esoterismo:outros:flusser-historia-diabo:start
História do Diabo
FLUSSER, Vilém. A História do Diabo. São Paulo: Annablume, 2006.
- Etimologicamente, a expressão “história do Diabo” possui raízes profundas, pois o termo “história” relaciona-se com camadas (Schichte em alemão) que se sucedem, e o termo “Diabo” evoca a confusão e, de forma perturbadora, o conceito de “Deus”.
- Estes acordos etimológicos, que evocam a expressão “história do Diabo”, são aceitos de forma ingênua e acrítica, mas é necessário registrar que, enquanto a Divindade se apresenta de múltiplos aspectos, tornando-se inatingível pelo “embaraço de escolha”, o mesmo ocorre na tentativa de capturar o Diabo.
- Em contraste com a Divindade, que é atemporal e simplesmente é, com a corrente dos acontecimentos fluindo alhures, o Diabo é possivelmente imortal, mas certamente emergiu em um dado momento, nadando e, talvez, conduzindo a corrente do tempo, sendo, portanto, histórico no sentido estrito do termo.
- É possível afirmar que o tempo começou com o Diabo, e que sua emergência ou sua queda representa o início do drama do tempo, e que “Diabo” e “história” são dois aspectos do mesmo processo.
- A tentativa humana de escapar do Diabo é outro aspecto da tentativa de emergir da temporalidade e entrar no reino das Mães imutáveis, mas tal afirmação demonstraria uma atitude negativa em relação ao Diabo, voltando-se contra a investigação os preconceitos nutridos.
- Para fazer justiça ao Diabo, que encheu tantos de entusiasmo ao longo da história, e em cujo nome tantos mártires, bruxas e feiticeiros confrontaram as chamas com ardente dedicação, é necessário que a mente esteja livre de preconceitos ao tentar conhecê-lo, ao menos em parte.
- A tradição oficial ocidental, da qual somos produto, pinta o Diabo com cores negativas, como o oponente de Deus, mas esta tradição parece estar em declínio, com poucos ocidentais dedicando-se a pintá-lo e as religiões parecendo não ter mais o Diabo encarnado, instalando-se um silêncio no Ocidente em relação ao Diabo, fingindo tê-lo esquecido sob a regra de “não pensar sobre ele”.
- Esta atitude questionável contrasta com períodos históricos, como os séculos XIII e XVI, onde o tema do Diabo era pública e apaixonadamente discutido, tempos que eram desconfortáveis para o domínio do Diabo, e uma breve consideração dos tempos atuais e da história recente parece demonstrar como este domínio se consolidou, sendo este um dos motivos deste livro.
- A tradição oficial concebe o Diabo negativamente, como espírito sedutor, enganador e aniquilador de almas, atributos que, embora não precisem ser avaliados negativamente (pois permitem a pergunta sobre a “justificação do Diabo” em seu procedimento), predispõem inegavelmente a mente contra ele, e não marcam o ponto de partida para as investigações do caráter diabólico pretendidas por este livro.
- Para conhecer seus motivos, métodos e feitos, é necessário buscar outros aspectos mais positivos de seu caráter, o que não deve ser difícil, já que seus efeitos e manifestações são tantos no mundo externo e em nós, que indicações de seus aspectos positivos abundam.
- A sinfonia da civilização inteira, cada um dos avanços da humanidade contra os limites impostos pelo Divino, a luta prometeica pelo fogo da liberdade, tudo isto, da perspectiva do Diabo, não passa de sua majestosa obra, ou, da perspectiva oposta, mera ilusão criada por ele.
- Ciência, arte e filosofia são os exemplos mais nobres desta obra, e a consideração de como estas atividades se desenvolveram ao longo da história, distanciando-se do pecado original e ingênuo, oferecerá uma primeira visão dos múltiplos aspectos positivos do caráter do Diabo.
- Haverá dificuldade em distinguir a influência diabólica da Divina no vasto rio de fenômenos, o que constitui o tema da consciência e da vida humanas, mas o livro propõe simplificar o problema para torná-lo óbvio, chamando “influência Divina” tudo aquilo que tende à superação do tempo, e “influência diabólica” tudo aquilo que tende a manter o mundo no tempo.
- Esta simplificação, que se justifica pela tradição milenar do Ocidente, concebe o “Divino” (se puder ser concebido) como aquilo que age no mundo fenomênico para dissolvê-lo e salvá-lo, transformando-o em Puro Ser, ou seja, em atemporalidade, e o Diabo como aquilo que age no mundo fenomênico para mantê-lo, impedindo que seja dissolvido e salvo.
- Do ponto de vista do Puro Ser, o “Divino” é o agente criador e o “Diabo”, a aniquilação, mas do ponto de vista do nosso mundo, o “Diabo” é o princípio conservador, e o “Divino” é, eufemisticamente, o fogo purificador do ferreiro.
- Estas considerações confundem os conceitos tradicionais de Céu e Inferno, sendo o dever do Diabo manter o mundo no tempo, de modo que uma derrota definitiva do Diabo (por mais inconcebível que seja) seria uma catástrofe cósmica irremissível que dissolveria o mundo, em contradição com a tradição que ensina que Deus o criou.
- A partir desta intuição, esboça-se a primeira simpatia pelo Diabo no mais íntimo do ser, pois ele é muito mais próximo do ser humano do que o Senhor, e segui-lo é mais confortável e simples do que seguir obscuros caminhos Divinos, reconhecendo nele um espírito aparentado, talvez tão infeliz quanto o nosso.
- A semelhança não deve ser exagerada, pois o Diabo (nesta concepção) conhece o seu dever, e seu projeto é claro, sendo realizado com sucesso admirável especialmente hoje, enquanto os humanos são “livres”, podendo seguir o Diabo ou a Divindade, e, portanto, erram em círculos mal traçados.
- O progresso retilíneo é a coisa do Diabo, e a humanidade progrediu graças a ele, mas em termos de estágios, os seres humanos como “seres livres” estão apenas no primeiro dia, enquanto o Diabo segue seu caminho e a história canta a glória de seus feitos.
- A humanidade está tão perto, ou tão longe, de seu objetivo, quanto Adão e Eva, e embora alguns pareçam ter alcançado Deus ou o caminho para o Inferno, a grande maioria continua a errar no meio.
- A história do Diabo é a história do progresso, e embora o livro devesse ser intitulado “evolução”, o termo causaria mal-entendidos, de modo que evolução, como história do progresso, é a história do Diabo.
- Esta evolução se processa em várias camadas, onde o Diabo age de forma diferente, e seu progresso provoca admiração e susto, o que pode ser esboçado, por exemplo, na contemplação do progresso do elixir do amor até a vitamina E, ou da vassoura da bruxa até o “sputnik”.
- A tentativa de descrever o caminho do Diabo em múltiplas camadas é uma tarefa empolgante, mas não será o método empregado neste livro, que se limitará a apontar várias fases do progresso diabólico de passagem, focando em uma visão abrangente do Diabo.
- O problema será a escolha de uma torre de observação para descrever a paisagem, e duas se oferecem de imediato:
- A torre chamada “história”: Comanda uma paisagem de metamorfose de aspectos diabólicos que se sucedem, onde se veria a grande serpente mãe, Arimã, Prometeu, e como estes se transformaram progressivamente no filósofo científico e culto que representa o Diabo hoje.
- Esta torre desdobra uma paisagem enganosa, pois as formas aparentemente superadas continuam ativas, e a “psicologia profunda” demonstra sua vitalidade, já que o Diabo continua a agir arquetipicamente nas regiões quentes e obscuras do subconsciente, onde se sente à vontade, sofrendo metamorfose apenas sob a luz mais ou menos clara da consciência desperta.
- A evolução do Diabo e a da vida são pelo menos paralelas, sendo o réptil perfeitamente identificável no Diabo sofisticado da idade elegante, e uma das teses do livro será que a evolução da vida não é nada mais do que a encarnação da evolução do Diabo.
- Questiona-se quem é mais possuído pelo Diabo: o protoplasma quase inerte dos tempos imemoriais com sua humilde paciência, ou uma formiga devoradora e uma humanidade especulativa?
- A torre da história desdobra, portanto, uma paisagem cada vez mais superficial para servir como ponto de observação para este livro.
- A torre chamada “introspecção”: Desta o Diabo se revelaria como a força motivadora da maioria das ações e desejos humanos.
- Esta torre é altamente sedutora, mas teme-se que, ao subir e descrever sua paisagem, o presente livro não seria publicável.
- Ambas as possibilidades devem ser recusadas, e uma terceira deve ser buscada, que é felizmente oferecida pela Igreja Católica através de uma antiga sabedoria, que será usada como método para o desenvolvimento do argumento.
- Esta sabedoria ensina que o Diabo apela aos chamados “sete pecados capitais” para seduzir e aniquilar almas.
- A Igreja, em sua propaganda antidiabólica, apela a nomenclaturas um tanto enviesadas para denominar estes pecados: “orgulho,” “avareza,” “luxúria,” “inveja,” “gula,” “ira,” e “tristeza ou preguiça”.
- Estes termos arcaicos são inócuos e facilmente trocáveis por termos neutros e modernos:
- Orgulho: autoconsciência.
- Avareza: economia.
- Luxúria: instinto (ou a afirmação da vida).
- Gula: melhoria do padrão de vida.
- Inveja: luta por justiça social e liberdade política.
- Ira: recusa em aceitar as limitações impostas à Vontade humana, sendo, portanto, dignidade.
- Tristeza ou preguiça: o estágio alcançado pela calma meditação filosófica.
- O livro seguirá obedientemente a classificação dos pecados, mantendo seus nomes tradicionais por respeito à sua idade, mas, em sua disposição inicial de evitar preconceitos, não os considerará pejorativos.
- O livro tentará descrever a evolução das armas e instrumentos diabólicos nos campos dos sete pecados, sendo sua tarefa histórica, embora este seja um sentido raramente aplicado ao termo “história”.
- Desta forma, espera-se esboçar uma visão da situação atual que não é tão óbvia quanto as visões habituais lidas em livros e revistas em voga.
- Os sete pecados emergem de diferentes camadas ontológicas e abrangem vários planos distintos:
- Economia, política e tecnologia são pecados da camada social da realidade.
- Autoconsciência, dignidade e calma filosófica são pecados da realidade psicológica.
- Instinto e afirmação da vida pecam na realidade da biologia.
- A questão das camadas é complexa, apesar das ontologias da filosofia tradicional, pois as camadas se entrecruzam e não permitem ser organizadas ou separadas.
- Essencialmente, todos os sete pecados são um único, sendo pecados da mesma atitude, onde cada pecado inclui os outros, e a Igreja está certa em evitar criar uma hierarquia.
- O livro, no entanto, é forçado, por razões metodológicas, a criar uma hierarquia de pecados para servir de estágios da atividade diabólica a ser descrita, embora todos os pecados se refiram ao homem e a Igreja se interesse exclusivamente pelas almas humanas.
- A honestidade intelectual (que também pode ser chamada de “senso estético”) exige a consideração da atividade diabólica em campos inumanos, o que levou o primeiro capítulo a apresentar um Diabo pré-humano, isto é, pré-histórico do ponto de vista humano.
- O primeiro capítulo apresenta a vantagem de o Diabo aparecer como um agente eticamente neutro, desinteressado pelo homem, permitindo uma contemplação isenta de preconceitos.
- Os capítulos restantes serão dedicados aos pecados sensu stricto, ordenados em uma “pseudo-hierarquia histórica”, copiada da imagem da história oferecida pelas ciências naturais:
- Luxúria será considerada o primeiro e mais antigo dos pecados, pois é graças a ela que o Diabo se encarnou na matéria morta para eliminar a Divindade.
- A distância filosófica, o que a Igreja chama de “tristeza ou preguiça” (ou dégagement, para usar um tom moderno), será considerada o último e mais grave de todos os pecados, pois denota um estágio de evolução já quase supra-humano, onde o homem se supera para se fundir quase inteiramente com o Diabo.
- A gradação hierárquica dos outros pecados intermédios será designada de forma mais casual:
- Ira será considerada uma consequência da impotência da luxúria ininterrupta.
- Gula é outra forma de luxúria, uma luxúria sublimada, transferida para outra camada de realidade.
- Inveja será concebida como a antítese dialética da avareza, e ambos como consequências da gula.
- Orgulho, como um deslocamento para novas camadas, será considerado um giro reflexivo dos pecados sociais, ou seja, “ensimesmamento”.
- Tristeza, ou preguiça, é uma reversão completa, uma luxúria negativa, a negação da vida.
- Luxúria e preguiça são os dois polos do campo magnético dos pecados, sendo, portanto, antitéticos em um sentido mais fundamental do que inveja e avareza.
- O círculo mágico dos pecados se fecha nesta tensão dialética e pode ser penetrado de qualquer ponto, levando sempre, infalivelmente, ao Inferno, mesmo que gire.
- A hierarquia proposta é puramente acidental, repousando levemente na “historicidade” da natureza e informada por preconceitos freudianos, com a luxúria como ponto de partida por ser considerada pelos freudianos a própria fonte da realidade.
- Uma construção do círculo a partir da avareza (vista pelos marxistas como a mola mestra da história e da realidade) resultaria em um curso do livro ligeiramente diferente, mas com um resultado muito similar.
- O capítulo sobre a luxúria observará as atividades diabólicas da produção da vida, sendo cheio de suco vital.
- A Ira, campo da ciência, é um pouco mais seco, mas não menos diabólico.
- Segue-se um salto ontológico para a gula, no campo da tecnologia e do paraíso na Terra.
- Após os prazeres deste tipo de inferno, o caminho segue para os campos dos Dióscuros inveja-avareza, ou seja, a luta política e social.
- O avanço se dará para o orgulho, o capítulo das artes, no qual se espera que surjam os contornos da quintessência do Diabo: a beleza.
- “Orgulho” e “tristeza”, os dois últimos capítulos (arte e filosofia), soam diferentes dos anteriores, exercendo um poder diabólico que atrai e forma o objetivo do livro em mais de um sentido.
- “Orgulho” e “tristeza” são pecados do espírito, e neste sentido, talvez sejam o objetivo do Diabo e da história da humanidade.
- O programa do livro deve ser chamado “diabólico” não apenas por seu tema, mas pela confusão ética da qual brota, característica do momento presente.
- O autor está ciente do pecado que comete ao escrevê-lo, e igualmente do pecado que teria cometido se não o tivesse escrito.
- O motivo é o de esboçar o cenário atual, no qual o Diabo parece dominar de forma inédita o mundo externo e o íntimo (ou o que antes se chamava a “alma”).
- A intenção do livro não é objetiva, embora a objetividade seja um ideal a ser perseguido nas partes das considerações.
- Fundamentalmente, é necessário temer o Diabo, e o medo significa render-se ou fugir com força total, sendo a luta uma terceira possibilidade cuja viabilidade existencial será conhecida no final do livro.
- A intenção subjetiva deste livro é, pelo menos, a capacidade de fugir (em sentido individual e coletivo), e as perguntas existenciais que o livro propõe são: “Por que temer o Diabo? Por que fugir dele?”
- O leitor é convidado a arriscar a jornada ao Inferno, que promete não ser dantesca, mas oferecer prazeres talvez maiores que os do Céu, servindo esta promessa como um engodo, não menos diabólico por ter sido confessado.
esoterismo/outros/flusser-historia-diabo/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
