Estando-se, portanto, em um contexto marcadamente shaiva ou shâmbhava, no sentido de que o Poder — ainda que inseparável de Shiva — é a ele subordinado, torna-se possível vê-lo assumir em muitos pontos da obra o papel de protagonista.
Somananda, seguindo o ensinamento do Trika, distingue uma tríade de poderes — icchâ, jnâna e kriyâ — conectados respectivamente com o plano de Shakti, Sadâshiva e Îshvara, que de fato nunca estão realmente separados entre si
Antes deles, no topo do plano Shaktitattva, há um momento em que estão completamente mesclados e prestes a se desdobrar: é o estado chamado unmukhitâtâ, aunmukhya — “protenção” — ou prathama tutih — “primeiro momento da vontade” — descrito também como “onda” (taranga, ûrmi)
Quando esses poderes estão totalmente dissolvidos na unidade com Shiva, tem-se o estado supremo, caracterizado pela lise suprema (nirvrti) e pela beatitude consciente (cidrûpâhlâda)
Shiva não pode ser descrito como quieto ou isolado (shânta, kevala), pois isso implicaria estar desprovido de poder; tampouco se pode falar em cessação da percepção do eu, pois Shiva seria então insensível (jada)
O Seu voltar-se para a criação — e, mais geralmente, para suas cinco funções — brota de sua própria alegria (âmoda); ele brinca de se ocultar e assume a natureza de mâyâ até a Terra
O universo não pode ser dito “imaginado” como Shiva, nem vice-versa, pois um é diretamente o outro — assim como o ouro não é “imaginado” como tal nem na simples joia de ouro maciço nem no brinco cuja elaboração parece pôr de lado sua natureza de ouro puro
A natureza de Shiva está presente em tudo, quer se saiba disso ou não
A própria diferenciação tem Shiva como sua essência, portanto não existe realmente nem aprisionamento nem, consequentemente, libertação
A crença na existência real do aprisionamento e da libertação constitui a impureza básica (VII.87cd)
Todas as prescrições rituais, shâstras e mestres servem apenas aos propósitos da vida cotidiana e são, de qualquer modo, uma forma pela qual Shiva se manifesta
Aquele que adora, aquele que é adorado e o ato de adoração são, na realidade, todos um — Shiva (VII.94cd)