Os capítulos 3 a 7, que formam o núcleo do livro, são dedicados à descrição dos vários aspectos dessa energia da Palavra segundo os Tantras selecionados, exposição que revela uma constante ambivalência, uma contínua oscilação nas descrições entre o humano e o cósmico e vice-versa — traço distintivo não apenas do espírito tântrico, mas mais geralmente do espírito indiano, para o qual, desde o vedismo, o conhecimento da realidade suprema se fundava no das correlações antropocósmicas.
A energia — sakti — é ao mesmo tempo Palavra — vac —, Consciência — cit, samvid —, sopro e energia vital ou vibrativa — prana —: não há distinções absolutas nem descontinuidade entre o humano e o cósmico, o vital, o psíquico ou o espiritual.
Todos os desenvolvimentos da Palavra descritos podem ocorrer de modo homólogo no homem ou no cosmos — como é o caso com a evolução da vibração sonora primordial e o movimento da kundalini como forma de energia fônica (cap. 3).
Essa ambivalência origina-se das próprias premissas de um sistema que concebe o ato criador à maneira de um ato de fala que é um ato humano, mas que inverte a ordem e vê nesse ato nada além da reprodução, ao nível humano, de um ato ou processo arquetípico e divino.
Assim se verá (cap. 4) como o universo emerge na consciência divina, através dos quatro estágios ou níveis da fala, assim como a linguagem ou o pensamento explícito o faz na consciência humana, enquanto o processo em sua transposição cósmica serve para explicar o processo humano e especialmente a validade cognitiva da fala.
De modo análogo (cap. 5), as categorias — tattva — da manifestação cósmica surgem concomitantemente com os fonemas do sânscrito — varna — dispostos em ordem gramatical, enquanto a gramática — bem como a fonética tradicional — serve para justificar a cosmogonia.
O sânscrito, língua da revelação, é divino, e quanto à gramática — “porta da salvação”, “próxima do brahman e ascese das asceses” segundo Bhartrhari, no Vakyapadiya, 1.11 —, ela fornece um dos principais apoios de todo raciocínio para qualquer pessoa que use o sânscrito.