Tabula Rasa
TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946
O CROCODILO
… Aqueles que quiseram ver o homem como uma tábula rasa talvez tenham se precipitado; eles poderiam, em minha opinião, ter se contentado em vê-lo como uma tábula rasada, mas cujas raízes ainda permanecem, aguardando apenas a reação adequada para germinar. Esse termo intermediário poderia ter conciliado há muito tempo o sistema antigo, que afirma que temos ideias inatas, e o sistema moderno, que afirma o contrário. Pois ambos caem igualmente em extremos.
De fato, se as ideias completas fossem inatas em nós, não seríamos obrigados a passar, como fazemos, pela lei imperiosa do tempo e pela lentidão indispensável do aperfeiçoamento de nossa inteligência; e se, por outro lado, o germe da ideia não estivesse ou não fosse semeado em nós, seria em vão que passaríamos sob essa lei imperiosa do tempo e pela lentidão da educação, uma vez que nem uma nem outra produziriam mais efeito sobre nós do que sobre uma ostra.
Além disso, com um pouco mais de atenção, Locke, o famoso adversário dos princípios inatos, não teria dito tão levianamente no primeiro capítulo de seu primeiro livro: “Se essas verdades fossem inatas, que necessidade haveria de propô-las para que fossem aceitas?”
É bem verdade que, se uma bolota fosse uma carvalho, não seria necessário semeá-la e cultivá-la para que ela se transformasse na árvore majestosa que dela provém: mas se, por não ser uma carvalho, se alegasse que o germe, ou a faculdade de produzir esse carvalho através do cultivo, não está na bolota, seria evidente que se estaria defendendo um erro demonstrado pelo fato.
Assim, o homem é como a terra, na qual não se pode criar o germe de nenhuma semente, mas na qual se pode desenvolver todas elas, porque todas encontram nela propriedades análogas. Assim, todas as ideias, quaisquer que sejam, estão destinadas a passar pela terra do homem e a receber ali seu tipo de cultivo.
