HERMENÊUTICA DO ABSOLUTO

BBAHA

O Paratrisika Tantra pertence à mais alta classe de Tantras do Śaivismo não dual da Caxemira, sendo aceito pelas maiores autoridades da tradição como um texto que aborda a Realidade última em uma atitude de não dualismo supremo (paramadvaita), transcendendo tanto o dualismo dos Siddhanta quanto a dependência de rituais para a libertação.

O Texto e o Comentário

O Parātrīsikā é um pequeno Tantra de 36 versos que reivindica fazer parte do Rudrayāmalā Tantra, embora essa afiliação pareça não se justificar estilisticamente, sendo talvez um reflexo do desejo dos editores de aumentar sua autoridade.

O Tantra

O Tantra é revelado na forma de um diálogo entre a Deusa e Bhairava, uma forma que recebe uma interpretação não dual no contexto dos Advaita Bhairavagamas, partindo de diferentes tipos de relação (sambandha).

Abhinavagupta

Abhinavagupta é uma figura extraordinária nos domínios da filosofia indiana, estética, Tantra e misticismo, cuja genialidade merece ser reconhecida além do contexto da Caxemira e do sânscrito.

Vivaraṇa

Abhinavagupta considera o Tantra como um Sūtra (Anuttarasūtra) e nomeia seu comentário como Vivaraṇa, cuja função é remover as coberturas (āvarṇatavam) que escondem o significado real do texto ou sūtra.

Anuttaraprakriya

Abhinavagupta refere-se à sua própria obra no Tantraloka como Anuttaraprakriya, significando “o tratado/o método relativo ao Insuperável/Absoluto”, título que indica que todo o propósito do Parātrīsikā está relacionado ao Anuttara e que prakriya é mais do que um método ou procedimento.

O Método de Abhinavagupta

Abhinavagupta lida com qualquer texto ou assunto com intensa consciência da metodologia, usando todas as ferramentas à sua disposição, desde gramática e etimologia até lógica e crítica literária.

Destinatários do Vivarana: Prayojana e Adhikāra

A questão de para quem a obra é composta é respondida por Abhinavagupta em três níveis, incluindo um pessoal e biográfico, mencionando discípulos específicos como Karna, Manoratha Gupta e Rāmadeva.

O Contexto: O Lugar do Texto na Tradição

A Caxemira tem sido o lugar de origem de vários Tantras/Āgamas, não apenas do Śaivismo, mas também do Pāñcarātra (Vaiṣṇava) e Śākta, com uma divisão geral entre o Siddhānta (ortodoxo e congruente com o Veda) e o Mantramārga da “Esquerda” (compreendendo Kula/Kaula, Trika, Krama).

Hermenêutica e Exegese Tântrica

Hermenêutica é, antes de tudo, um método que “transporta” um texto de um contexto a outro, que “transfere” o significado e reflete sobre os perigos e transformações que podem acontecer no caminho.

A Problemática da Tradução

A tradução de conceitos centrais e esotéricos do texto e do comentário apresenta problemas, como o termo cit/caitanya/samvit uniformemente traduzido por “consciência”, embora a filosofia indiana o entenda como universal, diferentemente da filosofia e psicologia ocidentais.

Estado da Pesquisa sobre o Parātrīsikā Vivarana

Após a primeira edição na “Kashmir Series of Texts and Studies” (1918), o texto recebeu a atenção de K.C. Pandey, foi ensinado ao último Ācārya do Śaivismo da Caxemira, Swami Lakshman Joo Raina, e dois de seus discípulos prepararam traduções anotadas (em hindi por Nilkanth Gurtoo, em inglês por Jaideva Singh).

A Disseminação do Anuttara Trika / Parākrama

Ksemarāja, o principal discípulo de Abhinavagupta, compôs uma versão muito breve e simplificada do Parātrīsikā em seu Parāpraveśikā, com o objetivo de popularizar o Tantra e tornar sua doutrina secreta acessível a praticantes que não podiam estudar o difícil Vivaraṇa.

A Abordagem do Comentário

As condições e pré-requisitos para ler o texto e praticá-lo (adhikāra) aplicam-se em maior medida se alguém tem que comentá-lo, exigindo duas qualificações: entender a tradição de dentro e ver o texto de uma distância hermenêutica que permita novos insights.

Nota sobre a Edição e Tradução

A tradução em inglês de Jaideva Singh (publicada em 1989) é a mais amplamente disponível, sendo a base para as traduções dos versos do Tantra e para grande parte do comentário, embora esta tradução tenha sido criticada por ser muito livre e por faltar a precisão necessária para um texto técnico.