Permanece a dificuldade maior, ilustrada pela impossibilidade em que se encontra cada um de estender a outrem sua própria consciência de si — as vasana e samskara podem explicar a orientação específica e o comportamento particular pelos quais determinada série confirma concretamente sua originalidade em relação às outras, mas não explicam como, desde toda a eternidade, os dharma se encontraram repartidos em séries homogêneas fechadas sobre si mesmas e radicalmente separadas umas das outras.
O que parece faltar aqui é uma teoria da reflexividade — do movimento pelo qual a série se totaliza ela mesma, em vez de se deixar simplesmente apreender do exterior como unidade.
Os textos manifestam uma certa tendência a esquivar a dificuldade — a resposta do Mahaprajnaparamitasastra é puramente sofística: A dificuldade nos é comum, pois se o homem concebesse a ideia de atman em relação à pessoa de outrem, seria ainda preciso perguntar por que não concebe a ideia de atman em relação à sua própria pessoa.
A fraqueza dessa resposta reside no caráter puramente artificial da hipótese simétrica considerada — ninguém jamais é tentado a sentir como atman a pessoa de outrem.
O Abhidharmakosa, por sua vez, não consegue evitar a tautologia: Porque não há relação entre a série dos elementos de outrem e essa noção. Quando o corpo ou o pensamento estão em relação com a noção de eu — relação de causa a efeito — essa noção nasce no lugar desse corpo, desse pensamento; não no lugar de outros elementos. O hábito de considerar minha série como eu existe em minha série desde a eternidade.
Responder que minha série se constituiu como tal desde a eternidade, precisamente por ter — mais do que por ter adquirido — o hábito de se apreender como eu, equivale a supor resolvido o problema da delimitação dessa série em relação às outras: cada série fazendo o mesmo por sua própria conta, não se alcança por essa via senão um eu universal ou formal.
A única resposta coerente, de um ponto de vista budista, parece ser a da escola do meio — ela consiste em considerar o problema inteiro como um desses dilemas característicos do domínio da experiência mundana e insolúveis em seu nível: O que é atman para ti é não-atman para mim; não se trata, portanto, necessariamente de um atman. É em torno das coisas impermanentes — não é assim — que a imaginação desdobra suas hipóteses.