Uma das características essenciais da Palavra suprema enquanto energia espiritual, enquanto idêntica ao primeiro princípio, é precisamente a liberdade ou, mais exatamente, a total autonomia — svatantrya —, noção que retorna muito frequentemente nos autores estudados e que
Abhinavagupta considerava tão essencial que designava às vezes o Trika pela denominação de svatantryavada: doutrina da liberdade ou da autonomia.
O primeiro princípio é pura espontaneidade criadora, fulgurância do livre poder e da generosidade divinos; a total autonomia caracteriza o aspecto mais elevado da divindade.
Com a emanação, essa liberdade se restringe pouco a pouco até que, em nosso mundo, os seres estejam acorrentados ao devir.
A Palavra, ao mesmo tempo, de totalmente autônoma, ato puro e livre, torna-se a linguagem humana submetida a “convenções” e geradora do assujeitamento dos homens.
Se a livre fonte, o puro substrato dessa linguagem, é “reconhecida” sob as aparências e se o homem consegue penetrar e utilizar certos aspectos que escapam à servidão da linguagem — os mantra —, ele retoma contato com essa fonte e, liberto vivente, identifica-se à espontaneidade, à autonomia criadora, à fonte da Palavra.