Goraksa, autor da Maharthamanjari, recebeu de seu mestre Mahaprakasa o sobrenome Mahesvarananda — felicitado pelo Senhor — no momento de sua iniciação.
Mahaprakasa: mestre que conferiu o nome honorífico
Mahesvarananda: nome iniciático que significa “felicitado pelo Senhor”
Filho de Madhava e natural do país Cola, ao sul da Índia, Goraksa viveu por volta do século XII, posteriormente a Ksemaraja, a quem menciona com frequência, e deixou nas estrofes iniciais e finais de seu próprio comentário à Maharthamanjari — intitulado Parimala — numerosos detalhes sobre sua vida e suas obras.
Parimala: comentário de Goraksa à sua própria obra, significando perfume
Mahaprakasa: mestre cujo olhar bento — kataksapata — purificou Goraksa de todas as suas impurezas, produzindo a plena revelação do Si
Iniciado nas diversas escolas xivaítas do Caxemira, na Auttaramnaya e no Krama esotérico, foi à Pratyabhijna que deveu o Conhecimento iluminador
Abhinavagupta: mestre venerado por Goraksa, que estudou não apenas suas obras filosóficas, mas também seus tratados poéticos, o Dhvanyaloka e o Locana
Goraksa pertencia à tradição mística Mahartha ou Mahanaya, idêntica à Auttaramnaya, e mais particularmente à seita dos Yoginimelapa, cuja tradição difere um pouco da do Trika, tendo sido iniciado por uma siddhayogini no curso de um sonho.
Siddhayogini: divindade feminina que iniciou Goraksa em sonho, aparecendo em estado intermediário entre vigília e sono — correspondente ao êxtase do Quarto estado, o turya
As yogini são as faculdades de um yogin tornadas potências divinas
O termo siddha designa a pura energia procedente do sopro e dependente do próprio Bhairava
Mahesvarananda identifica a yogini que viu em sonho com a realidade última do sistema Krama, saudando-a com reverência pelo nome de Kalasamkarsani
Após breve exposição do sistema Krama, de suas origens e de sua transmissão por Sivanandanatha e por uma série de mestres até seu próprio guru Mahaprakasa, Goraksa conta que havia o costume de adorar constantemente a divindade, meditar e recitar fórmulas, até que um dia, após concluir um ritual de oferendas, apareceu-lhe uma siddhayogini extraordinária vestida como asceta de farrapos remendados — kantha — portando um tridente numa mão e um crânio na outra.
Sivanandanatha: primeiro mestre na cadeia de transmissão do Krama
Mahaprakasa: guru imediato de Goraksa
Duli: companheira no círculo sacrificial
A yogini pediu que se transmitisse a mudra e que se colhesse seu fruto, tocou a fronte de Mahesvarananda com a cabeça de morte e desapareceu
Mahesvarananda ofereceu à yogini um assento, prestou-lhe homenagem e pediu-lhe um donativo em prata, mas ela, colérica, disse em maharastri “para que serve tudo isso”, fez com a mão o número sete e acrescentou que aquela mudra devia ser transmitida e seu fruto colhido, tocando então a fronte de Mahesvarananda com a cabeça de morte antes de desaparecer, sendo que na manhã seguinte o mestre viu no episódio o sinal de que devia afastar-se da multiplicidade dos objetos do culto e expor a verdadeira via em setenta versos na língua Maharastri.
Maharastri: língua em que a yogini falou e na qual foi redigida a Maharthamanjari
O hábito em farrapos foi interpretado como símbolo do mundo objetivo em sua diversidade
O tridente simboliza a tripla energia: vontade, conhecimento e atividade
A cabeça de morte simboliza o ser humano
A expressão kanthasulakapa lamalatravibhava designa o que manifesta o universo inteiro através do sujeito limitado graças às três energias
Mahesvarananda transcreveu a revelação em setenta versos intitulando-a Maharthamanjari — buquê de flores no sentido supremo — traduzindo-a depois para o sânscrito e comentando-a no longo comentário chamado Parimala, perfume
Existem duas edições dessa obra com as versões pracritas e sânscritas: a primeira, publicada na Kashmir Series of Texts and Studies, possui um comentário abreviado; a segunda, publicada em Trivandrum, acompanha-se de uma glosa completa, sendo que a partir da vigésima estrofe a ordem dos versos difere, tendo sido escolhida em geral a segunda versão.
Kashmir Series of Texts and Studies: primeira série de publicação
Trivandrum Sanskrit Series, n. 66: segunda edição, organizada por Mahamahopadhyaya T. Ganapati Sastri, 1919
A partir da vigésima estrofe, a ordem dos versos difere entre as duas edições
Goraksa menciona ao longo de sua glosa outras de suas obras hoje perdidas — Padukodaya, Samvidullasa, Parastotra, Maharthodaya, Komalavalli-stava, Sukta, Kundalabharana, Mukundakeli, Nakhapralapa — assim como dois obras de seu paramaguru e duas de seu mestre.
Paramaguru: mestre do mestre; suas obras citadas são a Kramavasana e a Rjuvimarsini
As obras do mestre citadas são o Manoshnus asanastotra e o Ananda Tandavavilasastotra, inspirado pela escola Pratyabhijna
Paramaguru significa literalmente o mestre do mestre
A Maharthamanjari apresenta-se como síntese dos diversos correntes místicos e filosóficos do xivaísmo monista que floresceram no Caxemira: o Maharthadarsana — chamado também Mahanaya e Krama —, o Kula, originário de Assam, o Trika e o Pratyabhijnadarsana.
Maharthadarsana: outra denominação do sistema Krama-Mahartha
Kula: escola originária de Assam
Trika: escola xivaíta central do Caxemira
Pratyabhijnadarsana: escola do Reconhecimento
Goraksa conhecia bem a vasta literatura dessas escolas assim como os Agama sobre os quais ela repousa, e tinha prazer em citar seus autores favoritos, de modo que, grande parte dessa literatura tendo completamente desaparecido, optou-se por traduzir as passagens mais significativas dos antigos tratados que Mahesvarananda conservou.
Agama: corpus de escrituras reveladas sobre as quais repousa a literatura dessas escolas