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HERMETISMO E GNOSE PAGÃ

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

  • Função dos sacerdotes egípcios no registro do calendário religioso e das práticas astrológicas
    • Elaboração das listas de dias fastos e nefastos como atribuição do clero dos templos egípcios
    • Estudo sistemático do céu e determinação da influência dos astros sobre a vida humana
    • Prática da horoscopia, ou seja, avaliação da posição das estrelas no início de uma ação ou empreendimento
    • Presença de registros astrológicos nos santuários, anteriores mesmo ao período dos Ptolemeus
    • Compilação no século II a.C. de observações astrológicas dispersas em um compêndio atribuído a Thoth (Hermes), considerado revelador de toda a verdade
    • Formação de uma literatura astrológica entre o século II a.C. e os primeiros séculos de nossa era sob a autoridade mítica de Hermes Trismegisto
    • Testemunho principal no Liber Hermetis, editado por W. Gundel, além de referências nos Salmeschoiniana
    • Menções a Critodemo, Antíoco de Atenas, Timeu, Serapião e Teucro da Babilônia, entre outros astrólogos do século I a.C. e da época imperial até o século VI
    • Escritos atribuídos ao rei mítico Nechepso e ao sacerdote Petosíris, datados de cerca de 150 a.C., fundados em revelação divina e no papel dos reis e sacerdotes como depositários de saber esotérico
  • A ciência astrológica revelada por Hermes e seu estatuto de filosofia no Egito helenístico
    • Difusão da astrologia dos templos para círculos iniciáticos do Egito helenístico
    • Uso do termo filosofia em sentido distinto do grego clássico: não exercício racional, mas doutrina religiosa secreta
    • Predomínio do ensino místico baseado no oráculo divino em vez da especulação racional
    • Formação de uma literatura hermética “filosófica” em tratados curtos atribuídos a Hermes desde o século I de nossa era
    • Organização de pequenos corpus herméticos no século III
  • Primeiros escritos herméticos e transmissão esotérica do saber religioso
    • O Koré Kosmou (Pupila ou Virgem do Mundo), impregnado de mitologia egípcia, como exemplo inicial
    • Doutrina secreta (krypte theoria) ensinada por Hermes a Kamephis, transmitida a Ísis e por ela comunicada a Hórus
    • Outras referências nos Hermaïca citados pelo De mysteriis, por Lactâncio e por Cirilo de Alexandria
    • Corpus Hermeticum como principal monumento do hermetismo, com 17 tratados e o Asclepius (Discours Parfait), conhecido já por Agostinho
    • Inclusão de excertos preservados em Stobeu
    • Tradição hermética marcada pela forma de revelação: Hermes ensinando discípulos como Tat, Asclépio, o rei Ammon e Kamephis
    • Transmissão do ensinamento como paradosis mística, sem caráter sectário definido como no caso do gnosticismo cristão
  • Diversidade estrutural e doutrinal nos Hermetica
    • Presença de cosmogonias em forma de catequese (C.H. III) ou de visões reveladas (C.H. I)
    • Complementos iniciáticos que assumem a forma de paradosis de mistério (C.H. XIII, IV, VII)
    • Tratados que funcionam como síntese doutrinária (C.H. X, XI, XII, XVI, Asclepius)
    • Desenvolvimento de dogmas particulares (C.H. II, V, VI, VIII, IX)
  • Dualidade fundamental do hermetismo filosófico entre sabedoria helênica e misticismo oriental
    • Existência de duas tendências opostas: aproximação à sabedoria grega e à gnose mística
    • Importância dessa oposição para problemas teóricos e morais
    • Compreensão do movimento religioso como movimento da alma diante da vida e da dor
  • Concepção grega clássica da existência, do sofrimento e da sabedoria
    • Tendência oposta à aniquilação: valorização da vida plena, mesmo diante da impossibilidade de ser como os deuses
    • Sabedoria como magnanimidade diante do destino adverso: “o homem mais forte que o seu destino”
    • Presença de uma atitude “estoica” em toda a cultura grega, de Aquiles a Sócrates e Epicuro
    • Consolidação dessa atitude na Stoa e sua função na educação greco-romana, formando a ética dos governantes romanos
    • Importância da dor como mestra da vida, tau pathei mathos, exaltando o homem em vez de destruí-lo
    • Compreensão da fatalidade como ordem, razão e providência
    • Adoração do cosmos como expressão da ordem e da razão divinas
    • Consolação e inspiração na contemplação do céu estrelado, música das esferas e fogo puro compartilhado com a razão humana
    • Vida religiosa do sábio grego resumida na contemplação e na obediência ao Logos divino
    • Deus como philanthropos apenas em sentido natural, sem amor pessoal pelos homens
    • Limites do intelectualismo grego na aceitação da imortalidade da alma: críticas a Platão, Aristóteles, a Stoa e Epicuro
    • A divindade grega definida como Necessidade, Providência e Razão, indiferente ao destino humano
  • Contraste entre o sábio e o gnóstico na concepção da vida e da divindade
    • Para o gnóstico, o mundo é essencialmente mau e o cosmos inteiro, incluindo os astros, é pleroma do mal
    • Diferença de atitude: o sábio, otimista, considera o Todo; o gnóstico, pessimista, concentra-se no destino individual
    • Necessidade de ultrapassar o céu (hyperano) para encontrar o Deus verdadeiro, agnostos
    • Conhecimento de Deus somente por revelação a poucos eleitos, que transmitem a mensagem por fé
    • Importância da fé como condição indispensável da gnose: “não há gnose sem piedade”
    • Prática da oração como pedido do dom do conhecimento
    • Necessidade de sinais sensíveis para confirmar a fé e garantir a união com Deus após a morte
    • Definição da gnose como escatologia: todo o sistema se orienta para o fim último
  • O problema da criação e a solução dualista gnóstica
    • Mundo mau não pode ter sido criado por Deus verdadeiro, mas por um segundo deus, o Demiurgo
    • Dualismo como resposta psicológica à experiência do sofrimento
    • Religião definida pelo duplo movimento: confiança no Deus transcendente e fuga dos deuses cósmicos maus
    • Salvação como ciência única, gnose do Deus verdadeiro, exigindo fé, oração, graça e experiência sensível da regeneração
    • O místico assegurado da felicidade após a morte, superando os círculos do destino para unir-se aos coros celestes
  • Diferença final entre a sabedoria grega e o misticismo gnóstico na vida prática
    • Dever do sábio: imitar o cosmos e agir eticamente também na vida pública, desde Platão e a Stoa
    • Herança platônica e estoica na educação do príncipe e na teoria do governo justo
    • Exemplo do século II da era cristã, com Marco Aurélio, como ápice da filosofia no poder
    • Origem da ética política de “fazer o bem aos homens”, apoiada em inscrições e tratados helenísticos
    • Sabedoria como realização social da ordem cósmica
    • Atitude do gnóstico contrária: desinteresse pela sociedade e foco exclusivo no próprio círculo e no destino espiritual
    • Dever do gnóstico reduzido à pregação e à transmissão do dom da verdade divina
    • Religião gnóstica caracterizada pela piedade, oração, culto e anúncio
  • Definição essencial do hermetismo gnóstico
    • Mais do que uma doutrina, é uma atitude religiosa e moral
    • Espírito definido em contraste com a sabedoria grega
    • Enfrentamento do mesmo problema fundamental da existência humana
    • Permanência de interesse nos escritos da gnose pagã, apesar do estilo e da estranheza, pelo valor de seu confronto com a razão grega
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