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PROFUNDOS MISTÉRIOS DA CABALA DIVINA

Da tradução em espanhol de Juli Peradejordi

Los Misterios Ocultos de la Divina Cábala, defendidos de los sofismas de los Filósofos.

De todos os benefícios, inclusive os maiores, que Deus boníssimo e todo-poderoso concedeu aos homens, estima-se que nada há mais precioso do que o conhecimento dos meios seguros, provados e imutáveis, que permitem chegar à Pátria celeste, objeto de nossos desejos.

Graças a eles, ardendo de amor divino, esmorecendo de amor, dir-se-ia com a esposa, chega-se, por uma feliz evolução, até este amor bendito, eterno, que não é senão o próprio Deus.

Por esta razão, os apóstolos afirmam que a Santa Escritura inspirada por Deus nos foi transmitida como o caminho seguro, como o caminho direto que pode levar-nos à salvação.

Graças a ela discernimos claramente a imutável vontade divina. Discernindo-a, observamo-la; observando-a, amamo-la e, amando-a, asseguramos nossa felicidade.

Oh beatitude invejável! Oh amor delicioso! Oh feliz submissão! Oh diviníssima Escritura! Vós nos converteis em servidores de Deus, em herdeiros do Pai eterno, coerdeiros de Cristo, comensais dos Santos! Vós nos consagrais cidadãos da Jerusalém Celeste! Assegurais nossa felicidade pela Eternidade!

Vós, neste vale de lágrimas onde, submetidos a todo tipo de fadigas, condenados ao dor, rastejamos em uma vida que mais é uma morte lenta do que uma breve existência, vós nos consola com a esperança da Eternidade.

Vós, que elevais tantos justos, tantos santos a tão alta virtude, que se tornam comparáveis aos Ângelos. Vós que, ao dizer de São Bernardo, sois o ensinamento mais elevado que possuem, fazeis com que alcancem os céus, tornando-os semelhantes aos Ângelos aos quais igualam em pureza.

Vós, em meio às mais inacessíveis solidões, nas cavernas, nas grutas, nos mais horrorosos antros, vós os inundais com uma alegria indizível, recompensando-os e sustentando-os com a esperança de uma felicidade eterna.

E, indo mais longe, fostes vós também, assegurando-lhes o advento do Messias, o consolo dos Antepassados que, após a mancha original legada por nosso primeiro pai, não deixavam de chorar e repetir em meio às suas lágrimas:

Céus, derramai sobre nós o vosso orvalho, e que o justo desça das nuvens, como uma chuva benfeitora! Que a terra se abra e dê à luz o Salvador!

E todos estes generosos, estes invencíveis atletas de Cristo; estas Virgens tímidas que, sem desfalecer, com coragem sobre-humana afrontavam a fogueira, as espadas enrubescidas pelo fogo, a roda, o cavalete, o machado do verdugo, assim como todos os outros suplícios empregados pela tirania, e tudo isto para conquistar a palma da glória celeste. Não éreis vós, enfim, quem tão feliz e poderosamente sustentava sua generosa resolução?

Mas, se nos tempos de miséria que atravessamos não há outro meio melhor para assegurar a tranquilidade de nossa vida, a paz de nosso espírito, do que seguir escrupulosamente os ensinamentos da Santa Escritura, a única verdadeira quando se retorna às fontes mais puras, nada é, pelo contrário, mais pernicioso para nosso espírito, nada pode alterar mais profundamente nossa alma do que esta Escritura, regra de nossa vida, quando foi alterada, corrompida, e não é mais possível segui-la, observá-la, sem cair na contradição e no erro.

Isto ocorreu, afirma-se, pouco depois da Paixão de Cristo, nosso Salvador. Obcecados, os judeus em sua ignorância desnaturalizaram a tal ponto este texto sagrado, que quase todas as passagens nas quais os mistérios de nossa Redenção estavam expostos com clareza tornaram-se obscuras e incompreensíveis.

Tais foram os fatos, embora alguns Padres protestem em seus escritos contra esta afirmação. Foi o primeiro ataque do mal e, desde então, graças à ambiguidade das palavras, cada qual começou a interpretar à sua maneira a santíssima palavra de Deus. Houve tantas versões quanto traduções e, o que é mais deplorável, a fé variou segundo os indivíduos e a doutrina, conforme os usos de cada povo. As coisas chegaram a um ponto no qual, com direito e razão, Santo Hilário prorrompeu em santos gemidos sobre a miséria de sua época.

Deus imortal! Que remédio radical e divino se impunha para sanar um mal como este?

Sendo necessário que a Igreja, inspirada e dirigida pelo Espírito, tivesse garantido a autenticidade das Escrituras, teria sido necessário, do mesmo modo, que a Igreja não tivesse deixado subsistir nenhuma dúvida no que concerne à interpretação das Escrituras.

Mas potestações infernais enviadas por Satã vieram obscurecer o céu, até então sem nuvens, da Igreja. Deixando cair um enganoso véu sobre estes ensinamentos, provocaram uma deplorável divisão. Segundo algumas doutrinas cabalísticas, a divisão é a origem de todos os males. O mito da queda de Adão traduz-se nelas no da divisão da unidade homem/mulher do andrógino primordial. O Mensagem Reencontrada fala também da divisão do pecado originário, origem de todos os males. Abandonado o reto caminho seguido até então, animados por um espírito ímpio, ressoando como a trombeta do Anticristo, suscitaram cismas espantosos que desolaram o mundo inteiro.

Havendo perdido a tradição, os mestres daquela época, semelhantes a um membro atacado pela gangrena, arrancado de seu tronco, não propagaram mais do que uma doutrina doentia e corrompida. Entregaram às mulheres, às crianças, aos ignorantes, os textos mais ocultos dos livros santos sobre os quais nunca havia caído um olhar indiscreto.

A partir de um novo modo, não apenas de ler, mas também de interpretar a Escritura, chegou-se a um ponto no qual qualquer ignorante inventava heresias.

São Jerônimo desenhou, gemendo, um quadro magistral desta corrupção dos textos sagrados:

Não há mais que uma ciência das Escrituras, exclama cada qual, e eu a possuo. Qualquer velha charlatã, qualquer ancião de debilitado cérebro, qualquer orador pomposo, qualquer um, em uma palavra, reivindica para si somente a verdade, desnaturalizando os textos, ensinando-os antes de haver aprendido a conhecê-los. Outros, grandiloquentes e majestosos, dissertam em meio às mulheres sobre os livros santos. Outros, enfim, aprendem das mulheres o que ensinam aos homens. E, como se não fosse suficiente, outros, dotados de uma certa loquacidade e de uma audácia maior ainda, pretendem ensinar aos demais o que eles próprios ignoram.

A maioria dos Padres, com um espírito íntegro, tentou buscar novamente o sentido das Escrituras na tradição dos apóstolos; os hereges decretaram que era preciso separar-se deles e, cúmulo da imprudência, acusaram seus discípulos de falsificar e corromper os textos, declarando que para remediar um mal tão grande era necessário remontar até a origem mesma da escrita hebraica e afastar-se totalmente, segundo sua expressão, dos regatos tão turvos da interpretação e da tradição.

Isto reconhecemos junto a São Jerônimo, a quem estes inventores de fábulas quiseram dar uma lição e de quem a Igreja católica recebeu a maior parte da tradução dos textos sagrados. Mas a eles, os críticos de São Jerônimo, deve-se evitar, pois estão endurecidos em seu erro, como Faraó.

E se fosse permitido expor minha opinião em um debate desta importância, demonstraria com mais clareza do que o sol ao meio-dia, apoiando-me no testemunho dos Rabinos, que a versão de São Jerônimo está em conformidade com o texto original.

Com efeito, os relatos bíblicos tomados desta fonte original são quase idênticos nos comentários rabínicos e nos escritos deste grande doutor.

As pessoas sensatas que atacam o verdadeiro sentido das Escrituras (se conservam ainda algum bom grão de sensatez no seio de sua insensatez), apreciarão se é conveniente ou não rejeitar completamente as fontes hebraicas.

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