O Vijñanabhairava Tantra é um texto sagrado da escola xivaíte monista do Kashmir, considerado um dos mais antigos e estimados Tantras, especialmente pelos adoradores de Bhairava.
Abhinavagupta o chama respeitosamente de ‘Śivavijñānoṇanisaṅd’.
O texto é apresentado como a quintessência do Rudrayāmalatantra, que trata da união de Rudra com sua energia.
Diferente de outros Āgamas, neste texto, Śiva aparece como discípulo iniciado pela Deusa Parvaṭī.
O estudo do Tantrismo e dos Āgamas kashmirianos é difícil devido à natureza de doutrina secreta, transmitida por iniciação e não divulgada.
Atualmente, poucos mestres na Índia detêm o segredo, exigindo que sejam yogins e pandits bem estabelecidos na tradição.
A linguagem dos textos é obscura e cheia de termos técnicos para desencorajar a curiosidade do leitor.
Especificamente sobre o Vijñanabhairava, a tradição se perdeu, restando apenas uma glosa inacabada de Kṣemarāja.
O comentário tardio de Śivopādhyāya é considerado não confiável por sua preferência pela interpretação vedântica.
A descoberta de versos citados no Tantrāloka de Abhinavagupta e nas obras de Kṣemarāja facilitou a interpretação do texto.
Os Tantras rejeitam os rituais dos Veda como obsoletos e se dirigem a todos os homens, sem restrição de raça, casta, sexo ou crença.
A nova revelação é feita por Śiva à Deusa, sua energia divina (śakti).
Um Tantra tardio, o Kāmakalāvīlāsa, relata que Paramaśiva se divide no casal celestial Śiva e sua energia, que então transmite o ensinamento aos mestres espirituais na era atual (kaliyuga).
Segundo Abhinavagupta, o āgama é a “palavra divina”, a atividade interior de Iśvara (consciência pura), consistindo em uma firme tomada de consciência.
O termo āgama indica que permite conhecer o objeto sob todos os seus aspectos.
Os Āgamas não são tratados de filosofia abstrata, mas se interessam pela obtenção do fim último, descrevendo práticas rituais, fórmulas sagradas, diagramas e iniciações.
Os autores espalham as revelações para torná-las inacessíveis ao público sem a chave de um mestre.
O que há de mais profundo e original nos Āgama sobre a experiência mística está condensado no Vijñānabhairava.
O texto distingue nitidamente ritual e mística, desprezando o primeiro e dedicando-se à experiência pessoal da identificação com Śiva.
Ele deixa de lado rituais e teologia, expondo estados místicos e práticas que favorecem seu aparecimento, sintetizando técnicas tradicionais da mística indiana.
O texto possui espontaneidade, liberdade e verve, diferindo da simbolismo frio e fixo dos sistemas antigos.
Sua originalidade inclui a natureza ampla ou não formal do “suporte” da concentração e sua rápida supressão (ex.: noite, céu, movimento lento).
O Vijñānabhairava é inteiramente voltado para a experiência da interioridade absoluta da consciência, em oposição à dispersão da exterioridade.
A consciência interiorizada se concentra tão poderosamente que elimina o objeto, formando uma massa indivisa de Consciência (cidghana).
A realidade última, chamada bhairava, é inefável e só pode ser experimentada por si mesmo.
O objetivo do tratado é ensinar o acesso a essa experiência ou a identificação com o absoluto Bhairava por meio da mediação de sua energia (śakti) discriminadora (vijñāna).