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DO DOM DE DEUS AO DOM DE SI

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • O amor recebido como dom gratuito impõe ao amante a obrigação de transformá-lo em tarefa ativa, sob pena de deixá-lo extinguir-se como fogo abandonado pelos orangos-utangos da parábola.
    • Baader cita Joseph de Maistre sobre o grau de exaltação que eleva o homem acima de si mesmo e o torna capaz de grandes realizações.
    • A distinção fundamental é entre amor dado (gegebene Liebe) e amor a realizar (aufgegebene Liebe), válida também para o conhecimento.
    • O saber obtido por observação passiva difere do saber conquistado pela reconstrução pessoal do mecanismo ou pela execução direta da experiência.
    • O dom amoroso transforma o receptor imediatamente em devedor, obrigado ao Minnedienst (serviço do amor) para apropriar-se legitimamente do que recebeu.
    • A parábola dos orangos-utangos junto ao fogo ilustra a maioria dos homens que recebem o amor sem entender como sustentá-lo.
  • Só se compreende o amor amando, e a tarefa do serviço amoroso faz o amante receber simultaneamente o amor que oferece e o que lhe é devolvido, como demonstra o amor materno.
    • O amor chegado sem mérito é comparado a um recém-nascido frágil que precisa de cuidados para deixar de ser mera imagem dos pais e tornar-se imagem ativa e autônoma (selbstisch) do espírito e do coração deles.
    • Esse amor-recém-nascido é o enfant alchimique, que por definição só existe verdadeiramente a partir de seu segundo nascimento.
    • O amor a Deus segue a mesma lei: o impulso inicial deve ser seguido pelo amor generoso, verdadeiro e atualizado (amor generosus ou actuos).
    • As representações ociosas do amor — tanto no ascetismo edificante quanto no Romantismo — não dão conta das exigências e possibilidades desse processo.
    • O que deveria ser iluminado são as provas que aguardam os amantes no trabalho de edificação harmoniosa e criadora, sintetizado na máxima latina “Dii omnia laboribus (doloribus) vendunt”.
  • O amor é filho dos que se unem no amor, e assim como se fala em filhos do amor, o próprio amor em seu início não é senão uma criança.
    • Deus não apenas cria os seres, mas os regenera em si mesmo, da mesma forma que os pais guardam os filhos por algum tempo para criá-los.
    • Ao contrário do filho de carne, o filho místico que é o amor nunca abandona seus pais se eles não o abandonam, e a vida deles não corre risco de naufragar.
    • O casamento pode ser estéril, mas a união de corações verdadeiros e sinceros é sempre fecunda e produz continuamente seu maravilhoso fruto.
    • Essa união começa a se formar quando os momentos celestes — os “eternal moments” de Shakespeare — encontram o interior humano e são fixados (fixieren) em vez de sacrificados à morte temporal.
    • A conclusão equivocada sobre o caráter ilusório do estado amoroso resulta de confundir efemeridade com ilusão; o amor não é ilusório quando o temporal é integrado, transfigurado e concluído no eterno.
    • Sophia ou “humanidade celeste” aparece ao amante sob a forma da amada (e vice-versa) no estado amoroso; a tarefa dos dois é fixar o olhar da virgem celeste que por um instante transparece através das nuvens (fixer ce Durchblicken).
    • O objetivo superior do amor é a encarnação de Sophia no interior humano — Sophia privada do corpo ao qual tem direito por causa do homem.
  • A amizade e o amor só criam raízes na adversidade e no infortúnio, e sem essa prova há apenas camaradagem.
    • A planta do amor pode crescer sem lágrimas, mas não se enraíza sem esse orvalho.
    • Em amor, só é fiel e constante quem extirpou em si a infidelidade e a possibilidade de renegação (como o posse mori de Santo Agostinho).
    • Deus criou o homem sem pecado, em estado de inocência, mas queria que a possibilidade de falta fosse extirpada pela ação, cooperação e mérito do próprio homem.
    • Todo amor começa na inocência, mas deve passar pela prova para se confirmar e encontrar sua posição e estabilidade (bewährter Stand und Bestand).
    • Não era necessário que o homem renegasse ou traísse a Deus, mas era preciso que houvesse tentação e resistência à tentação para que o homem se provasse e sua relação com Deus se consolidasse.
    • O amor de Deus pelo homem desce para elevar a natureza, estende-se horizontalmente como amor humano e, depois, desce mais profundamente como amor da natureza para elevar esta ao homem.
    • Adão foi submetido à dupla tentação: uso despótico da natureza ou submissão escrava a ela; Lúcifer sucumbiu à primeira, o homem à segunda.
  • Todo amor da criatura distingue-se em dois estágios: o primeiro é o estado de uníssonos não confirmado pela prova, o segundo é a supressão das possibilidades de diferenciação, fragilidade e mortalidade, gerando o verdadeiro acordo ou substantiação (Substanzirung).
    • O rapport da criatura com a criatura é determinado pelo rapport que ela mantém com o Criador: o homem está com a natureza e com o homem como está com Deus.
    • Para realizar todo amor é necessária a mediação divina, sem a qual a passagem livre do primeiro ao segundo estágio permanece fechada.
    • O amor no segundo estágio exerce profunda ação libertadora e “religante” (reliirend), com consequências sobre a própria natureza — “culto”, “cultivar” e “cultura” significam a mesma coisa.
    • O melhor amor não significa ausência de mal-entendidos, pois o amor não consiste em reunir corações já harmonizados, mas em harmonizá-los.
    • Na amizade, no amor dos pais pelos filhos e no amor do casal, muitas vezes é a mais profunda ruptura que permite a reunião mais sólida.
    • O sangue vertido do coração é a calosidade que tornará a união duradoura.
  • No uníssonos a dissonância não se manifesta mas pode aparecer; no acordo ela está suprimida e superada, e nenhuma discordância é mais de temer.
    • Saint-Martin expressou a mesma ideia em 1775 em Des erreurs et de la vérité: toda produção musical nasce da oposição entre o acorde dissonante e o acorde perfeito.
    • Uma continuidade de acordes perfeitos não chocaria o ouvido, mas resultaria em monotonia sem expressão nem ideia.
    • Todo resultado e produto musical funda-se em duas dissonâncias, de onde provém toda reação musical.
    • Essa observação se estende às coisas sensíveis, que nunca puderam nem podem nascer senão por duas dissonâncias.
  • O contrário da reconciliação é o remorso, indissociável da noção kantiana de imperativo moral.
    • Os próprios demônios creem em Deus, mas tremendo — o que ilustra a insuficiência da crença sem amor.
    • Substituir a religião pela moral é um erro; buscar o Salvador ou a salvação em um imperativo e não em um “dativo” é equívoco análogo.
    • O amor é filho não apenas da abundância e da pobreza — como via Platão — mas também do perdão e do arrependimento (que não é remorso), ou seja, da reconciliação.
    • Só o coração rico perdoa, e só o coração pobre precisa de perdão.
    • Quando há verdadeiro arrependimento e perdão entre os homens, não são os homens que realizam esses atos por si mesmos (ex propriis), mas uma ação superior e mediadora que intervém.
    • Um ato de reconciliação é religioso na medida em que manifesta essa ação superior mediadora; entre governados e governantes há algo mais alto do que ambos, tendência que se esquece desde a Revolução Francesa ao tratar essas relações de forma “naturalista”.
  • A reconciliação não faz o homem retornar ao estado de inocência original, mas o eleva imediatamente ao segundo estágio do amor.
    • Uma reunião orgânica é mais sólida do que a união anterior dissolvida (aufgehoben) para melhor se reconstituir, porque o princípio unificador, solicitado pela separação, aprofunda-se em si mesmo em vista de uma nova emanação.
    • No organismo, uma cicatriz impede para o futuro uma nova ruptura.
    • Deus seguiu essa mesma lei em suas três grandes emanações sucessivas: a queda de Lúcifer precedeu a missão restauradora do homem; após a queda adâmica, Deus aprofundou-se ainda mais em seu Ser íntimo para uma nova emanação.
    • Somente então foi iniciada a união indissolúvel entre criatura e Criador, entre Deus e o mundo, e ao mesmo tempo a mais alta elevação da criatura.
    • O sangue de Cristo é o sangue por excelência graças ao qual o Herzblut (sangue do coração) do homem, antes coagulado, tornou-se fluido e acessível à passagem ao segundo estágio do amor.
    • A capacidade de amar é maior desde a vinda de Cristo, como atestam os costumes e as instituições sociais, e há diferença nítida entre os povos cristãos e os demais no que concerne ao amor do homem e da mulher.
  • A queda do homem e sua infidelidade a Deus não eram necessárias, embora a prova da tentação fortificante fosse indispensável mesmo sem a queda.
    • Baader escreve que a máxima segundo a qual todo conhecimento deve começar pela dúvida deve ser rejeitada — o que, como nota E. Susini, se dirige contra Descartes.
    • A tentação é necessária, mas não o mal nem a queda.
    • Admitir o caráter primitivo e necessário do Mal contradiz os dados da Igreja.
    • Só uma parte dos anjos seguiu Lúcifer.
    • A queda de uma moça não é a única condição para casá-la.
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