budismo:nhat-hanh:outra-margem:vazio
VAZIO DE QUE?
Avalokiteśvara,
ao praticar profundamente
com a Sabedoria que Conduz à Outra Margem,
descobriu subitamente que
todos os cinco Skandhas são igualmente vazios,
e, com essa realização,
superou todo o mal-estar.
- Avalokitesvara é o nome do Bodhisattva da Grande Compaixão — aquele que sabe ouvir profundamente para aliviar o sofrimento dos seres vivos — e seu nome significa “aquele que dominou a si mesmo através da prática de olhar profundamente para o coração da realidade, alcançando a maior liberdade possível”.
- Avalokita significa “olhar profundamente” e isvara significa “mestre”; bodhi significa “estar desperto” e sattva significa “um ser vivo” — bodhisattva é, portanto, um ser desperto.
- Avalokitesvara não é nem masculino nem feminino, aparecendo às vezes como homem e às vezes como mulher; na China, no Vietnã, na Coreia e no Japão é conhecido respectivamente como Guanyin, Quan Am e Kannon.
- Graças à capacidade de olhar e ouvir profundamente, Avalokitesvara compreende seu próprio sofrimento, e dessa compreensão profunda surge a grande compaixão; no Sutra do Coração, ele revela essa compreensão profunda — a Prajnaparamita — a Sariputra, tradicionalmente o principal discípulo do Buda no ensino do Dharma.
- Prajna significa percepção ou compreensão, e paramita significa ir ou ter ido para a outra margem — assim, Prajnaparamita é a percepção que nos leva à outra margem, sendo distinta do conhecimento.
- A compreensão e a percepção, como a água, podem fluir e penetrar; já os pontos de vista e o conhecimento ao qual nos agarramos são sólidos e podem bloquear o fluxo da compreensão.
- No budismo, o conhecimento é considerado um obstáculo para a verdadeira compreensão — é preciso ser capaz de deixar ir o conhecimento anterior, assim como se sobe uma escada: quem está no quinto degrau e pensa já estar no topo não tem esperança de subir ao sexto.
- Segundo Avalokitesvara, a folha de papel é vazia, mas segundo a análise anterior ela está cheia de tudo — aparente contradição que se resolve ao perguntar: vazia de quê?
- Avalokitesvara descobriu que os cinco skandhas — forma, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência — são vazios, mas esvaziar sempre implica esvaziar de algo.
- Assim como um copo vazio de água não é vazio de ar, “vazio” não significa nada a menos que se especifique “vazio de quê?” — essa é uma descoberta bastante significativa.
- Os cinco skandhas — traduzíveis como cinco agregados ou montes — são os cinco elementos que compõem um ser humano, semelhantes a cinco rios em fluxo constante: o rio da forma, que é o corpo; os sentimentos; as percepções; as formações mentais; e a consciência.
- Ao olhar profundamente para a natureza desses cinco rios, Avalokitesvara viu que todos os cinco são vazios de um eu separado.
- Há a história de um rei que, ao ouvir um músico tocar uma sitar de dezesseis cordas, foi tocado nas profundezas de sua alma e ordenou que o instrumento fosse despedaçado em pequenos pedaços — mas por mais que tentassem, não conseguiram encontrar a fonte do belo som, a essência da música.
- Assim como o rei olhou para dentro da sitar, o Bodhisattva Avalokitesvara olhou profundamente para seus próprios cinco skandhas e descobriu que eles eram vazios de um eu — por mais maravilhosa que seja uma coisa, ao se olhar profundamente para ela não se encontra nada que possa ser identificado como um eu separado.
- Há a tendência de acreditar que dentro dos cinco skandhas existe algo constante e imutável, ainda que eles estejam continuamente fluindo, nascendo, crescendo, desvanecendo e morrendo — e por isso se clama erroneamente que tudo é constante e que se é um eu separado.
- O Buda sempre ensina que tal eu não existe; se os cinco skandhas forem despedaçados como o rei fez com a sitar, nenhum eu será encontrado dentro deles — não há alma, não há “eu”, não há pessoa nos cinco skandhas.
- Quando se vê que os cinco skandhas não possuem substância central nem eu, todo sofrimento, angústia e medo desaparecem imediatamente.
- Dizer que os cinco skandhas são vazios de um eu separado é também dizer que nenhum desses cinco rios pode existir sozinho — cada um dos cinco rios precisa ser constituído pelos outros quatro, coexistindo e inter-sendo com todos os demais.
- No corpo humano, pulmões, coração, rins, estômago e sangue não podem existir independentemente — os pulmões absorvem o ar e enriquecem o sangue, e o sangue nutre os pulmões; sem o sangue os pulmões não podem viver, e sem os pulmões o sangue não pode ser purificado; pulmões e sangue inter-são.
- Quando Avalokitesvara diz que a folha de papel é vazia, o bodhisattva quer dizer que ela é vazia de uma existência separada e independente — ela não pode simplesmente ser por si mesma, precisando inter-ser com a luz do sol, a nuvem, a floresta, o lenhador, a mente e tudo o mais.
- Vazio de um eu separado significa cheio de tudo — assim, a observação anterior e a de Avalokitesvara não se contradizem.
- O corpo é vazio de um eu separado, mas cheio de tudo no cosmos; sentimentos, percepções, formações mentais e consciência são todos vazios de sua própria natureza separada e ao mesmo tempo cheios de tudo que existe.
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