SSVK. Sivasutra et Vimarsini de Ksemaraja. Tr. Lilian Silburn
INTRODUÇÃO
A escola Spanda (ou da Vibração) do Xivaísmo da Caxemira tem como fundador Vasugupta, que teria recebido a revelação dos Śivasūtra em sonho ou de um siddha.
A linhagem mística (sampradāya) da escola Spanda remonta a Vasugupta e passa por Bhāṭṭasūri, Kallata, Pradyumnabhaṭṭa, Prajñārjuna, Mahādeva e Śrīkāṇṭha Bhaṭṭa até Bhāskara.
A filosofia de Vasugupta opõe-se à dualidade e ao budismo, afirmando desde o primeiro sūtra: “A Consciência é o Si mesmo” (caitanyam ātmā).
Kṣemarāja, discípulo e primo de
Abhinavagupta, é o autor da célebre e profunda glosa aos Śivasūtra, a Śivasūtravimarśinī.
Além da Vimarśinī, Kṣemarāja escreveu comentários à Spandakārikā, ao Svacchandatantra, ao Netratantra e ao Vijñānabhairavatantra, além de obras pessoais como o Pratyabhijñāhṛdaya.
Seu estilo de comentário é denso e concentrado, voltado mais para a experiência mística do que para a filosofia, citando frequentemente antigos tratados como o Mālinīvijaya e o Tantrasadbhaiva.
Os Śivasūtra, em sua forma atual, são aforismos de extrema concisão organizados em três partes, cada uma referindo-se a uma via de retorno a Śiva: a via de Śiva, a da energia e a do indivíduo.
As três vias não devem ser entendidas como caminhos lineares, mas como aptidões místicas específicas que determinam as modalidades de progressão do yogin.
Bhāskara sustentou que os sūtra comportavam uma quarta seção, que celebrava a glória da não-via (anupāya), mas esta parte não foi encontrada nos manuscritos.
O QUE É O SPANDA?
O spanda é a vibração primordial, a pulsação do grande Coração do cosmos, que constitui o fluxo e refluxo das emanações e resorções do universo a partir da Consciência.
Definido pela raiz spand- (entrar em movimento, frêmito, palpitar), o spanda é um movimento leve, imperceptível e eternamente presente (satatodita), sendo fonte de toda eficiência.
Abhinavagupta explica que esta vibração é um ímpeto (svarūpodyoga) no interior do próprio Si mesmo, não comprometendo sua essência imutável.
O spanda é identificado com a Vida cósmica (prāṇa universal), com o Coração supremo e com o Sujeito absoluto.
Termos como vimarśa, sphuratā (cintilação), udyama (ímpeto) e dhvani (vibração sonora) são sinônimos ou comentam o spanda, enfatizando a apreensão do ato consciente anterior à cisão entre sujeito e objeto.
O spanda é apreendido no próprio instante de sua origem, um instante eterno que não pode se tornar objeto de lembrança.
É uma “liberdade inata, espontânea, que vibra em toda parte no mundo animado e inanimado”, cuja realidade é recuperada ao se penetrar na Realidade vibrante.
ÉPANOUBLEMENTO DO SPANDA (A QUEDA)
A partir do Centro (o Coração universal), a vibração se estende em ondas cada vez mais determinadas até o domínio do objeto, diminuindo sua frequência e resultando na matéria inconsciente.
A vibração, indiferenciada e universal em sua origem (spanda supremo), aparece gradualmente como diferenciada e particular (spanda inferior).
Sob a influência da energia de ilusão (māyāśakti), a Realidade vibrante parece perder sua unicidade, e as cinco energias puras (consciência, beatitude, vontade, conhecimento e atividade) se diferenciam e dissociam.
O indivíduo (aṇu) se identifica então com energias impuras, seus órgãos de conhecimento e ação, seu corpo e o mundo exterior, formando uma estrutura de limitação.
Esta estrutura, mantida pelo poder da energia de ilusão, é composta de 36 categorias (tattva) que vão da Consciência pura até a terra.
Para reabsorvê-la e retornar ao Si mesmo em sua pureza, é necessário utilizar a consciência interiorizada e eficaz (citi), que engole as estruturas e faz emergir o fundo essencial.
A SUBIDA: O DUPLO MOVIMENTO E O RETORNO (A PREIA-MARÉ)
O místico, apaziguado, opera um movimento de retorno ao Centro, remontando através dos três níveis da realidade por meio das três vias (do indivíduo, da energia e divina).
O movimento de retorno é descrito como uma passagem da pensamento dualizante (vikalpa) para a consciência indiferenciada (nirvikalpa), onde a dualidade se alivia e desaparece.
No estado de citi (consciência interiorizada), o movimento em seu ápice é imperceptível ou percebido exclusivamente no Uno, sendo chamado niḥspanda (movimento em sua totalidade, como a chama de uma vela que se move incessantemente em si mesma).
Três formas de vibração são experimentadas pelo místico: udāna (ascensão da kundalinī), dhvani (ressonância interior do mantra) e camatkāra (o ápice do spanda, o enlevamento da Consciência universal).
Graças à consciência interiorizada (citi), tudo aparece ao yogin como idêntico à sua própria essência, pois ele passa a participar da quíntupla vibração de suas energias.
O corpo do yogin torna-se energia sutil e vibrante, e o retorno ao spanda supremo se efetua em uma indescritível embriaguez mística (ghūrṇi), onde tudo é percorrido por uma mesma Vida fremente.
O SPANDA E MESTRE ECKHART
Kṣemarāja observa que nenhum sistema filosófico do Oriente ou do Ocidente, até então, considerava a energia sob a forma de vibração como fundamental, ao contrário da escola Spanda.
Textos budistas antigos, como o Dhammapada, usam o termo phandana para designar a vibração da pensamento dispersa, que deve ser suprimida.
Gauḍapāda, na Māṇḍūkyakārikā, refere-se à vibração da pensamento (cittaspandita) como a causa da dualidade sujeito-objeto.
É apontada uma noção vizinha ao spanda em Mestre Eckhart, cuja experiência lhe confere um relevo intenso.
Eckhart descreve na Trindade uma bullitio, um “borbulhamento” ou “parturição” do ser no seio da deidade, um aquecimento e liquefação internos, antes da ebullitio, o transbordamento criador da criação.
Fernand Brunner explica que a geração do Filho e a espiração do Espírito Santo ocorrem na unidade da natureza divina, num “borbulhamento” incessante que precede a efusão da criação.
No retorno à unidade, o espírito, após ultrapassar a multiplicidade, é conduzido por Deus ao seu deserto, à sua própria unidade, onde é simplesmente um e vive e flui apenas em si mesmo.
A TRÍPLICE VIA
As três vias da libertação têm o efeito de restaurar à consciência, extraviada no múltiplo, a interioridade, a eficiência e a universalidade, transformando-a numa vibração indiferenciada.
Na via divina, muito próxima da Consciência infinita, encontra-se icchā, o imperceptível abalo no seio da beatitude, anterior a qualquer intenção ou vontade determinada.
A escola Spanda designa icchā como aunmukhya (orientação da consciência), udyoga (ímpeto para a emanação cósmica) e udyama (ímpeto puramente interior para o retorno ao indiferenciado).
O udyama (ímpeto) espontâneo e livre que projeta o yogin na Consciência suprema é descrito como um serviço assíduo e um retorno à perfeita interioridade, à glória inata em sua expansão infinita.
Esta via, na qual a consciência, alerta e intensa, se apreende a si mesma em plena vigilância, exige uma ardor que nada tem de esforço, tendo desaparecido todo desejo voltado para um ideal.
Na via da energia, situada em grau intermediário, o yogin se esforça para intensificar sua energia cognitiva, transformando-a em conhecimento vibrante (mantra).
O termo que designa o ato zeloso nesta via é prayatna, um partir poderoso, um impulso horizontal que mobiliza todas as energias, ao contrário do udyama, que é um voo vertical do coração nu.
O yogin purifica seus vikalpa (pensamento dualizante), tornando-os intuições vibrantes tão vivas que o pensamento não tem tempo de intervir.
Com uma intuição aguçada (mati), ele se abre caminho entre os dois pólos do vikalpa, alcançando o Coração universal e despertando o Conhecimento.
O yogin pode também utilizar emoções em seu paroxismo (terror, cólera, paixão), cujas vibrações podem conduzi-lo à vibração primordial, fazendo o ego desaparecer.
Na via do indivíduo, o spanda, em seu último grau de manifestação, é apenas movimentos relaxados em atividades particulares, onde as faculdades intelectuais são determinantes.
O yogin, vigilante em suas ocupações, trabalha para tornar vibrantes os turbilhões (ūrmi) de suas funções, interiorizando seu pensamento por meio da meditação (dhyāna).
Os sopros inspirado e expirado se fundem no sopro igual (samāna), que vibra, e a recitação de palavras sagradas associadas ao sopro conduz o yogin à eficiência do mantra.
O TIRO COM ARCO (ILUSTRAÇÃO DAS TRÊS VIAS)
As três vias são ilustradas pela aprendizagem do tiro com arco, que exemplifica as diferentes formas de esforço ou atividade correspondentes a cada uma delas.
Na primeira etapa (via do indivíduo), o arqueiro, inábil e fascinado pelo arco, emprega um grande esforço corporal e mental, mas não integra o disparo nem o alvo.
O yogin, às voltas com a objetividade, deve realizar muitas práticas sobre os órgãos, o sopro e o corpo, obtendo apaziguamento e quietude, mas não a quietude profunda da via da energia.
Na segunda etapa (via da energia), o arqueiro integra gestos e objetos em um nível de consciência mais sutil, concentrando toda sua energia no disparo.
No auge da atenção, as distâncias entre flecha e alvo são abolidas, e o disparo se solta do arco antes mesmo de qualquer pensamento ou esforço.
O yogin, esquecendo o objeto e si mesmo, descobre o livre jogo da energia, onde toda dualidade é abolida, associando ao discernimento uma prática mística sutil (bhāvanā) que unifica a energia na realização imediata do ato.
Na terceira etapa (via de Śiva), o arqueiro, liberto do arco, do alvo e de si mesmo, dispara sem intenção, tendo atingido seu próprio centro.
Firme na fonte do movimento, ele desfruta do puro prazer do ato sempre novo, criando cada gesto à medida que avança.
O yogin, acordado pelo mestre, acede ao reino supremo na intimidade do coração, onde todas as energias estão apaziguadas, num puro aquiescimento que é o ímpeto fulgurante da Consciência.
Nesta via, o yogin, tornado Śiva, tem o universo como arco, desfrutando igualmente da unidade na diversidade e da diversidade na unidade.
Finalmente, na não-via (anupāya), não há mais arqueiro, arco, flecha, nem mesmo disparo.