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TRATADO DA REINTEGRAÇÃO DOS SERES ÀS SUAS PROPRIEDADES, VIRTUDES E PODERES ESPIRITUAIS E DIVINOS INICIAIS (EXCERTOS)
Les Cahiers d'Hermès II. Rolland de Renéville (dir.). La Colombe, 1947
- Antes do tempo, Deus emanou seres espirituais para sua própria glória, dotando-os de livre-arbítrio e submetendo-os a leis, preceitos e mandamentos eternos que fundamentavam sua própria emanação.
- Os seres eram livres e distintos do Criador, sem que se pudesse negar-lhes o livre-arbítrio sem destruir suas faculdades espirituais pessoais.
- As convenções estabelecidas pelo Criador ao emaná-los eram a única base de sua existência distinta.
- A atuação desses seres devia ocorrer estritamente dentro dos limites fixados para o exercício de sua potência.
- Antes da emanação, esses seres existiam no seio da Divindade sem distinção de ação, pensamento ou entendimento próprio, o que constituía a imensidade da potência divina e fundamentava o título de Criador atribuído a Deus.
- No seio divino, os seres só podiam agir ou sentir pela vontade do ser superior que os continha, o que não configura existência propriamente dita.
- Essa existência em Deus é de necessidade absoluta, pois constitui a imensidade da potência divina.
- A multiplicidade infinita de emanações de seres espirituais para fora de si mesmo confere a Deus o nome de Criador e suas obras o de criação divina, espiritual e animal.
- Os primeiros espíritos emanados do seio da Divindade eram distinguidos entre si por virtudes, potências e nomes, ocupando a circunferência divina chamada Dominação, onde atuavam em quatro classes hierárquicas.
- As quatro classes eram: espíritos superiores (10), maiores (8), inferiores e menores (4), cujo número denário corresponde à figura Ф.
- Os nomes dessas quatro classes eram mais elevados do que os vulgarmente atribuídos aos Querubins, Serafins, Arcanjos e Anjos, emanados apenas posteriormente.
- Esses quatro primeiros princípios de seres espirituais possuíam uma parte da dominação divina e conheciam tudo o que podia existir nos seres ainda não saídos do seio da Divindade.
- Os primeiros chefes emanados no círculo denário podiam conhecer as coisas ainda não existentes fora do Criador porque liam com clareza e certeza tudo o que se passava e estava contido na Divindade, prerrogativa exclusiva do espírito.
- Apenas o espírito é capaz de ler, ver e conceber o espírito.
- Esses chefes tinham conhecimento perfeito de toda ação divina por terem sido emanados precisamente para estar face a face com as operações divinas da manifestação da glória do Criador.
- Os chefes espirituais divinos conservaram seu primeiro estado de virtude e potência após sua prevaricação, por força da imutabilidade dos decretos do Eterno, pois a retirada dessas virtudes teria suprimido toda ação de vida e toda manifestação da glória e justiça divinas sobre eles.
- Mesmo que o Criador tivesse previsto a ambição orgulhosa desses espíritos, não poderia conter seus pensamentos criminosos sem privá-los de sua ação particular e inata.
- Os seres espirituais foram emanados para agir segundo sua vontade como causa segunda espiritual, conforme o plano traçado pelo Criador.
- O Criador não toma parte nas causas segundas espirituais, boas ou más, tendo fundado todo ser espiritual sobre leis imutáveis que garantem sua liberdade de ação.
- A prevaricação dos primeiros espíritos consistiu em ultrapassar os limites de causas segundas para interferir nas causas primeiras, condenar a eternidade divina em suas operações de criação, limitar a Onipotência divina e pretender ser criadores de causas terceiras e quartas.
- Esses espíritos eram apenas agentes secundários e não deviam ocupar-se em antecipar o pensamento do Criador em suas operações divinas passadas, presentes e futuras.
- O crime foi triplo: querer condenar a eternidade divina, querer limitar a Onipotência divina e pretender criar seres que sabiam ser inatos na Onipotência do Criador, chamada quádrupla essência divina.
- A condenação da eternidade divina consistiu em querer atribuir ao Eterno uma emanação igual à deles, reduzindo o Criador a um ser semelhante a eles, do qual deveriam nascer criaturas espirituais que dependeriam diretamente desses espíritos.
- Toda má vontade concebida pelo espírito é criminosa diante do Criador, mesmo que não seja realizada em ação efetiva.
- Em punição dessa simples vontade criminosa, os espíritos foram precipitados pelo poder do Criador em lugares de sujeição, privação e miséria, contrários à sua natureza espiritual pura e simples.
- Após a concepção do pensamento criminoso pelos primeiros espíritos, o Criador exerceu a força da lei sobre sua imutabilidade criando o universo físico como lugar fixo onde esses espíritos perversos agiriam em privação, sendo que o homem foi emanado depois do universo formado para dominar sobre todos os seres anteriormente emanados.
- O homem não foi incluído na criação material, pois não devia fazer uso de nenhuma forma dessa matéria aparente.
- Adão foi emanado com as mesmas virtudes e potências dos primeiros espíritos, tornando-se seu superior e primogênito por seu estado de glória e pelo comando recebido do Criador.
- Adão conhecia perfeitamente a necessidade da criação universal, a santidade de sua própria emanação espiritual e a forma gloriosa com que devia agir sobre as formas corporais ativas e passivas.
- O universo é distinguido em três partes: o universo como circunferência que contém o geral e o particular; a terra ou parte geral de onde emanam os alimentos necessários ao particular; e o particular, composto por todos os habitantes dos corpos celestes e terrestres.
- Essa divisão permite conhecer e operar com distinção em cada uma das três partes da criação universal.
- Adão, em seu primeiro estado de glória, era o verdadeiro émulo do Criador e, como puro espírito, lia a descoberto os pensamentos e operações divinas, recebendo do Criador o ensinamento dos três princípios que compõem o universo por meio de três operações sucessivas de comando.
- Na primeira operação, Adão comandou todos os animais ativos e passivos, conhecendo o particular, composto de todo ser habitante desde a superfície terrestre até o centro celeste chamado céu de Saturno.
- Na segunda operação, Adão comandou o geral ou a terra, conhecendo o segundo todo que compõe o universo.
- Na terceira operação, Adão comandou o universo criado inteiro, aprendendo a conhecer a criação universal.
- Após as três operações, Adão recebeu o nome augusto de Homem-Deus da terra universal, pois dele deveria sair uma posteridade de Deus e não uma posteridade carnal, tendo recebido respectivamente a lei, o preceito e o mandamento nas três operações.
- As três operações revelam os limites da potência, virtude e força dadas pelo Criador a sua criatura.
- Essas mesmas operações revelam também os limites prescritos pelo Criador aos primeiros espíritos perversos.
- Após ser abandonado ao seu livre-arbítrio pelo Criador, Adão refletiu sobre a grande potência manifestada em suas três primeiras operações e começou a perturbarse diante da Onipotência divina, que só podia ler com o consentimento do Criador, momento em que um dos principais espíritos perversos lhe apareceu sob forma de corpo de glória.
- O espírito demoníaco disse a Adão que o Criador o havia igualado a si mesmo pela virtude e Onipotência nele colocadas.
- O espírito incitou Adão a agir como ser livre sobre a divindade e sobre a criação universal, afirmando que sua Onipotência em nada diferia da do Criador.
- O espírito afirmou falar em nome do Criador e por mandato dele.
- Diante do discurso do espírito demoníaco, Adão caiu em êxtase, recebeu a insinuação da potência demoníaca e, ao retornar do êxtase, resolveu operar a ciência demoníaca em preferência à ciência divina, rejeitando inteiramente seu próprio pensamento espiritual divino.
- Adão operou o pensamento demoníaco realizando uma quarta operação em que usou todas as palavras poderosas transmitidas pelo Criador para as três primeiras operações, porém rejeitando seu cerimonial e adotando o cerimonial ensinado pelo demônio para atacar a imutabilidade do Criador.
- Adão repetiu o que os primeiros espíritos perversos haviam concebido ao pretender tornar-se criadores, contrariando as leis prescritas pelo Eterno como limites de suas operações espirituais divinas.
- Assim como os primeiros espíritos não deviam conceber nada em matéria de criação, sendo apenas criaturas de potência, Adão não devia aspirar à criação de seres espirituais que lhe foi sugerida pelo demônio.
- A precipitação dos espíritos perversos em trevas prova que o Criador não pode ignorar o pensamento e a vontade de sua criatura, e que o mal não emana do Criador, mas é gerado pelo espírito mau, assim como o pensamento bom é gerado pelo espírito bom.
- Do Criador saiu todo ser espiritual bom, santo e perfeito; nenhum mal pode ter emanado dele.
- O mal é gerado pelo espírito, não criado; a criação pertence ao Criador, não à criatura.
- Cabe ao homem, por seu livre-arbítrio, rejeitar os pensamentos maus e acolher os bons, o que lhe dá direito às recompensas de suas boas obras ou pode mantê-lo em privação de seu direito espiritual.
- A prevaricação de Adão, operada no centro de sua primeira morada gloriosa chamada paraíso terrestre e misteriosamente denominada terra elevada acima de todo sentido, no lugar conhecido como Moria onde depois foi construído o templo de Salomão, torna compreensível a pena que o Criador impôs aos homens ao nascer, tornada reversível sobre a posteridade até o fim dos séculos.
- Adão foi o último ser emanado de qualquer espécie, colocado no centro da criação universal, geral e particular, revestido de potência superior à de todo ser emanado.
- O templo de Salomão, construído sem o auxílio de ferramentas metálicas, figurava a emanação do primeiro homem, formado pelo Criador sem nenhuma operação física material.
- A morada espiritual de Adão foi figurada por 6 círculos e uma circunferência: os seis círculos representavam as seis imensas operações criativas do Criador, e o sétimo anunciava a junção do espírito do Criador com o homem como sua força e apoio.
- Adão possuía em si um ato de criação de posteridade de forma espiritual gloriosa, pela qual, se houvesse agido segundo a vontade do Criador, teria gerado seres tão perfeitos quanto ele, fazendo Deus e o homem uma única operação, tornando-se assim criador de uma posteridade de Deus.
- Os espíritos demoníacos disseram a Adão que ele possuía o verbo da criação em todos os gêneros e era possuidor de todos os valores, pesos, números e medidas.
- Os espíritos o incitaram a operar a potência de criação divina inata nele diante daqueles que lhe eram exteriores, para que todos reconhecessem a glória que lhe era devida.
- Tomado pelo orgulho, Adão traçou seis circunferências em semelhança às do Criador e executou fisicamente sua operação criminosa, obtendo como resultado não uma forma gloriosa, mas uma forma tenebrosa, ou seja, uma forma de matéria em lugar de uma pura e gloriosa.
- Adão reconheceu ter criado sua própria prisão, que o encerrava a ele e a sua posteridade em limites tenebrosos e em privação espiritual divina até o fim dos séculos.
- A privação consistiu na mudança da forma gloriosa para a forma material e passiva.
- A forma corporal que Adão criou era semelhante à que ele mesmo deveria tomar após sua prevaricação: pura e inalterável antes do crime, passiva e sujeita à corrupção depois.
- O Criador deixou subsistir a obra impura de Adão para que ele e sua posteridade fossem molestados de geração em geração, tendo sempre diante dos olhos o horror de seu crime, e para que a posteridade não pudesse alegar ignorância da prevaricação, aprendendo que suas penas e misérias não vêm do Criador, mas do primeiro pai criador de matéria impura e passiva.
- A forma material criada por Adão serviu para que dele nascesse uma posteridade de homens, pois degradou sua própria forma impassiva, da qual deveriam emanar formas gloriosas como a sua para servir de moradas a seres espirituais enviados pelo Criador.
- Essa posteridade de Deus teria sido sem limites e sem fim, sendo as duas vontades de criação, a de Deus e a do homem, uma só em duas substâncias.
- Ao cumprir sua vontade criminosa, Adão teve sua forma gloriosa transmuada pelo Criador em forma de matéria passiva semelhante à proveniente de sua operação criminosa, sendo precipitado nos abismos da terra de onde havia extraído o fruto de sua prevaricação, passando a habitar a terra como os demais animais.
- Antes do crime, Adão reinava sobre a terra como Homem-Deus, sem ser confundido com ela nem com seus habitantes.
- O primeiro homem, Deus de toda a terra, realizou uma operação terrível ao criar uma forma de matéria à sua imagem e semelhança corporal gloriosa, e essa operação foi necessariamente punida pelo Criador por Adão ter injustamente abusado de sua potência.
- O Eterno, tendo prometido com juramento a Adão que agiria com ele em todas as operações feitas em seu nome, foi compelido a cumprir essa promessa imutável.
- Adão invocou ao Criador essa promessa imutável, comandando-o por sua imutabilidade divina a coroar sua obra de criação de forma material.
- Deus, tomado por Adão pela força de seu juramento e imutabilidade, uniu sua operação espiritual à operação temporal de Adão, encerrando na forma de matéria criada por ele um ser menor, tornando-o suscetível de ser pensivo e pensante ao precipitá-lo em uma privação eterna ou limitada.
- Nos primeiros tempos da posteridade do primeiro homem, Héli, chamado Cristo, reconciliou Adão com a criação; Enoch reconciliou a primeira posteridade de Adão sob a posteridade de Sete; Noé reconciliou a segunda posteridade de Adão e a terra com Deus; e Melquisedeque confirmou essas três primeiras reconciliações ao abençoar as obras de Abraão e seus trezentos servos.
- Abraão e seus trezentos servos formam o número perfeito quatro, repetindo o número quaternário de Noé com seus três filhos Sem, Cam e Jafé.
- O número oitavo, resultante da junção desses dois números quaternários, revela que todas as reconciliações e confirmações foram feitas diretamente pelo Cristo.
- Os menores que operaram essas reconciliações foram apenas figuras aparentes de que o Cristo se serviu para manifestar a glória e a misericórdia do Criador em favor dos reconciliados.
- A posteridade de Adão em Caim ainda não foi reconciliada com o Criador, pois o Cristo reconciliou apenas aqueles que a operação espiritual dos justos havia marcado pelo selo, e a maldição recebida por Caim de seu pai Noé fixou seu exílio na parte do Meio-Dia como sinal de sua não reintegração espiritual.
- O Cristo não reconciliou com Deus Pai todos indistintamente, mas apenas aqueles marcados pelo selo enviado pela operação espiritual dos justos.
- O exílio de Caim no Meio-Dia permanece como sinal imorredouro, de geração em geração, de que a posteridade de Caim ainda não foi reintegrada espiritualmente em todas as suas potências e virtudes pessoais.
- A posteridade de Caim, entretanto, não é mais permanente sobre a superfície terrestre.
- A fuga do corvo da arca antes que a terra fosse descoberta, dirigindo seu voo para o Meio-Dia sem jamais retornar, havia profetizado por sinal sensível o que sucederia a Caim, provando que nenhum evento fasto ou nefasto ocorre ao homem sem que lhe tenha sido de alguma forma anunciado.
- Os que permaneceram na arca não voltaram a ver o corvo após saírem dela.
- O intelecto bom não quer que nada se opere sobre a criatura que protege sem fazer-lhe entrever o que lhe há de acontecer de bem ou de mal.
- A questão sobre por que a posteridade de Adão em Caim ainda não foi reconciliada com o Criador recebe como resposta que o Cristo reconciliou apenas os marcados pelo selo espiritual enviado pela operação dos justos, cuja finalidade era dispô-los a fortalecer-se na fé e na confiança na misericórdia do Criador para suportar toda a manifestação da justiça divina operada espiritualmente pelo Cristo entre os habitantes da terra vivendo em privação divina.
- Caim, filho primogênito de Adão, é o tipo dos primeiros espíritos emanados pelo Criador, e seu crime é o tipo do crime que esses primeiros espíritos cometeram contra o Eterno; Abel, segundo nascido de Adão, é o tipo de Adão em seu primeiro estado de justiça e glória divinas; e a destruição do corpo de Abel operada por Caim é o tipo da operação dos primeiros espíritos para destruir a forma de glória do primeiro homem.
- Adão, por sua posteridade temporal, figura o Criador, e essa posteridade figura os espíritos que o Criador havia emanado para sua maior glória.
- Os primeiros espíritos podem ser considerados primogênitos em relação a Adão, por terem sido emanados antes dele.
- Adão e Reaux, segundo nascido espiritualmente dos primeiros espíritos, saíam assim como eles do Pai divino Criador de todas as coisas.
- Abraão disse a Isaac que o maior sacrifício ao Criador é a palavra e a intenção, pois o Eterno conhece perfeitamente a conduta e as operações do menor espiritual, sendo o bom pensamento do menor o que faz conhecer a glória do Eterno e o mau pensamento o que faz manifestar sua justiça sobre os ímpios.
- Isaac disse a Abraão que o Senhor, convencido de sua firme resolução e da de seu filho, o elevou ao maior grau de sua glória e o elegeu pai acima de todo sentido de ser material.
- Após a operação, apareceu um carneiro saído de um arbusto, que foi oferecido em sacrifício para completar a operação, momento em que ambos obtiveram conhecimento perfeito da vontade do Criador quanto aos diferentes cultos gerais e particulares que eles e sua posteridade deviam operar na terra.
- Esse evento demonstra que o verdadeiro culto do Criador sempre subsistiu entre os homens.
- O sacrifício de Abraão, embora figure o sacrifício operado sobre Abel, difere dele em que Abel foi verdadeiramente imolado para realizar a plena reconciliação de seu pai Adão, ao passo que Isaac foi imolado apenas em pensamento e na intenção de Abraão, intenção que foi suficiente para que Abraão fosse perfeitamente reconciliado com o Criador.
- O crime de Adão, muito maior do que o de Abraão, exigia uma expiação considerável, o que explica a necessidade da imolação efetiva de Abel.
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