DANIÉLOU, Alain. Shiva and the Primordial Tradition: From the Tantras to the Science of Dreams. Rochester: Inner Traditions International, Limited, 2006.
1. A filosofia shivaíta não conhece dogma nem separa teologia e cosmologia, ciência e religião, cujo fim comum é compreender a natureza do mundo e o papel e o destino dos seres vivos, podendo o universo, visto de dentro, ser concebido como um jogo, uma fantasia nascida na mente de um Ser transcendente, que, por conceber o mundo, está necessariamente fora dele, além do nascimento do espaço, do tempo e da existência, incognoscível, imperceptível, inativo, inexistente, além do número, nem uno nem múltiplo, e que não pode ser personificado, imaginado nem nomeado senão negativamente.
2. Esse Ser existe desde antes da criação do espaço, receptáculo que tornou possível a formação do universo, seguida da explosão de energia que deu origem à matéria, aos átomos e aos sóis e à medida do tempo.
MANIFESTAÇÃO
1. O primeiro princípio a aparecer é o espaço, chamado akasha ou éter, potencial de desenvolvimento do universo, seguido do plano, o sistema segundo o qual o mundo se desenvolve, pois as leis de atração e de gravitação que conduziram à formação dos átomos e das galáxias, bem como os princípios da consciência e da percepção, precederam necessariamente essa formação, constituindo esse conjunto de leis, imagem preexistente do mundo, o Purusha, o homem universal.
2. Por fim apareceu a energia, Shakti, substância de que se formam todos os componentes do universo, tudo o que pode ser designado como algo (tattva), massa de energia chamada pradhana, a base, Prakriti, a natureza, e também maya, o poder de ilusão, uma vez que todas as aparências do mundo não passam de combinações mais ou menos instáveis de tensões ou vibrações de energia, sendo a matéria apenas aparente.
O Princípio do Eu
1. O primeiro princípio surgido de Prakriti é a noção de individualidade, de eu, em torno da qual se forma cada átomo, cada célula, cada ser vivo e cada sistema solar, pois o ser vivo é apenas um conglomerado de células dotadas cada uma de individualidade e comportamento independente, agrupadas num sistema complexo em torno de um ego que diz eu, independente de suas partes componentes, e o mesmo vale para cada átomo e cada sistema planetário, de modo que uma espécie de consciência está presente em todos eles e o sol tem consciência como todo ser vivo, noção decisiva porque a ideia de um deus, de um personagem divino, é projeção da noção de individualidade, de um ser que diz eu, não sendo o monoteísmo senão a deificação da noção de individualidade.
Os Dezesseis Tattvas
1. Surgiram então os diferentes componentes do universo, os dezesseis tattvas, aquilo que pode ser definido como algo, isto é, os princípios dos cinco estados da matéria (tanmatra), as cinco formas de percepção correspondentes e as cinco formas de ação relacionadas, aos quais se acrescenta o princípio do pensamento.
2. Os cinco estados da matéria manifestam-se primeiro como potencial magnético e depois sucessivamente nas formas gasosa, ígnea, líquida e sólida, ao mesmo tempo que surgem as cinco formas correspondentes de percepção, que no ser humano são os cinco sentidos, a audição ligada à vibração, o tato ao estado gasoso, a visão ao estado ígneo e à luz, o paladar ao estado líquido e o olfato ao sólido, conexão que se verifica no modo como as partículas gasosas se comunicam por colisão, as estrelas, reatores de fusão, pela luz, e os elementos liquefeitos se misturam ou se separam pelo sabor.
3. Em toda parte, em cada átomo e em cada grupo de partículas que forma uma entidade, estão presentes um eu, princípio do pensamento, e a consciência, pois Purusha, o plano, o intelecto universal, permeia todos os aspectos de Prakriti, a natureza.
4. Na busca da natureza, da origem e da razão de ser do mundo, encontra-se em cada estágio um aspecto mais ou menos abstrato do divino, de modo que no nível dos princípios dos cinco sentidos, os elementos, se concebem um deus dos ventos, Vayu, um deus do fogo, Agni, um deus das águas, Varuna, e a terra nutridora como Deusa Mãe, sendo o sol, centro do mundo, doador de luz e de vida, a própria imagem da divindade, e podendo-se igualmente conceber espíritos sem outra substância que o pensamento, como personagens de um sonho, e deuses correspondentes aos poderes de ação, personificando a força, a coragem, a justiça, o amor, a amizade, a destruição e a morte.
SUBSTÂNCIA E ARQUÉTIPO (PRAKRITI E PURUSHA)
1. Subjacentes à manifestação estão Prakriti, substância do mundo criado, considerada aspecto feminino, e Purusha, plano arquetípico, considerado princípio masculino, aspecto representado no Shivaísmo pelo culto do falo, princípio masculino de onde provém o sêmen que contém o código genético, plano do ser vivo que se manifesta na substância, no óvulo contido no órgão feminino.
2. A aproximação detém-se nesse ponto, pois além do par Purusha-Prakriti, ou Shiva-Shakti, ergue-se a barreira que separa o criado do não criado, do inexistente, do não-ser, do incognoscível, de modo que só se pode adorar o princípio do mundo em sua manifestação, em suas obras, nas quais cada aspecto revela de forma velada um aspecto do plano divino, obra de variedade infinita em que o divino pode ser reconhecido em qualquer aspecto escolhido como sua imagem, naquilo que mais se ama, seja uma árvore, um animal, um homem, uma mulher, um pássaro, uma pedra, um símbolo ou uma ideia, razão pela qual os deuses são inumeráveis.
3. Todos os caminhos conduzem ao Criador sem jamais alcançá-lo, e a força do amor e da devoção permite avançar um pouco mais a cada vez, mas o esforço de concentração necessita de um suporte, que se torna a imagem do divino, assim como se contempla o rosto do ser amado sabendo que esse rosto não é a pessoa amada, aparecendo assim o divino em múltiplas formas, sob a aparência de inumeráveis deuses.
O ERRO MONOTEÍSTA
1. O monoteísmo é um erro metafísico, pois o princípio do mundo, exterior ao mundo, está além do número e é impessoal, indescritível e incognoscível, e sobretudo é perigoso por suas consequências, já que projeta o eu humano na esfera divina e substitui o amor e o respeito pela obra divina em seu conjunto por um personagem fictício, espécie de rei celeste que governa os assuntos humanos e a quem se atribuem os éditos mais absurdos, deus pretensamente único e intolerante que não passa do deus de uma tribo, tendo as religiões monoteístas servido de pretexto a perseguições, massacres e genocídios e combatendo-se entre si para impor aos outros o domínio de seu tirano celeste.
2. Na realidade, o monoteísmo é apenas uma ficção política, inexistente no plano religioso, em que se adoram a Deusa Mãe, a Mãe Terra que aparece nas cavernas, diferentes símbolos, profetas, heróis, santos e lugares sagrados, não importando na aproximação do divino a imagem ou o rosto que se lhe dá, pois é legítimo dizer que é em Jesus que se vê Deus, por ser essa a forma visível na qual melhor se concebe sua face, mas negar que Baal ou Apolo sejam deus, que Deus habite uma árvore sagrada ou que o falo seja símbolo do Criador, e destruir esses ídolos, é negar a presença do divino em suas obras manifestadas, já que Deus é tudo, está em toda parte, ou não é nada.
3. Confunde-se o que os hindus chamam ishta devata, o deus escolhido, aspecto que cada um elege para adorar como representante do divino, com a realidade cosmogônica do Ser Universal, quando a devoção ao deus escolhido não deve tornar-se negação das outras faces do divino, assim como se pode dizer que a mulher amada é a esposa escolhida, mas não exigir dos outros homens que a considerem a única mulher e façam amor com ela, residindo o erro do monoteísmo num raciocínio semelhante, que opõe um deus escolhido às mil faces através das quais brilha a realidade divina.
4. Ninguém sabe por qual aspecto do mundo a experiência do divino se manifestará um dia, e para muitos é no ato amoroso que a sensação fulgurante dessa realidade surge de repente, sendo a união dos corpos no amor, reflexo da união dos princípios cósmicos, talvez a experiência mais alta e mais direta da beatitude, da alegria ilimitada que é a natureza do estado divino.