CIÊNCIA ARISTOTÉLICA
FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967
A ciência aristotélica, que eu tomo aqui como tipo da ciência racional grega, tem três caracteres:
— É uma ciência contemplativa, ela visa a conhecer por conhecer somente, ela tende ao máximo de inteligibilidade.
— Por esta mesma razão, ela não se limita a descrever o fenômeno, ela não diz somente o que é uma coisa (ti esti) ela quer saber o porquê da coisa (o dia ti). Ora o que é o mais inteligível em um objeto qualquer, não é o que é particular a este objeto, o que não é próprio senão a ele e não se reencontra em nenhum outro, mas o que lhe é comum com outros objetos da mesma classe: o objeto da ciência é portanto não o indivíduo, mas o universal; o objetivo da ciência é classificar, ordenar espécies sob gêneros, reconhecer leis. O que interessa ao sábio, não é Pedro, Paulo, Tiago, etc …, é o homem.
— De onde resulta enfim que, para ter a plena inteligência de um fenômeno qualquer, é preciso poder remontar até os primeiros princípios, até os primeiríssimos atributos do ser, e manter muito exatamente todos os elos da cadeia entre o fato dado, que é concreto, material, e o princípio abstrato, o universal ou gênero supremo sob o qual se ordena toda uma hierarquia de universais.
Agora, a diversidade das ciências é determinada pela diversidade dos aspectos sob os quais se pode considerar um mesmo objeto. Seja, por exemplo, o homem. Pode-se o considerar como um ser naturalmente feito para viver em sociedade: é a política. Pode-se o considerar como um ser agindo em vista de certos fins: é a moral. Pode-se o considerar como um ser vivo: ciências biológicas. Pode-se o considerar como um ser sujeito ao movimento: ciência física. Pode-se o considerar como um ser: ciência do ser ou metafísica.
Mas, qualquer que seja o ponto de vista, o método permanece o mesmo: trata-se de tornar o fenômeno o mais inteligível possível, e, para isso, é preciso reduzir o concreto ao abstrato, o particular ao universal, o fato à lei.
Obtém-se assim, no limite, uma hierarquia de ciências das quais cada uma se apresenta como uma hierarquia de universais, as ciências mais altas, aquelas que comandam todo o resto, sendo as ciências que manifestam o mais de inteligibilidade, partindo das ciências que consideram os aspectos mais gerais do ser, aqueles que se reencontram em todo ser, que possuem o mais de extensão. De onde a prevalência da metafísica, ciência do ser enquanto ser e das categorias do ser.
Vê-se, o próprio caráter desta ciência é de ser essencialmente dedutiva: ela se contenta com um pequeno número de dados de observação para passar, logo, aos princípios. Mas também, como todas estas operações não dependem senão da razão, é uma ciência puramente racional. A palavra socrática, recolhida por Xenofonte em seus Memoráveis (I, 1, 9), pode servir de lema a este racionalismo: “Quando é possível saber uma coisa recorrendo ao número, à medida e ao peso, interrogar os deuses para a conhecer, é cometer a ação mais ímpia”.
Sem dúvida, este método não desapareceu inteiramente depois de Aristóteles e Teofrasto. No século II ainda de nossa era, mesmo quando ele trata de astrologia, Ptolomeu pretende não se dirigir senão à razão e não empregar outros métodos senão o cálculo e a dedução lógica. Mas é preciso bem reconhecer que no fim do período helenístico e sob o Império o racionalismo grego está em declínio. As causas dele são múltiplas: uma das mais fortes me parece ser a seguinte.
O racionalismo grego é dedutivo. Ele parte de primeiros princípios e ele pretende, a partir deste ponto, explicar todo o dado. Ele faz pouco apelo à observação, menos ainda à experimentação. Ora, se nada é certo como um fato bem observado, confirmado por uma experiência bem conduzida, nada, em contrapartida, é mais sujeito à discussão que os princípios abstratos. A ciência antiga larga, muito cedo, o que nos aparece hoje como o domínio próprio da ciência, o domínio do fato, pelo domínio da filosofia. De onde as disputas entre escolas. De onde, em consequência destas disputas, uma forte inclinação ao ceticismo. O racionalismo grego, tendo devorado ele mesmo, conduziu à fé. Não mais demonstrações: quer-se crer.
Eis para as razões negativas que favoreceram o recurso à revelação em matéria de ciência. E eis o elemento positivo. Paralelamente a este declínio do racionalismo grego, se formou, a partir do século II a.C., ao menos em certos meios, especialmente no Egito, uma nova concepção da ciência.
— A ciência de tipo aristotélico era essencialmente desinteressada. Importava antes de tudo saber, compreender, sem se preocupar com as aplicações práticas, sem tirar proveito para a felicidade do indivíduo das verdades que se tinha descoberto: ou antes esta felicidade do sábio consistia no próprio fato de melhor compreender, na pura contemplação. A ciência nova é interessada. Agora o sábio busca tirar proveito do que ele sabe, seja para conhecer sua sorte a vir (astrologia), seja para produzir ouro e se tornar assim fabulosamente rico (alquimia), seja para se tornar mestre da natureza e agir assim sobre o destino dos homens (ciências ocultas, magia).
— A ciência aristotélica negligenciava o particular pelo geral, o indivíduo pelo universal. O que atrai ao contrário o sábio novo, é a propriedade particular a cada ser da natureza, e de preferência a propriedade singular, maravilhosa, o mirabile. Como esta ciência nova visa a agir sobre a natureza, ela busca sobretudo conhecer as forças escondidas dos seres, estas forças misteriosas que fazem que certos seres atraem outros (o ímã e o ferro) ou ao contrário os repelem, que tal planta, ou tal parte de um animal, tem virtudes terapêuticas ou ao contrário virtudes nocivas, em suma, tudo o que os autores de mirabilia e Plínio ainda nomeiam as leis de simpatia ou de antipatia entre os seres.
Parece que se teve prazer em descobrir primeiro estes laços de simpatia e de antipatia no mundo sublunar, entre os seres dos três reinos. Por exemplo considerava-se as ações e reações dos minerais entre eles e é sobre semelhantes observações que se fundava a alquimia, ou seja, na origem, a arte de obter, por de certas ligas, um metal semelhante ao ouro. Ou ainda considerava-se a ação das plantas ou de certas substâncias animais (a materia medica) sobre o homem e obtinha-se assim uma sorte de história natural tendendo à farmacopeia. Mas pouco a pouco, sob a influência crescente da astrologia, a imaginação se deu carreira em um domínio mais vasto. Se os astros têm uma ação certa sobre todos os eventos do mundo sublunar, eles têm portanto uma influência sobre estas virtudes escondidas, sobre os laços misteriosos de simpatia e de antipatia entre os seres. É assim que se religou sete metais ditos primeiros aos sete planetas, ou que se referiu aos planetas ou aos signos zodiacais plantas das quais se supunha que a virtude era mais ativa no tempo (mês, dia, hora) onde tal planeta ou tal signo domina. O último termo destas especulações foi de imaginar sortes de cadeias ou de “séries” (é a palavra grega de seira, frequente em Proclus para designar a cadeia astral) verticais, neste sentido que se suspendeu a um astro dado toda uma hierarquia de seres, desde o anjo até o mineral, cujas propriedades eram censuradas em relação, em simpatia, com este astro. O sábio que conhecia estas “séries” era evidentemente o mestre da natureza. Ele sabia qual dia era preciso colher tal planta, ou operar a transmutação de tal metal, ou fazer absorver tal droga, para obter o efeito desejado.
— E é aqui que aparece a última e principal diferença entre a ciência aristotélica e a ciência nova. A ciência aristotélica se dirigia a todo ser razoável, a supor que ele fosse dotado de qualidades intelectuais suficientes e de um caráter bastante enérgico para se impor um longo esforço. Mas, estas condições reunidas, não era preciso nada de outro: a única razão, o único querer humano, conduziam ao objetivo. Agora ao contrário, pois o objeto próprio da ciência é a virtude oculta, pois trata-se de descobrir toda uma rede de simpatias e de antipatias que a natureza mantém em segredo, como penetrar este segredo, se um deus não o revela? Esta revelação é sobretudo necessária desde lá que simpatias e antipatias são ligadas aos astros. Pois os astros são eles mesmos seres divinos, deuses. Como portanto reconhecer seu comportamento, a influência que eles exercem sobre todas as coisas, se eles não entram eles mesmos em comunicação conosco?
Assim uma dupla causa inclinou os espíritos a recorrer à revelação em matéria de ciência. Por um lado, está-se cansado das disputas de escola e o ceticismo que resultou destas disputas faz com que se desconfie da razão para se voltar para a fé. Por outro lado, o próprio objeto da ciência nova sendo um objeto misterioso, escondido da razão, e em parte um objeto divino, não há outro meio para atingir este objeto senão fazer apelo à revelação.
Daí várias consequências. A ciência nova será necessariamente um mistério, a transmissão de um mistério. Aqueles que sabem serão eleitos, e haverá uma distância infinita entre estes eleitos e o povo comum. Além disso, o meio de obter a ciência não será mais a pesquisa, o exercício da razão, mas a oração, o ato de culto ou, em um nível inferior, a coerção mágica: passa-se do plano intelectual ao plano da religião ou da magia. O exemplo o mais típico desta mudança é o do médico Tessalo de Tralles (I s. depois de J.C.?). Ele buscou por muito tempo o segredo de uma pílula helíaca. Ele buscou nos livros, ele fez experiências. Nada bastou. Então, desesperado, ele se afunda no deserto do Egito, chega a Tebas. Ora ele encontra lá os sacerdotes que guardaram os antigos segredos. Ele suplica a um deles de lhe proporcionar uma visão de Asclepius para que ele possa interrogar este deus. O sacerdote acaba por aceitar, engaja Tessalo ao jejum e à oração; depois disso, no decorrer de uma operação mágica, ele evoca Asclepius e este revela ao médico todo o segredo das plantas em relação com os sete planetas e os doze signos zodiacais.
