Segundo a tradição shivaíta, desde que a terra se tornou habitável várias humanidades já existiram, cada uma com seu período de glória, de desenvolvimento técnico e de saber, seguido de declínio e de um fim cataclísmico.
A humanidade atual é a sétima, e após seu fim a terra conhecerá ainda sete espécies humanas ou semelhantes antes de se tornar inabitável, pois todas as espécies evoluem como entidades individuais, com gestação, infância, adolescência, maturidade e declínio.
O relato purânico do fim de uma humanidade anterior mistura a lembrança de duas catástrofes: a destruição da civilização dos Assuras, há mais de sessenta mil anos, e a destruição das cidades do Indo pelos invasores arianos, que marca o início do Kali Yuga.
A história dos Assuras é ao mesmo tempo um relato do passado e uma predição do futuro, pois há um paralelismo evidente entre as concepções religiosas, ideologias e teorias sociais e morais que os destruíram e aquelas que caracterizam a humanidade atual desde o início do Kali Yuga e parecem conduzir à catástrofe provocada (naimittika pralaya).
Essa história ensina também como, pelos atos e sobretudo pelas concepções morais e religiosas, é possível retardar o desfecho para a humanidade ou parte dela, permitindo a alguns atravessar o cataclismo e participar da idade de ouro futura.
Os Assuras, que haviam atingido um prodigioso nível de civilização, eram fervorosos adoradores de Shiva e praticavam o culto do Linga, o falo divino, e com a ajuda de Maya, o arquiteto dos gênios, construíram três cidades inexpugnáveis: uma de cobre sobre a terra, outra de prata flutuando acima do solo e uma terceira dourada no alto do céu.
Segundo o Shiva Purana, os príncipes assuras eram comedidos, disciplinados, honestos e corajosos, inimigos dos deuses arianos, sabiam controlar a energia solar, distribuíam alimento aos famintos, podiam viver sob as águas e dispunham de árvores da abundância, carros voadores luminosos, máquinas de medir o tempo, jardins, reservatórios, locais de estudo e cidades povoadas por gente de toda espécie.
Os deuses dos arianos, invasores bárbaros que cobiçavam os territórios dos povos civilizados, buscaram o favor de Shiva para destruir as fortalezas assuras, mas Shiva, deus da justiça e de todos os seres vivos, recusou-se, declarando que os Assuras eram sem falta e seus devotos, e que só poderia destruí-los se eles se afastassem dele.
Vishnu, deus que preside às virtudes cívicas, aconselhou um grande sacrifício em honra de Shiva, do qual surgiram milhares de espíritos malfazejos armados, inclusive com mísseis de fogo semelhantes à energia solar, mas seus ataques foram inúteis, pois o culto do falo garantia aos Assuras a realização de todos os desejos, sendo necessário fazê-los renegar seu deus protetor.
Vishnu criou então um personagem estranho e perverso, de cabeça raspada, roupa suja, mãos frágeis e rosto pálido, chamado Arihat, destruidor dos piedosos, encarregado de compor um pseudolivro sagrado de 1.600 versos em linguagem popular condenando as castas e os deveres das idades da vida, e de ensinar que o céu e o inferno só existem nesta vida.
Arihat recrutou quatro discípulos de cabeça raspada, que cobriam a boca com um pano para não engolir insetos, varriam o chão diante de si para não esmagar criaturas vivas, repetiam que sua lei era a única verdade e se faziam chamar Veneráveis.
A doutrina pregada proibia matar qualquer criatura e prescrevia alimentar-se apenas de vegetais, como se as plantas não fossem também seres vivos, num mundo nascido do Sacrifício em que nada sobrevive senão devorando a vida; recusava os prazeres que aproximam dos deuses, condenava o culto do falo e afirmava a transmigração, de modo que o filho deixava de ser continuação do pai e o respeito entre pai e filho desaparecia.
O pérfido sábio Narada, instruído por Vishnu, iniciou-se no novo culto, conduziu os monges até a cidade dos Assuras e persuadiu o rei a converter-se à nova religião, renunciando aos ritos antigos e aos sacrifícios, sendo seguido pela maioria dos Assuras.
Os ensinamentos de Arihat ao rei afirmavam que o universo é eterno, sem criador e sem finalidade, que cada ser vivo é para si mesmo um deus, que Brahma, Vishnu e Shiva eram apenas homens divinizados, que todos os seres são iguais, que a não violência é a virtude principal, que o prazer é o céu e o sofrimento o inferno, que se deve gozar a vida enquanto o corpo é vigoroso e depois destruí-lo pelo suicídio, que não há castas nem diferença entre as virtudes femininas e viris, e que os deuses não devem ser venerados.
Abandonados os ritos nas três cidades, o poder dos Assuras declinou, e Shiva consentiu em destruí-los, mas exigiu antes que os deuses arianos reconhecessem sua suserania como Senhor dos Animais (Pashupati), pastor de todos os seres, o que fez o mundo ariano herdar em parte a sabedoria assura.
Shiva esperou que as três cidades se alinhassem, como faziam periodicamente, e no momento marcado pelo destino lançou sua arma mais terrível, uma arma de fogo resplandecente como mil sóis, que reduziu as cidades a cinzas e as fez desabar no meio dos quatro oceanos.
O extermínio foi total: os Assuras caíam como moscas, uns no meio da refeição, outros abraçados às esposas, mulheres buscavam proteger filhos já mortos, todos clamavam pelo abandono de Shiva, e nenhuma parcela animada ou inanimada escapou ao fogo, cuja visão aterrorizou até os próprios deuses.
Salvaram-se apenas alguns fiéis de Shiva refugiados na região dos Ganas, companheiros de Shiva, isto é, o mundo de Mahar ou mundo extraplanetário, e esses sobreviventes preservaram em segredo elementos do saber assura para as humanidades futuras.
Vishnu ordenou ao falso sábio, que reconhecia ter cometido um ato abominável, que se retirasse ao deserto e aguardasse o Kali Yuga para espalhar de novo sua mensagem entre os homens vaidosos e estúpidos desse tempo, conduzindo-os ao declínio até a explosão final, e Shiva confirmou aos Tonsurados que, na idade final de cada raça humana, os seguidores de seu ensinamento chegariam ao desastre.
A prática da nova religião privou os Assuras de suas virtudes, de sua virilidade, de sua coragem e de sua força: o puritanismo tornou-os mentirosos e neuróticos, o vegetarianismo enfraqueceu seu vigor e a não violência tornou-os pusilânimes, além de terem renegado o culto de Shiva, do falo e o Dharma, lei que atribui a cada um deveres segundo sua natureza.
Os novos deuses aceitaram com relutância a primazia de Shiva e a herança do saber assura, e Shiva permaneceu entre os arianos da Índia, como Dioniso entre os arianos gregos, o deus supremo e ao mesmo tempo maldito.
Os povos arianos adotaram por toda parte religiões moralistas derivadas de Arihat, que marcam o fim do Kali Yuga, enquanto a sabedoria assura ligada ao shivaísmo sobreviveu em segredo numa tradição esotérica e iniciática.
A lição essencial é que o declínio dos Assuras resultou de uma mudança nas concepções religiosas, sociais e morais, quando o culto do falo, as práticas do yoga tântrico e a busca da compreensão das leis naturais foram substituídos por noções sentimentais e negativas como abstinência, puritanismo, não violência e igualitarismo.
A época atual oferece uma imagem inquietante dessa substituição, pois o homem, por estranho orgulho, procura trocar a ordem divina e natural por uma ordem humana que opõe pretensas virtudes morais à magia dos ritos e dos sacrifícios, atitude que só pode conduzir ao desastre e que leva a sociedade, e até as obras científicas, a evitar encarar as realidades contrárias às ideologias derivadas de Arihat.