FAUSTO (THOMAS MANN)
DEGHAYE, Pierre. De Paracelse à Thomas Mann: les avatars de l’hermétisme allemand. Paris: Dervy, 2000.
O Doutor Fausto de Thomas Mann, começado em 1943 e concluído em 1947, toma emprestado o nome do grande mágico do Volksbuch de 1487, mas o verdadeiro protagonista do romance é o compositor fictício cuja vida constitui o subtítulo da obra.
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O mágico do Volksbuch aparece apenas no penúltimo capítulo, como herói de uma “cantata sinfônica” intitulada O Canto de Dor do Doutor Fausto.
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O subtítulo da obra anuncia: “A vida do compositor alemão Adrien Leverkühn narrada por um amigo”.
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Adrien Leverkühn, nascido em 1885, é um músico moderno que, à semelhança de Schoenberg, inventa a música dodecafônica.
O romance de Thomas Mann é a história de um músico, mas não a biografia romanceada de nenhum compositor real — Leverkühn é, ele mesmo, um avatar do Fausto que coloca em cena.
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O personagem não é Arnold Schoenberg, ainda que compartilhe com ele a invenção do dodecafonismo.
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Adrien Leverkühn é produto tardio de um velho mito, e a inovação de Thomas Mann consiste em ter imaginado um Fausto músico.
O Fausto dodecafonista recria musicalmente, entre 1929 e 1930, o personagem do velho necromante, tornando-se pai espiritual daquele que o gerou — segundo um procedimento de reconstrução característico do autor.
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O novo Fausto é o pai do antigo segundo um processo de reconstrução caro a Thomas Mann.
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Esse pai segundo o espírito se identifica ao filho e se autentica nele pela cantata que é sua obra última e pelo discurso que a acompanha.
Os dois Faustos se reencontram explicitamente em seus últimos instantes, quando Leverkühn desmorona ao piano ao apresentar sua cantata e mergulha definitivamente na loucura.
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Leverkühn não morre fisicamente em maio de 1930 — só será enterrado dez anos mais tarde — mas o ataque de paralisia que o fulmina diante do teclado provoca sua morte verdadeira.
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Como ele mesmo declara na conferência fúnebre que profere sobre si mesmo ao piano, seu tempo está consumado.
Ao apresentar a cantata no último capítulo, Adrien torna-se o personagem de sua própria obra musical, reconstituindo o discurso que o Fausto do Volksbuch dirigiu a seus amigos na véspera de sua morte.
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No Volksbuch, no último dia de sua vida segundo o tempo do contrato, o personagem convida amigos e familiares, celebra com eles uma ceia que parece uma derrisão da Santa Ceia e lhes revela seu destino — à maneira de Jesus falando aos discípulos.
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Adrien Leverkühn reconstrói esse discurso e é seu ator, imitando o velho doutor diante de um público ávido de satanismo literário.
A oração fúnebre que Adrien pronuncia sobre si mesmo torna explícito o que ele foi implicitamente: um filho do inferno unido a Satã desde a maioridade.
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O discurso funciona como confissão perante um tribunal inquisitorial, transformando presunção em certeza: Adrien é verdadeiramente filho de Satã e necromante culpado dos piores malefícios.
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A questão que se coloca é se Adrien, ao usar a língua do Volksbuch para se acusar de venefício — envenenamento por feitiçaria — não está já sob o domínio da loucura.
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Há de fato uma criança morta, mas de meningite cerebroespinhal; ao se responsabilizar pela morte do sobrinho que adorava, Adrien pronuncia terríveis imprecações contra o diabo — reação que pode ser simplesmente a de um desesperado.
Serenus Zeitblom, amigo de infância de Adrien que se torna seu biógrafo e narra o romance sob forma de testemunho, é um espírito esclarecido que explica as coisas pelo simples bom senso — mas suas próprias palavras implicam a realidade do diabo.
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Zeitblom é católico, mas muito mais humanista, e demonstra seu racionalismo ao comentar uma horrível história de feitiçaria evocada no capítulo XIII.
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O mesmo Zeitblom afirma: “Quem crê no diabo já lhe pertence” — e para que se possa pertencer ao diabo, é preciso que ele exista.
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Essa crença deixou de ser considerada mera fraqueza de raciocínio.
Adrien é um ser superiormente inteligente que não consegue negar o diabo, o qual se impõe a ele com a força de uma alucinação tão coercitiva quanto qualquer prova racional.
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No capítulo XXV, o diabo lhe aparece, mas Adrien resiste, considerando a visão uma hipnose provocada pela febre — e ainda assim não consegue negá-la.
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A realidade do diabo reside precisamente nessa alucinação.
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Ao invocar o diabo com imprecações, Adrien revela que crê nele — como Lutero, cujo espectro percorre todo o romance.
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O paradoxo do músico moderno é o de um espírito altamente racional que afunda na noite das conjurações diabólicas: é por querer fazer da razão um absoluto que Adrien cai no irracional, e é a especulação que o empurra ao pecado, cujo inferno é a própria loucura.
A destinação individual de Adrien é paralela à da Alemanha, nação que atingiu os mais altos cumes da razão especulativa e ainda assim acreditou no diabo e a ele se votou.
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Zeitblom, ao redigir a biografia de Adrien, não pode deixar de estabelecer, no capítulo XLVI, um paralelo entre a época em que Adrien compôs sua cantata — 1929-1930 — e o ano em que ele escreve: 1945, ano em que a Alemanha desmorona.
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Satã, ao aparecer a Adrien, descreve o inferno como uma câmara de tortura com paredes espessas que ressoa de sofrimentos que nenhuma linguagem poderia exprimir, dizendo que o inferno só pode ser evocado com o auxílio de símbolos — caves, paredes espessas.
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Esses símbolos recobrem uma realidade que se impõe cruelmente quando Zeitblom afirma, no capítulo XLVI, que um despotismo infame transformou a Alemanha em uma cave onde se tortura: o inferno não é simples metáfora.
O inferno é a tortura, e os sofrimentos de Adrien — expressos no lamento de Fausto — se entrelaçam com a agonia da criança que ele se acusa de ter matado e com os tormentos da geena alemã.
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Os gritos dos supliciados que Zeitblom ouve ao redigir a biografia de Adrien ecoam os das criaturas torturadas e queimadas na época em que viveu o doutor Fausto histórico.
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O diabo de Thomas Mann cita o Malleus Maleficarum no capítulo XXV, e o próprio romancier, no Diário do Doutor Fausto, relata ter lido esse livro — denominado em alemão Hexenhammer.
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Os processos de feitiçaria começaram de fato na Alemanha após a bula Summis desiderantis fulminada pelo papa Inocêncio VIII em 1484, quando inquisidores foram instalados em terras alemãs — um deles chamado Institor, nome que Thomas Mann dará ao marido de Ines Rodde, nietzschiano doentio que exalta Cesare Bórgia.
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Esses inquisidores redigiram em 1487 o Malleus Maleficarum, livro de procedimento destinado a fundamentar juridicamente os processos de feitiçaria, um século antes da publicação do Volksbuch.
No romance, há interferência entre o tempo vivido por Adrien — nascido em 1885 e morto praticamente em 1930 — e a época que começa no fim do século XV para englobar a Reforma, fenômeno alemão por excelência.
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Adrien é protestante e, antes de se consagrar exclusivamente à música, estuda teologia.
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Esse período se liga, no romance, a uma época anterior: a dos flagelantes, cuja psicose penitente no século XIV — consequência da epidemia de peste negra, vista como manifestação da ira de Deus — está no pano de fundo de toda a história da Alemanha romanceada por Thomas Mann.
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A essa psicose se associam os grandes fenômenos de patologia das religiões: coreia, convulsões, obsessão pelo sangue.
A psicopatologia do comportamento religioso ocupa lugar de destaque na obra, sendo a loucura da penitência seu tema de predileção — pois a obsessão do pecado que ela manifesta confere ao diabo toda a sua realidade.
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A falta precisa estar à altura da contrição: é assim que Adrien cometerá sobre seu próprio corpo o mais negro de todos os pecados e se acusará de crimes odiosos.
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Seu destino ilustrará o célebre “pecca fortiter!” de Lutero.
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O elo entre a psicose dos flagelantes e os processos de feitiçaria está no fato de que o acusado de magia negra aparece, na perspectiva do romance, como um penitente que adere plenamente à inculpação e toma sobre si o pecado de que é carregado — entregando-se ao carrasco como a pior das flagelações.
A estranha cumplicidade entre acusador e acusado nos processos de feitiçaria é teorizada por um personagem do romance que empresta sua fisionomia ao próprio diabo.
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Segundo uma concepção desenvolvida pelo professor Schleppfuss — que ministra um curso de psicologia religiosa ao qual assistem Adrien e Zeitblom — havia nos processos de feitiçaria uma estranha conluio entre acusador e acusado, entre carrasco e vítima (capítulo XIII).
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O que Schleppfuss ensina faz aparecer a verdade de Satã segundo os dados de uma psicologia moderna: no início do século XX, o psicólogo reativa o diabo.
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Satã só tem realidade em relação às pessoas que creem em sua existência — entre elas o inquisidor, mas sobretudo a vítima que se acusa, que se oferece em holocausto para merecer sua salvação, objetivando psicologicamente toda a vida que lhe é imputada.
Adrien Leverkühn é ao mesmo tempo juiz e acusado — não uma vítima inocente, mas alguém que provocou sua tortura por um ato voluntário que é seu pecado.
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O discurso final funda a verdade do personagem sob a máscara diabólica que lhe é atribuída, e é a partir do que ele revela que se concebe toda a carreira do herói — razão pela qual o leitor é convidado a ler o romance a partir do fim.
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Adrien não confessa apenas sob o efeito da tortura: sua música materializa seu sofrimento indizível, mas essa tortura foi por ele mesmo provocada.
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Satã o diz citando o Malleus Maleficarum, que conhece bem por ser teólogo: certos indivíduos são mais dotados do que outros para a magia (capítulo XXV).
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Sobre um fundo de psicose coletiva, Adrien se destaca como ser de exceção que resume essa psicose de forma impressionante — ao mesmo tempo em que é determinado por sua hereditariedade e pelo meio em que desperta para a vida do espírito: seu pai Jonatan Leverkühn e a cidade simbólica de Kaisersaschem.
