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André-Jean Festugière – Hermes Livro 3 Festugiere – Introdução

FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

I. O Problema Fundamental da Presença da Alma na Matéria

  • A interrogação central que permeia a doutrina reside na razão pela qual o homem, ou a alma, necessitou ser estabelecido na matéria em detrimento de viver na suprema felicidade onde habita Deus, questionamento este formulado por Asclepio ao seu mestre e ecoado pelas lamentações das almas na obra Kore Kosmou, as quais, ao saberem de sua condenação, deploram a separação das esferas celestes e o aprisionamento em corpos vis e ignóbeis.
  • Arnobio, engajando-se na polêmica contra os viri novi, argumenta que se as almas fossem verdadeiramente filhas de Deus e geradas pela Potência Soberana, jamais teriam abandonado a beatitude celeste para habitar corpos opacos e imundos, questionando a lógica de um Deus bom enviar suas proles para aprenderem vícios, crueldade e sofrimento na terra, concluindo que a presença da alma no mundo sugere que elas não podem ser de estirpe divina.
  • Plotino transpõe o mito da queda para termos de experiência pessoal, confessando a estranheza de sentir-se descer da contemplação do inteligível para a atividade discursiva e corporal, o que o leva a investigar, recorrendo a Heraclito, Empedocles e Platão, como a alma, sendo incorpórea e divina, pôde adentrar o corpo, deparando-se com a aparente contradição nos textos platônicos que ora condenam o corpo como prisão, ora exaltam o mundo como um deus beato que necessita de alma.
  • A questão da queda impôs-se aos platônicos dualistas e gnósticos não apenas como dificuldade teórica, mas como angústia existencial, pois se a alma provém de um Deus transcendente e bom, sua descida é inexplicável, e se o homem é essencialmente sua alma intelectual aprisionada, a vida terrena perde sentido, levando filósofos como Porfirio a inquirirem incessantemente sobre o modo de união entre a alma e o corpo.

II. Divergências Doxográficas e Classificações da Queda

  • Tertuliano e Jamblico estruturam o problema da descida da alma analisando a origem, o tempo e o modo da encarnação, sendo que Tertuliano busca refutar a tese platônica da anammese para combater os hereges dualistas, enquanto Jamblico, em seu tratado sobre a alma, classifica as opiniões sobre o motivo pelo qual as potências racionais da alma se inclinam para as irracionais.
  • As causas da inclinação da alma ao corpo dividem-se entre aqueles que a atribuem a uma falha original, como a primeira alteridade em Plotino, a fuga de Deus em Empedocles ou a demência nos Gnósticos, e aqueles que a atribuem a um mal posterior à queda decorrente do contato com a matéria ou com a vida irracional; Plotino, por sua vez, admite uma dualidade onde o pecado é tanto a causa da queda quanto as ações iníquas subsequentes à encarnação.
  • Jamblico estabelece uma tipologia das descidas: segundo a escola de Tauros, as almas são enviadas pelos deuses para o aperfeiçoamento do universo ou para manifestar a vida divina; segundo outra divisão, a descida pode ser voluntária, seja por escolha de administrar as coisas terrenas ou por obediência divina, ou involuntária, quando a alma é arrastada forçosamente para o inferior.
  • A análise de Plotino sobre Platão permite distinguir duas grandes correntes interpretativas que guiam a compreensão do fenômeno: uma otimista, baseada no Timeu, onde a descida visa completar a perfeição do mundo sensível, e uma pessimista, baseada no Fedro, onde a descida é uma queda na matéria maligna resultante de uma falha ou perda das asas.

III. A Corrente Otimista: Completude do Mundo e Teofania

  • A doutrina otimista fundamenta-se na cosmologia do Timeu, segundo a qual o mundo visível, para ser uma imagem perfeita do Modelo Inteligível, deve conter todas as espécies de viventes, mortais e imortais, o que torna a existência humana e a descida das almas uma necessidade divina para a integridade do cosmos, tese esta adotada por Plotino e pelos platônicos da escola de Tauros.
  • Esta concepção alinha-se à ideia do homem como ornamento do mundo, ou kosmou kosmos, presente nos escritos herméticos, onde o ser humano é criado não apenas para contemplar a Deus, mas para cuidar e governar as coisas terrenas, conferindo um aspecto dinâmico à sua presença que ressoa com a ética dos administradores imperiais.
  • Arnobio, ao formular objeções retóricas, utiliza o argumento do Timeu de que as almas são enviadas como colônias para habitar a terra e consumar a perfeição do universo, ainda que contraponha a inutilidade das invenções humanas para o funcionamento dos astros e fenômenos naturais, que persistiriam mesmo sem o homem.
  • Nesta perspectiva, a descida da alma é frequentemente descrita como voluntária e ordenada por Deus, não havendo contradição em a alma escolher administrar o mundo material se este é considerado bom e divino, ou obedecer ao comando dos deuses para manifestar a vida divina através de uma existência pura e imaculada.

IV. A Corrente Pessimista: Pecado e Purificação

  • A vertente pessimista enfrenta a aporia de explicar como uma alma, filha de um Deus bom, decai em um mundo material intrinsecamente mau, solução que no dualismo platônico recorre à ideia de que a causa não é Deus, que é isento de culpa, mas uma escolha ou falha da própria alma.
  • No Fedro de Platão, a queda original é descrita como uma perda de asas decorrente da incapacidade da alma de seguir o cortejo dos deuses e contemplar as Ideias, uma necessidade física ou desastre mais do que um julgamento moral explícito, sendo que o julgamento e a punição aplicam-se propriamente às reencarnações subsequentes baseadas na conduta terrena.
  • Porfirio, conforme relatado por Santo Agostinho na Cidade de Deus, modifica o dogma platônico ao rejeitar a metempsicose em corpos de animais e ao propor que a alma é enviada ao mundo para conhecer os males da matéria, de modo que, purificada e retornada ao Pai, jamais sofra novamente as misérias do mundo, transformando a encarnação em uma prova pedagógica única e definitiva.
  • Plotino e Albinus associam a queda a um erro do livre arbítrio ou a uma decisão equivocada, mantendo a ambiguidade se tal erro refere-se à primeira descida ou às sucessivas reencarnações, embora a ênfase recaia sobre a responsabilidade da alma que, por uma audácia ou tolma, separa-se do inteligível.

V. A Culpa Anterior à Queda na Gnose Hermética (Kore Kosmou)

  • No tratado Kore Kosmou, o pecado que precipita a alma na matéria é caracterizado por uma curiosidade insolente e uma audácia indiscreta, onde as almas, não satisfeitas com suas estações, investigam a mistura sagrada do Pai e transgridem os mandamentos divinos ao abandonarem seus postos.
  • A curiosidade, ou periergia, é identificada como um vício capital na gnosiologia hermética, oposta à piedade simples e à aceitação da revelação divina, sendo que a audácia de querer conhecer o que não lhes cabia e a recusa em permanecer em repouso configuram o crime que resulta no encarceramento corporal.
  • Esta periergia manifesta-se duplamente: primeiro na investigação da mistura divina e depois na movimentação desordenada fora dos limites designados, prefigurando a natureza curiosa e audaciosa do homem terreno que, por causa da sua alma, busca temerariamente os mistérios da natureza em vez de adorar a Deus com simplicidade.

VI. O Pecado Consistente na Própria Queda (Poimandres e Dualismo)

  • No sistema onde o pecado reside na própria decisão de descer, a alma ou o Anthropos opta por abandonar Deus e voltar-se para o mundo, um movimento que é simultaneamente uma queda e uma escolha livre, levantando a questão misteriosa de por que um ser estabelecido na felicidade divina escolheria a separação.
  • O Poimandres apresenta uma narrativa composta onde o Anthropos, gerado pelo Nous Pai, deseja criar tal como o Demiurgo e recebe permissão para tal, mas sua entrada na esfera demiúrgica e o contato com os governadores planetários resultam na aquisição de vícios e em uma degradação de sua natureza luminosa.
  • A queda consuma-se através de um narcisismo cósmico, tema paralelo ao pensamento de Numenius e de certos Gnósticos citados por Plotino: o Anthropos vê seu reflexo na natureza ou na água e, apaixonando-se pela própria imagem ou sendo atraído pela matéria, decide habitar a forma irracional, unindo-se a Physis.
  • Numenius descreve um processo similar onde o Segundo Deus, ao ocupar-se da matéria, deixa de olhar para si mesmo e para o inteligível, sendo arrastado pelo desejo e pela solicitude para com o sensível, o que constitui uma perda de sua unidade e simplicidade divinas.
  • Há uma ambiguidade fundamental tanto no Poimandres quanto em Plotino: a descida é descrita como uma audácia (tolma) e uma primeira alteridade (prote heterotes) que implica esquecimento de Deus, configurando um pecado, mas simultaneamente é apresentada como uma necessidade natural ou vontade divina de que o mundo sensível seja povoado e administrado.
  • Essa tensão entre a visão da queda como um mal decorrente da audácia e a visão da encarnação como cumprimento de uma lei eterna ou ordem divina (“Crescei e multiplicai-vos”) reflete a dificuldade dos sistemas dualistas e neoplatônicos em conciliar a bondade de Deus e a perfeição relativa do mundo com a existência do mal e a miséria da condição humana na matéria.
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