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André-Jean Festugière – Hermes Livro 1 Festugiere – Introdução
FESTUGIÈRE, André Marie Jean. La Révélation d'Hermès Trismégiste I. L'astrologie et les sciences occultes. Paris: Les Belles lettres, 1989. #### OS PROFETAS DO ORIENTE
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Pitagorizar Platão já era coroá-lo com a auréola de profeta, mas a tendência da época exigia recuar além de Pitágoras, até sabedorias ainda mais próximas do divino e mais antigas.
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O pitagórico Numênio de Apameia, no século II, questiona explicitamente a relação entre a filosofia grega e a sabedoria hebraica, indagando o que seria Platão senão Moisés falando ático.
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Numênio afirma que, para tratar do problema de Deus, é necessário recuar além de Platão e invocar as nações de boa reputação, aduzindo suas iniciações, dogmas e cerimônias, em pleno acordo com o que os Brâmanes, os Judeus, os Magos e os Egípcios instituíram.
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Alcibíades de Apameia, por volta de 200 d.C., trouxe a Roma a revelação de Elchasai, de suposta origem parta, instruindo os iniciados a manter segredo e afirmando que os sábios do Egito e Pitágoras não conheceram preceitos tão grandes.
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Esta etapa da revelação livresca reúne todos os elementos que reforçam a autoridade do texto, como a antiguidade remota e o caráter inspirado do sábio oriental, visto como escriba do Altíssimo.
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Nos primeiros séculos da era cristã, as mentes desgostosas do racionalismo grego abandonam-se à influência estrangeira, acreditando que os Bárbaros, ao negligenciarem a razão, comunicam-se com Deus por vias mais secretas.
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O mundo greco-romano encontra-se em estado de estupor, como descreve Hipólito sobre Pitágoras, que ficou estupefato pela sabedoria dos Egípcios.
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Diógenes Laércio inicia suas Vidas dos Filósofos citando a tradição de que a filosofia começou com os Bárbaros, mencionando os Magos entre os Persas, os Caldeus entre os Babilônios ou Assírios, os Gimnosofistas na Índia e os Druidas entre os Celtas e Gálatas.
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Existe uma disputa sobre qual povo detém a prioridade na invenção da filosofia, com os Egípcios sendo tradicionalmente vistos como os mais antigos, cujos deuses, como Thoth, identificado com Hermes, inventaram a sabedoria.
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Aristóteles, em sua fase platônica, concedia a palma aos Magos, considerados mais antigos que os Egípcios, enquanto se faziam cálculos cronológicos que colocavam Zoroastro milhares de anos antes de Platão.
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Estabeleciam-se genealogias complexas, como a citada por Flávio Josefo, onde os Judeus são apresentados como descendentes dos filósofos da Índia, chamados Kallanoi entre os Indianos.
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Para conciliar a prioridade judaica com outras tradições, afirmava-se que Zoroastro era discípulo de Abraão e que Abraão ensinara astrologia ao rei do Egito.
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A lenda do empréstimo cultural afirmava que toda a civilização grega derivava dos Bárbaros, e que figuras como Orfeu, Platão, Pitágoras e Demócrito haviam viajado ao Egito para aprender.
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Segundo Diodoro Sículo, os sacerdotes egípcios afirmavam que Pitágoras aprendeu no Egito o que concerne ao hieros logos, os teoremas da geometria, a ciência dos números e até mesmo a metempsicose.
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Pitágoras era visto como o Sábio inspirado, e Demócrito, sob o Império, tornara-se um mestre em ciências ocultas e magia, supostamente instruído no Egito.
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Hipólito relata a jornada educacional de Pitágoras, afirmando que ele aprendeu dos Egípcios os números e as medidas e, por emulação à sabedoria sacerdotal, prescreveu a lei do silêncio e a meditação em templos subterrâneos.
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Clemente de Alexandria estabelece uma cadeia de transmissão da doutrina da imortalidade, onde Platão a tomou de Pitágoras e este dos Egípcios.
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A biografia de Pitágoras expandiu-se para incluir viagens a todos os centros de sabedoria oriental, aprendendo matemática com egípcios e fenícios, e ritos de culto com os Magos.
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Segundo Giâmblico, Pitágoras sintetizou todo o conhecimento divino após permanecer vinte e dois anos nos templos do Egito e frequentar os Magos na Babilônia.
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Demócrito é citado por Clemente de Alexandria orgulhando-se de suas viagens à Babilônia, à Pérsia e ao Egito, onde aprendeu dos Magos e dos sacerdotes.
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Um tratado hermético expressa a superioridade da língua bárbara sobre a grega, afirmando que os Gregos têm apenas discursos vazios bons para demonstrações, enquanto a língua egípcia possui sons cheios de eficácia.
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Nos papiros mágicos, os nomes bárbaros desempenham papel fundamental, pois a eficácia ritual depende da estranheza e da força sonora dos idiomas estrangeiros.
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O confronto literário entre gregos e orientais resulta sempre no triunfo do oriental, como no diálogo onde o sacerdote egípcio repreende Solão dizendo que os gregos são sempre crianças sem nenhuma ciência encanecida pelo tempo.
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A superioridade do clero oriental é atribuída à sua pureza de vida, ascetismo e isolamento, que lhes permite ver o verdadeiro Deus.
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Querémon, sacerdote estoico, descreve a vida contemplativa dos sacerdotes egípcios, que escolheram os templos para filosofar e são honrados como seres sagrados.
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O isolamento dos sacerdotes é rigoroso, evitando contato com a multidão profana para manter a gravidade e a pureza necessárias ao culto divino.
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A dieta dos sacerdotes egípcios é descrita com minúcia ascética, privando-se de vinho, peixe e certos quadrúpedes para não perturbar a busca filosófica.
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A purificação inclui banhos frequentes em água fria e rigorosa castidade, abstendo-se de todo comércio carnal.
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Essênios e Terapeutas são apresentados com idealização similar, formando povos solitários que renunciam aos prazeres da carne e ao dinheiro.
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Os Magos persas também são descritos como ascetas frugais por Diógenes Laércio, vestindo branco e alimentando-se de pão, queijo e verduras.
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Zoroastro é retratado como um sábio eremita que viveu trinta anos em lugares desertos, nutrindo-se apenas de um queijo que nunca mofava.
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Os Brâmanes indianos habitam um castelo encantado e exigem pureza absoluta de caráter e linhagem dos seus noviços.
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Hipólito descreve a teologia luminosa dos Brâmanes, para os quais Deus é o Verbo do Conhecimento, e não a luz visível.
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A batalha dos Brâmanes é contra o próprio corpo, lutando contra ele como um exército alinhado em batalha, pois o consideram uma prisão da alma.
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A recompensa por tal ascese é a visão divina e o poder profético, fazendo com que reis busquem filósofos como conselheiros.
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Os Magos e Brâmanes possuem poderes sobrenaturais, como a levitação descrita por Filostrato, realizada não por ostentação, mas como rito agradável a Deus.
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Uma anedota do Egito cristão ilustra a expectativa de visão mística, onde um sacerdote pagão conclui que a falta de visões de um monge cristão se deve a pensamentos impuros.
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No século II, sacerdotes do Egito e da Caldeia são vistos como mestres do saber oculto, conhecendo as simpatias cósmicas e como coagir poderes sobrenaturais.
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A lenda de Cipriano o Mago exemplifica o currículo ocultista ideal, iniciando-se nos mistérios gregos e culminando nas ciências do Egito e da Caldeia.
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A educação de Cipriano inclui a penetração nos segredos da astrologia e dos mistérios do éter na Caldeia.
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Cipriano aprendeu no Egito a manipular fenômenos naturais e psíquicos, descobrindo a semelhança entre abalos sísmicos e chuva e a arte de produzir ilusões.
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Um texto judaico-alexandrino atribui a Salomão a ciência universal das correspondências, dada pelo próprio Deus para conhecer a estrutura do mundo e o influxo dos astros.
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O doutor Fausto de Goethe é o herdeiro literário desta tradição de buscar a essência do mundo através da magia, rejeitando o mero jogo de palavras.
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No século II, a enciclopédia grega é vista como um verniz frágil, e a verdadeira sabedoria é buscada em revelações orientais, apocalipses e oráculos forjados.
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Uma vasta literatura pseudepígrafa circula sob nomes de Magos como Zoroastro, Ostanes e Histaspes, sendo os Oráculos de Histaspes citados como autoridade por Clemente de Alexandria.
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A biblioteca de Alexandria conteria dois milhões de linhas atribuídas a Zoroastro, abrangendo magia, astrologia e alquimia.
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O alquimista Zósimo contrasta os métodos de salvação de Zoroastro, que usa a magia para coagir a fatalidade, e de Hermes, que prega o conhecimento de si e de Deus.
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Segundo Hermes, através do conhecimento e da piedade, o filho de Deus intervém a favor da alma para tirá-la da região da Fatalidade e elevá-la ao incorpóreo.
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