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AMARELO SAGRADO

Frédéric Portal: Do Simbolismo das Cores

O ouro e o amarelo receberam na língua sagrada a acepção particular de revelação feita pelo sacerdote, ou de doutrina religiosa ensinada nos templos. Ambos representaram a iniciação nos mistérios, ou a luz revelada aos profanos.

Anúbis é a personificação do iniciador egípcio; atribuiu-se-lhe o cão porque este deus era o guardião da doutrina santa contida nos santuários; os monumentos egípcios representam-no com a cabeça de cão, e tanto Virgílio quanto Ovídio conferem-lhe o nome de latidor, latrator. Sírio, a estrela do cão, era segundo a mitologia dos persas o sentinela do céu e o guardião dos Deuses; o enfermo implorava o seu socorro antes de morrer, e oferecia com a mão um pouco de alimento a um cão que lhe era levado ao pé do leito; o cão late — dizia-se —, símbolo da grande iniciação nos mistérios da morte.

A cor é o fio de Ariana que guia pelo labirinto das antigas religiões; o cão iniciador que ataca e repele os espíritos das trevas possuía, conforme o Zend Avesta, amarelos os olhos e as sobrancelhas, e brancas e amarelas as orelhas. O olho amarelo era o emblema da inteligência esclarecida pela revelação; as orelhas brancas e amarelas representavam o ensino da santa doutrina que é a sabedoria divina revelada. As estátuas de Anúbis eram de ouro ou douradas; o nome dessa Divindade, encontrado também na língua copta, significava outrossim ouro ou dourado, Annub.

Anúbis, como personificação das ciências humanas, tomou o nome de Thot, a quem os gregos converteram em Hermes e os romanos em Mercúrio. Mercúrio Hermanúbis é o intérprete e o mensageiro dos deuses; conduz as sombras aos infernos; de sua boca sai uma cadeia de ouro que se prende às orelhas daqueles a quem deseja conduzir, e traz na mão uma vara de ouro; representa-se-no com metade da face clara e a outra metade escura, emblemas da iniciação e da morte nos quais se reproduzia a luta dos dois princípios inimigos, a luz e as trevas.

A arte grega, escrava da beleza das formas, retirou de Hermanúbis o seu símbolo característico, a cabeça de cão, mas nem por isso este animal, uma vez separado da Divindade, perdeu o seu significado sagrado; o templo de Vulcano no Etna, segundo se afirmava, era guardado por cães. Atraíam pelas suas carícias os homens virtuosos, enquanto despedaçavam os ímpios.

Mercúrio era a Divindade tutelar dos ladrões: os antigos viam neste atributo um símbolo dos mistérios subtraídos ao conhecimento do vulgo; os sacerdotes ocultavam o ouro, símbolo da luz, aos olhares dos profanos.

A fábula das Hespérides oferece uma nova prova do significado que ao ouro se atribuía nos mistérios.

Conforme Hesíodo, as Hespérides eram filhas da Noite, e segundo Cherecrates, eram filhas de Phorkys e Keto, ambos Divindades do mar. Juno, no momento em que se casou com Júpiter, deu-lhe macieiras que produziam frutos de ouro; estas mesmas árvores foram situadas no jardim das Hespérides, onde eram guardadas por um dragão, filho da terra segundo Pisandro, e de Typhon e Echidna segundo Ferécides. Aquele horrível dragão possuía cem cabeças, e os seus olhos permaneciam sempre abertos, vigiando as macieiras, que possuíam uma virtude surpreendente. Com uma de tais maçãs a discórdia fez lutar as três deusas; com esse mesmo fruto Hipômenes aplacou a orgulhosa Atalanta. Euristeu ordenou a Hércules que fosse buscar as maçãs; Hércules dirigiu-se a ninfas que habitavam junto ao Eridan para que lhe dissessem onde estavam as Hespérides: estas ninfas enviaram-no a Nereu, Nereu mandou-o a Prometeu, e este ensinou-lhe o que deveria fazer. Hércules transladou-se à Mauritânia, matou o dragão, levou as maçãs de ouro a Euristeu e cumpriu assim o duodécimo dos seus trabalhos.

As maçãs de ouro são os frutos da inteligência que nascem do amor de Deus; Juno oferece-os a Júpiter ao unir-se a ele; estão guardadas no jardim das Hespérides, filhas das Divindades marinhas, isto é, estão guardadas no santuário dos templos e são confiadas aos iniciados, filhos das águas ou do batismo. O dragão, filho das trevas, de Typhon ou da Terra, é o emblema dos vícios e das paixões humanas, que não permitem que os profanos provem estes frutos espirituais. Hércules, ou o neófito, submete-se ao seu último trabalho para apoderar-se deles. Enviam-no às ninfas e às Divindades marinhas, e finalmente a Prometeu, que o inicia nos mistérios. Prometeu formara o homem do barro da terra e dera-lhe vida com o fogo furtado aos corpos celestes. Nereu e Prometeu, ou a água e o fogo, recordam o duplo batismo tanto das iniciações antigas quanto do cristianismo.

O sol, o ouro e o amarelo eram os símbolos da inteligência humana esclarecida ou iluminada pela revelação divina. Neste sentido diz o profeta Daniel que os inteligentes estarão radiantes de luz, e que os que tenham ensinado aos outros a justiça brilharão eternamente como as estrelas. Salomão expressa o mesmo pensamento ao dizer que a cabeça do homem sábio é do ouro mais puro. Jesus Cristo anuncia que os justos brilharão como o sol no reino de seu pai.

O ouro e o amarelo, no simbolismo cristão, eram emblemas da fé. São Pedro, esteio da Igreja e guardião da santa doutrina, foi representado pelos miniaturistas ou iluminadores da época medieval com a túnica amarelo-dourada e o bastão ou a chave na mão. Estes mesmos atributos eram outrossim os de Mercúrio Hermanúbis. Também na China é o amarelo o símbolo da fé. Os antigos equiparavam ao ouro o que ao seu entender carecia por completo de defeitos e era belo por excelência; por idade de ouro entendiam a época das virtudes e da dita, e por versos dourados, segundo Hierokles, os versos em que se encontrava contida a doutrina mais pura. Esta mesma tradição encontra-se na legenda dourada dos santos.

Os alimentos de cor amarelo-dourada converteram-se em emblema do amor e da sabedoria de Deus de que o homem se apropria ou come para falar a língua simbólica. Isaías, o poeta divino, diz que aquele que virá para rejeitar o mal e escolher o bem comerá manteiga e mel. Jó exclama que o malvado não verá os torrentes de manteiga e mel. No Cântico dos Cânticos, Salomão dirige-se à sua esposa mística, cujos lábios destilam um raio de mel; assim, na Ilíada, da boca do sábio Nestor manava a palavra mais doce que o mel. A mesma imagem toma Píndaro ao dizer que os vencedores habitarão uma terra abundante em mel.

Virgílio denomina o mel dom celeste que flui do orvalho, e o orvalho era o símbolo da iniciação. Plínio confere-lhe o epíteto de suor do céu, de saliva dos astros.

O símbolo da revelação divina converteu-se posteriormente no da inspiração sagrada e poética; as chamadas melissas ou abelhas eram as mulheres inspiradas que profetizavam nos templos da antiga Grécia; as lendas populares contavam que nos lábios de Platão no berço haviam pousado abelhas, e que Píndaro criança, abandonado nos bosques, alimentara-se de mel; os primeiros cristãos e os sectários de Mitra davam a provar mel aos iniciados, e faziam-nos lavar as mãos com mel. Por fim, nos sacrifícios da maioria dos povos da antiguidade ofereciam-se bolos de mel.

A doçura deste alimento foi sem dúvida um dos motivos da sua atribuição simbólica, mas a base principal era a cor; Ovídio, ao desejar expressar que a sabedoria esclarece o entendimento, confere a Minerva o epíteto de amarela, flava minerva. Pelo contrário, os alimentos insalubres e silvestres tomavam pela sua cor dourada o sentido inverso. O precursor do Messias veio anunciar uma nova revelação na época em que a antiga estava esquecida ou mal conhecida, e no deserto alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre. Aqui se mostra o primeiro exemplo da regra das oposições.

No sentido celeste, a luz, o ouro e o amarelo marcam o amor divino que esclarece a inteligência humana; no sentido infernal denotam o egoísmo orgulhoso que não busca a sabedoria senão em si mesmo, que se converte na sua própria Divindade, seu princípio e seu fim.

Segundo São Paulo, Satã transforma-se em anjo de luz. Diz Jesus Cristo: Cuidai, pois, que a luz que há em vós não seja apenas trevas. Nesse estado de separação de Deus e de isolamento, o homem comete um adultério; mancha a sua alma por um amor terreno que devia devolver puro ao seu criador. No simbolismo da Bíblia, Sodoma é a imagem dessa degradação que, nos seus últimos limites, se traduz em crimes infames. A mesma ideia representa o enxofre por causa da sua cor e da sua combustão, que produz uma fumaça sufocante.

A chuva de enxofre que consome Sodoma é a imagem enérgica das paixões depravadas que devoram o coração dos ímpios e embrutecem a sua inteligência. O dia em que saiu Ló de Sodoma — diz Jesus — choveu fogo e enxofre do céu que acabou com todos. Isto mesmo passará o dia em que o Filho do Homem aparecer; qualquer que busque salvar a sua vida perdê-la-á, e qualquer que a perder salvá-la-á. Assim, quando as paixões humanas tiverem degradado as crenças religiosas, a Divindade manifestar-se-á de novo na terra; os que então se aferrarem à vida terrena perderão a vida eterna, a vida da alma, e os que renunciarem à existência mundana salvarão a sua existência espiritual.

O sentido que se atribui à palavra enxofre é absoluto, e não recebe na Bíblia exceção alguma: A luz dos maus — diz Jó —, apagar-se-á, e o seu fogo não dará brilho, a luz que iluminava a sua morada escurecerá e a sua lâmpada apagar-se-á; Deus estenderá enxofre sobre o lugar em que estabeleciam a sua morada; serão arrojados da luz para as trevas, exterminá-los-ão do mundo. O salmista, os profetas e o Apocalipse confirmam o significado deste símbolo.

Por fim, o enxofre empregava-se no paganismo para purificar os culpados, porque era o símbolo da culpabilidade.

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