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DHYANA

LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

  • Os mestres Chan são mestres do dhyana — pois chan-na é a pronúncia chinesa do termo sânscrito —, mas a parentela com a Índia foi recusada e a escola chinesa apresentada como indo de encontro ao dhyana “à maneira indiana”, sendo que o verdadeiro dhyana não é nem uma “meditação” nem uma simples concentração do pensamento, mas pertence ao espontâneo muito mais do que ao método, e sua quietude é o pano de fundo de toda lucidez e de toda atividade justa.
    • A confusão em torno do dhyana provém do emprego corrente da palavra “meditação” — tanto em inglês quanto em francês, tanto em monastérios Zen quanto em laboratórios americanos — para designar o estado interior de quem se senta tentando não pensar em nada, pensar em uma única coisa ou observar o próprio pensamento, o que não é dhyana nem meditação.
    • A “meditação” em sentido estrito é uma reflexão profunda sobre um tema — os diretores de consciência cristãos propunham temas religiosos a seus dirigidos, e os místicos cristãos tiveram grande dificuldade em fazer entender que, a partir de certo grau, não se pode mais “meditar” e é preciso abandonar ideias e representações para se entregar ao estado profundo que tende a se instaurar espontaneamente.
    • É além da meditação propriamente dita que se situa o início do dhyana — estado de consciência até então desconhecido que dá acesso ao domínio sutil de uma “interioridade” específica, conhecível apenas por experiência.
    • O dhyana é fruto do desapego, impregnado de distensão e felicidade, vazio do pensamento e dos sentimentos habituais, lúcido sem rastro de cogitação, livre sem rastro de esforço — e o Buda distingue quatro graus, descritos no relato da noite do Despertar.
    • O termo “concentração” não convém ao dhyana — pois sugere esforço e connota um projeto —; seria mais justo falar de absorção, embora vago, sendo preferível conservar o vocábulo sânscrito.
  • O dhyana é estreitamente associado ao vazio e à sapiência — nessa nova modalidade de consciência apagam-se os apegos múltiplos e os apoios habituais do pensamento, dissolvem-se as estruturas rígidas que obstaculizam a intuição, instaurando-se um vazio crescente que se aprofunda na absorção até culminar no nirvana.
    • A palavra “vazio” ou “vacuidade” é fonte de erros graves — o pensamento ordinário só pode fazer do vazio um objeto, um vazio em si, incapaz de se libertar de uma interpretação negativa às antípodas da vacuidade viva revelada pela experiência profunda.
    • O sistema de Nagarjuna — por ter posto ênfase na sunyata, a vacuidade — é tratado de niilismo por aqueles a quem escapa seu aspecto eminentemente positivo; eles ignoram o desapego, o alargamento da consciência que se afina “com o infinito” — por meio das quatro samapatti que dão acesso à esfera imaterial: infinito do espaço, infinito da consciência, o nada, e a esfera do “nem percepção nem não-percepção” — e o afluxo de paz, felicidade e eficiência sem os quais o vazio seria estéril.
    • Os que buscam uma fixação ou um vazio do pensamento em uma meditação imóvel cometem erro análogo e caem em uma vacuidade sem saída.
    • Desde o budismo antigo, o dhyana influencia progressivamente o conjunto da vida cotidiana — substituindo um pensamento limitado e agitado por uma consciência clara e pura, ao mesmo tempo vigilante e inacessível às perturbações exteriores; e é justamente por se tornar um fundo duradouro que o dhyana é tão precioso.
  • No Grande Veículo, o Bodhisattva eleva o dhyana à sua “perfeição” — paramita —, permanecendo constantemente recolhido seja ao caminhar, estar de pé, sentado, repousando, falando ou em silêncio, com amigos ou inimigos, com o agradável e o desagradável, com os nobres e os que não o são.
    • O texto do Grande Veículo enuncia: “Ele permanece o mesmo, não se mostra nem condescendente nem frustrado. E por quê? Porque, para ele, as coisas são como vazias de caráter próprio, desprovidas de realidade, incriadas, não-produzidas.”
    • O dhyana conduz o Bodhisattva ao ensinamento do vanutpadadharma na Escola do Caminho do Meio — os dharmas são “tranquilos desde a origem, não-produzidos, quiescentes por sua própria natureza” e “apaziguados porque pertencem ao domínio do Conhecimento apaziguado”.
    • O texto enuncia: “Aqueles que sabem que os dharmas não têm natureza própria são heróis que residem neste mundo em extinção completa, pois vivem sem se apegar aos atributos do desejo; tendo repelido o apego, convertem os seres.”
    • No vazio pode então operar o Conhecimento ou Sapiência — as coisas são percebidas “tais como são” — yathabhuta —, não ligadas entre si e portanto liberadas das diferenciações e particularidades que lhes são erroneamente imputadas; sendo vazias de natureza própria, são isoladas, em si, ab-soluas — vivikta —, puras, inapreensíveis.
    • É não dissociando dhyana, vazio e sapiência que se pode aproximar do sentido profundo de cada um deles.
  • Os chineses — sobretudo os taoístas — já conheciam bem a vacuidade e a tinham em alta estima, pois o Lao-tseu ensinava: “O Tao é como uma tigela vazia que nenhum uso poderia encher; insondável, parece a origem dos dez mil seres” — e sob esse aspecto familiar, o vazio budista oferecia aos habitantes do Império do Meio uma verdadeira escola de sutileza, de visão intuitiva e de realização interior.
    • Os mestres do Chan acolheram essa lição e souberam colocá-la em prática de forma original e poderosa.
    • Ao dhyana dos hereges — que apresenta “três sortes de defeitos: o apego à delectação, a visão falsa e o orgulho” — o Bodhisattva remedia consagrando-se inteiramente ao bem dos seres.
    • Impregnado de paz, felicidade, recolhimento e equanimidade, o Bodhisattva pode realizar todas as obras necessárias ao bem dos seres — seu ato emerge naturalmente com justeza, precisão e eficácia extraordinária em cada circunstância, pois longe de nascer dos condicionamentos ligados ao karma, alimenta-se desse fundo infinito.
    • Total abnegação, compaixão sem limite, conduta sem medo, conhecimento sem falha, atividade incansável, domínio profundo aliado à espontaneidade — tais são os frutos da perfeição do dhyana para o Bodhisattva.
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