e criações pertence à atividade do sopro vital, mas sua natureza somente se torna clara mediante a investigação de si, que permite reconhecer a condição de ser (beingness) como fonte da felicidade.
A procura de satisfação no fluxo das atividades de maya conduz ao sofrimento, enquanto a assimilação paciente do conhecimento e a permanência em quietude reconduzem à origem da felicidade.
O corpo é composto pelos cinco elementos, e a consciência depende do organismo alimentado e do sopro vital que nele circula, de modo que o desaparecimento dessas condições faz cessar toda a manifestação correspondente.
A possibilidade de observar o corpo, a força vital e o sentimento de existência permite estabelecer-se na realidade, porque aquilo que presencia esses elementos não se reduz a nenhum deles.
A antiga associação com o corpo e a mente persiste como hábito e exige reflexão e meditação constantes, substituindo-se a identificação habitual pela compreensão contínua de que a identidade verdadeira não é corporal.
Em uma discussão, a mente produz o conflito, mas seu testemunho pode permanecer sem participação, pois as atividades mundanas pertencem ao funcionamento mental e só aprisionam quando são tomadas como ações de uma identidade constituída pelo corpo e pela mente.
A unidade absoluta com Brahman dispensa o recurso à mente e permanece silenciosa, enquanto a fala exige utilizar o instrumento mental e, nesse sentido, afastar-se ligeiramente dessa absorção para que a expressão se torne possível.