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SI, ATO POSICIONAL
KOPF, Gereon. Beyond Personal Identity: Dogen, Nishida, and a Phenomenology of No-Self. Hoboken: Taylor and Francis, 2012.
- Dogen emprega o termo jiko em seu tríplice sentido para designar um evento temporário de consciência e a polaridade noética na ambiguidade existencial de self e outro — tako — e self e inúmeros dharmas — mambo —, sendo que o caráter autorreflexivo do jiko implica a consciência de si como “eu que se estuda a si mesmo”.
- Tamaki traduz mambo como “ambiente” — kankyo — em sua versão do “Shobogenzo Genjokoan” para o japonês contemporâneo.
- O filósofo budista Dignaga — da escola Yogacara-Sautrantika — postulou a consciência autorreflexiva que acompanha todas as percepções e pensamentos, e Dogen retoma essa noção ao descrever o “eu” experiencial.
- O “eu” experiencial designa a atividade subjetiva em relação ao seu objeto no sentido da distinção husserliana entre noese e noema, e não um sujeito permanente que age no passado, presente e futuro.
- Dogen denuncia repetidamente a noção de essência permanente, como no parágrafo seguinte ao que trata da autoconsciência, em que condena “o equívoco de que a natureza da própria mente é permanente”.
- O self que “se esquece” na segunda linha da passagem é aquele que se experimenta como um “eu” individual e autoidentico, demarcado do outro e do ambiente — como um observador situado “fora do mundo”, “fora das montanhas”.
- O termo “narau” — estudar — usado por Dogen difere semanticamente de “sankyu” — investigar —, “sangaku” — contemplar — e “manabu” — estudar —, pois carrega conotação de aprendizado e prática escolásticos e é imediatamente seguido de sua negação: “esquecer” — wasureru.
- Dogen observa que “os budas são iluminados acerca da ilusão, enquanto os seres sencientes estão iludidos acerca da iluminação”.
- A descrição de Dogen do caminho do buda revela, ainda que implicitamente, a inapreensibilidade do self autocônscio e os problemas metodológicos inerentes à estrutura do “sujeito autoconsciente que se estuda a si mesmo”.
- O self estudado é, no melhor dos casos, o self-enquanto-objeto; como Kant observa, a imagem que o self faz de si não coincide necessariamente com o self-enquanto-sujeito.
- Esse predicamento existencial da autoconsciência evoca o ser-para-si de Sartre, incapaz de apreender sua própria existência.
- As “pessoas fora das montanhas” — sangenin — caracterizam-se pelo isolamento existencial e pela alienação do ambiente e de si mesmas, expressas por Dogen nas fórmulas “não experimentar e não saber” — fushin fuchi — e “não ver e não ouvir” — fugen fubun.
- Dogen afirma no “Shobogenzo Genjokoan”: “É ilusão praticar e atualizar os inúmeros dharmas aplicando-nos aos dharmas; é iluminação praticar e atualizar o self quando os dharmas se aproximam do self.”
- A separação entre sujeito e objeto epistêmicos impede o encontro entre noese e noema — os dharmas escapam quando ambos os polos constituem indivíduos causalmente independentes.
- A alienação do self em relação ao mundo vem acompanhada de alienação do self em relação a si mesmo — Dogen enuncia: “Se você duvida que as montanhas caminham, você também duvida que você caminha.”
- O termo “duvidar” — literalmente “surgimento da dúvida”, gichaku — simboliza essa dupla alienação existencial.
- A terminologia dogueniana “mente que não pode ser apreendida” — shinfukatoku — reitera o caráter permanentemente evasivo do self, ecoando o ser-em-si de Sartre, que escapa continuamente à sua própria consciência posicional.
- O “eu” experiencial não indica um self permanente — como sugerido por Descartes e pelos proponentes das teorias essencialistas e neo-essencialistas da identidade pessoal —, mas antes constrói a noção de permanência por meio de sua atitude posicional em relação ao ambiente.
- Dogen elabora as implicações epistemológicas da atitude posicional em passagem central do “Shobogenzo Genjokoan”: “Se uma pessoa que navega em um barco olha para a margem virando os olhos para trás, equivocadamente julga que a margem se move. Se dirige os olhos ao barco, sabe que o barco avança. Da mesma forma, se alguém discrimina e afirma os inúmeros dharmas estando iludido acerca do corpo e da mente, equivocadamente julga que sua mente e sua natureza são permanentes.”
- Dogen identifica três características primárias da ilusão de permanência: a diferenciação entre self e mundo; a assunção de uma perspectiva externa para examinar o mundo e a si mesmo; e a aplicação do princípio de separação e permanência ao próprio self com base nessa diferenciação equivocada.
- A consciência posicional — dirigida a um objeto e construtora de uma ontologia de terceira pessoa — cria a aparência de um self duradouro e dissociado enquanto corpo e mente no campo experiencial do observador.
- Dogen define autenticidade — diferentemente de Heidegger — como modalidade existencial desprovida de posicionalidade: apenas uma modalidade epistêmica que colapsa a distinção sujeito-objeto na autoconsciência revela o self tal como é.
- O processo de autocultivação consiste, então, na habituação de uma atitude desprovida de self — no presentificar — genjosuru — o self tal como é.
- O paradoxo contido na frase “estudar o self é esquecer o self” indica a necessidade de transcender a dicotomia entre self-enquanto-sujeito e self-enquanto-objeto, pois a atitude não-posicional do estudar-enquanto-esquecer implica o colapso da estrutura sujeito-objeto da consciência.
- Quando o self volta-se a si mesmo e “dirige os olhos ao barco”, depara com sua própria imagem — o self-enquanto-objeto — no campo experiencial; esse mecanismo é o que Jung designa como projeção e transferência.
- O auto-isolamento equivocado do self engendra: alienação do mundo; dicotomização do self em sujeito e objeto; construção do self como permanente; e incapacidade de discernir a realidade tal como é do mundo-para-mim.
- Jung sustenta que, em sua forma mais extrema, essa incapacidade pode assumir uma condição patológica incapaz de distinguir self e mundo, pensamentos e objetos, subjetividade e objetividade.
- A evocação dogueniana dos inúmeros dharmas no fundo do self não exemplifica tal condição patológica, mas uma transcendência da subjetividade do cogito — análoga à observação de Merleau-Ponty de que “universalidade e mundo residem no núcleo da individualidade e do sujeito”, e à identificação junguiana do inconsciente coletivo como matriz da subjetividade humana.
- A aparição da face do self enquanto objeto fenomênico tem para Dogen dupla consequência: a consciência posicional de si não é possível; e o self perde seu caráter unitário ao se dissociar em sujeito e objeto.
- A expressão “esquecer o self” implica uma tripla perda — do self enquanto objeto epistemológico, do self enquanto sujeito epistemológico e da experiência de um self independente —, propondo uma forma não-posicional de engajamento com o mundo.
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