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Atenas e Atlântida

UTOPIA

  • Aristóteles identificou Hipódamo de Mileto, filho de Eurifonte, como o mais eminente urbanista de sua época, inventor da planta geométrica das cidades e projetista do traçado em xadrez do Pireu.
    • Hipódamo é apresentado na Política (II, VIII, I) de Aristóteles.
    • Além de urbanista, foi também o primeiro arquiteto a reconstruir cidades inteiras e a elaborar os fundamentos de uma constituição.
  • Hésiquio e Fócio definiram Hipódamo como Meteorologos, estudioso dos fenômenos celestes, e essa condição o habilitou a projetar um novo modo de vida em harmonia com a concepção cosmológica da época.
    • A cidade devia tornar os homens participantes da harmonia cósmica.
    • Os milésios, partindo da mesma concepção de universo, já haviam traçado os primeiros mapas do mundo conhecido.
    • A Terra era concebida como um disco plano circundado pelo rio Oceano, com a terra dos homens inscrita como um tabuleiro regular de campos cultivados, e a Atlântida postada em frente.
  • Hipódamo não podia ser apenas urbanista no sentido moderno do termo, pois, pela lei das correspondências, construir muros equivalia a criar estruturas sociais e lançar as bases de uma constituição e de leis.
    • A polis era um organismo cujo corpo de pedra e cuja alma racional participavam igualmente da harmonia cósmica.
    • Essa participação era concebível precisamente porque Hipódamo era um Meteorologos.
  • Hipódamo projetou uma cidade de dez mil habitantes divididos em três classes — artesãos, agricultores e soldados — e organizou o espaço urbano em um traçado em xadrez com quarteirões correspondentes a cada classe social.
    • O centro, a agora, era o ponto de encontro de todos os cidadãos.
    • Os magistrados, eleitos por todo o povo, cuidavam dos assuntos da cidade, dos estrangeiros e dos órfãos, conforme Aristóteles registra na Política (II, VIII, 4).
    • Os soldados dependiam dos camponeses para o sustento e prestavam contas de seus atos aos magistrados como todos os demais cidadãos.
  • O território também era dividido em três partes: uma sagrada, destinada ao culto dos deuses; uma pública, reservada ao sustento de guerreiros e magistrados; e uma terceira cultivada pelos próprios agricultores para si.
  • A tripartição da cidade grega não era uma inovação de Hipódamo de Mileto, pois se apoiava em um passado lendário que incluía os mitos de fundação a partir de Teseu.
    • Hipódamo não buscava criar estruturas novas, mas aproximar-se o mais possível da pureza das origens.
    • No fundamento das lendas de fundação, encontrava o rigor geométrico e as rígidas estruturas sociais nascidas de uma certa concepção da harmonia do cosmos.
    • Sua intenção era reintegrar os homens na harmonia do mundo para preservá-los de novos males.
  • Atenas, em sua longa história, conheceu uma organização cósmica que exprimia a vontade dos homens de se integrarem no grande esquema do universo, com tribos, subgrupos e gêneros espelhando as divisões do calendário.
    • Segundo P. Lévêque e P. Vidal-Naquet, em Clístenes o Ateniense, os atenienses estavam divididos em quatro grandes tribos gentílicas, imitando as estações do ano.
    • Cada tribo se subdivida em três grupos, formando doze partes equivalentes aos meses do ano, chamadas trítias e fratrias.
    • A fratria compreendia trinta genes, como os dias do mês, e cada gene incluía trinta homens.
  • Em períodos de crise, o sonho se confunde com o pensamento científico e com a reflexão política, e a destruição de Mileto foi a condição que permitiu a Hipódamo projetar sua cidade harmoniosa, assim como as guerras do Peloponeso levaram Platão a refletir sobre a justiça, a República e as Leis.
    • Do início do século V até 338, Atenas não conheceu um período de paz superior a dez anos, totalizando 120 anos de guerra em um século e meio.
    • Em 413, a derrota ateniense na Sicília iniciou uma longa série de insucessos e golpes de Estado internos.
    • Após o desastre naval de Egos Pótamos, Atenas foi desmantelada e Lisandro entrou no Pireu com a frota espartana.
  • Platão, então com vinte e três anos, foi introduzido no governo por seu primo Crítias e seu tio Cármides, mas os abusos dos Trinta Tiranos rapidamente destruíram suas esperanças de contribuir para uma república justa.
    • Confiscos, exílios, arbitrariedades dos tribunais e guerra civil se sucederam até o restabelecimento da democracia.
    • Os vencedores prometeram anistia e a cumpriram, e Platão voltou a esperar poder contribuir para a restauração da justiça.
    • A condenação de Sócrates representou o golpe final nas ilusões do jovem filósofo.
  • Platão se convenceu de que o governo da cidade não podia ser deixado nas mãos do povo e devia ser confiado aos verdadeiros filósofos, capazes de conceber uma lei válida para todos e fundada necessariamente na Verdade.
    • Sem essa base, a sociedade arriscava cair sob o domínio da ilusão oratória e dos caprichos de um poder mais interessado no próprio proveito do que na integridade moral da cidade.
    • No início da República (368 a), Platão faz Sócrates afirmar que defender a justiça como bem absoluto é um desafio difícil.
  • A cidade perfeita era realizável apenas na medida em que os homens fossem capazes de se submeter às Leis e de ouvir a justa voz da razão.
    • Se existe uma justiça para o indivíduo, deve existir uma válida para o Estado como um todo.
    • É mais fácil controlar sua realização no quadro da cidade; depois, cada um poderá verificar se ela está ou não presente em si mesmo.
  • Platão recorre à metáfora de um texto escrito em letras grandes num painel para os que têm a vista fraca: lido o primeiro, os míopes poderão decifrar o segundo, o menor, que trata da alma individual.
    • A harmonia, da qual a justiça é um reflexo, percorre o caminho do universo ao homem passando pela sociedade.
    • O homem é uma cópia mais ou menos fiel do ideal social e se explica apenas em relação ao conjunto, como a peça de um mosaico.
    • A estrutura social encontra sua justificação no mito.
  • Para Platão, era necessário olhar para a cidade a fim de compreender a alma individual, e, já mais maduro, ele continuou a perguntar qual a melhor forma de constituição para uma cidade e como um cidadão poderia organizar melhor sua vida, questão retomada nas Leis (III, 702 b).
  • Ao situar a gênese da cidade em uma perspectiva evolucionista, Platão parece enumerar verdades já familiares a seus concidadãos, o que compromete a originalidade da teoria evolucionista tal como foi enunciada no início do século XX.
    • A vida troglodita dos primeiros homens está no polo oposto, racionalmente, da Idade de Ouro das lendas.
    • O homem toma consciência de seu isolamento e imagina um consórcio com seus semelhantes, surgindo a divisão do trabalho e a especialização das funções.
    • Nesse estágio, a cidade, reunindo poucas famílias, pratica uma justiça elementar e desconhece a guerra, com os homens vivendo uma vida sã e longa contentando-se com pouco.
  • Glauco, interlocutor de Sócrates no diálogo, considera essa cidade primitiva rude e obtusa — um bando de porcos a engorda —, e o determinismo econômico vem em socorro dela: os desejos dos homens se multiplicam e se refinam, determinando o nascimento e o desenvolvimento das artes.
  • Quando a terra dos antepassados se torna pequena demais para sustentar a cidade em crescimento, é preciso conquistar novas terras e se proteger das pretensões expansionistas de outras cidades que passaram pela mesma evolução.
    • A cidade precisa ser defendida por homens escolhidos e decididos, os cães de guarda.
    • Esses guardas devem ter olhar atento, pernas ágeis, músculos de ferro e ser coléricos, porém não ferozes.
    • Um bom cão de guarda é, à sua maneira, um filósofo que sabe distinguir amigos de inimigos.
  • Para educar bem esses cães de guarda, o cidadão da República precisa possuir espírito de justiça e racionalidade em sintonia com suas funções, qualidades a serem adquiridas desde a mais tenra idade.
  • As antigas tradições, esvaziadas de sentido, não podiam mais constituir o fundamento de uma sociedade, e Platão descartou a velha mitologia em busca de um novo mito de fundação que justificasse a existência da cidade e explicasse as relações entre os homens e os laços que os unem à República.
    • Platão admite e subentende que as noções de justiça e de harmonia não bastam aos cidadãos.
    • Será necessário, como já ocorreu com seus ancestrais, o sentimento de participar, por toda a vida, da atualização de um mito que dê sentido às estruturas sociais.
  • Os homens foram gerados pela mesma mãe, a Terra, mas o deus misturou à sua matéria ouro, prata, ferro ou cobre, e a criança fica marcada desde o nascimento pelo metal particular que há nela, metal que apenas os filósofos, senhores da cidade, sabem reconhecer.
    • Há ouro na matéria dos chefes, prata na dos guerreiros, ferro e cobre na substância dos trabalhadores e artesãos, conforme a República (415 a).
    • Apesar do aparente desprezo pelas fábulas, Platão retoma, sem mencioná-lo, um tema de Hesíodo: o das raças metálicas que se alternaram na história da humanidade.
  • A cidade de Platão não é mais uma raça ou um gênero determinado em certo tempo e espaço, mas um Centro Eterno fundado para a eternidade, onde as raças convivem em um eterno presente para o bem supremo da cidade.
    • No mito de Hesíodo, as raças se alternam; em Platão, elas coexistem.
    • Não se trata mais de indivíduos que querem viver como deuses, ignorando a velhice e a morte, mas de uma cidade de homens que, em seu conjunto, acede à imortalidade dos numes olímpicos.
    • Essa imortalidade é garantida pela sabedoria inabalável dos filósofos e sustentada pelo sólido bronze dos trabalhadores e artesãos.
  • A noção de proibição que distingue as diferentes categorias socioprofissionais devia subsistir na época de Platão, que a retomou em sua teoria para garantir melhor a obediência dos cidadãos às austeras leis da República.
    • Os guardiões devem ser pobres e rejeitar o dinheiro para melhor defender a cidade.
    • Platão lhes conta outra fábula para que aceitem de bom grado sua condição: como há neles o ouro mais precioso, devem abster-se de manusear e possuir o ouro vil da terra.
    • Essa forma de interdição é conhecida em certas civilizações tradicionais definidas como totêmicas.
  • As castas da República são hereditárias, ao menos em um primeiro momento, embora possa ocorrer que do ouro nasça um rebento de prata e da prata um rebento de ouro, com variações semelhantes nos outros metais, conforme a República (415 b).
    • Há na República uma rígida hierarquia de classes sociais, apenas levemente atenuada por uma tênue mobilidade social.
    • Essa desigualdade não reside na injusta repartição da riqueza.
    • Cada classe social deve contentar-se com a porção de bem-estar que a natureza lhe atribui ao nascer, e é preciso proibir tanto a riqueza quanto a pobreza.
  • A cidade deve preocupar-se igualmente com as mulheres e as crianças, conforme a República (451 b), pois a diferença de sexo não implica necessariamente diversidade de aptidões.
    • As mulheres recebem a mesma educação dos homens.
    • Platão conjectura mulheres em comum para os guardiões, a fim de evitar discórdias ou rivalidades.
    • As crianças, educadas em comum pelo Estado, pertencem em certo sentido a todos, não conhecendo o pai, nem o pai sabendo quem é seu filho — motivo retomado nas Leis (739 c).
  • As uniões, provisórias, são regulamentadas pelas leis da cidade, com limites de idade fixados dos vinte aos quarenta anos para as mulheres e dos vinte aos cinquenta e cinco para os homens, sendo os filhos nascidos fora dessas idades considerados ilegítimos e excluídos da sociedade.
    • Para evitar o incesto, Platão recorre a um engenhoso sistema de exclusões parentais.
    • Um homem considerará como seus filhos todos os nascidos na cidade nos sete meses seguintes ao seu casamento.
  • Os filhos dos guardiões recebem educação militar e acompanham os pais em batalha, pois todos os animais combatem com muito mais coragem na presença de seus filhotes.
    • Em recompensa pela bravura, os guardiões obtêm mulheres, hinos, lugares de honra nos espetáculos, carne e taças de vinho, conforme a República (468 e).
    • Após a morte, o oráculo é consultado para saber se podem tornar-se numes tutelares da cidade.
    • Nesse ponto reaparece uma antiga crença mediterrânea: o culto dos heróis protetores, cujos santuários se erguiam nos limites do território de uma tribo ou às portas do vilarejo.
  • A República, com a escola, garante o condicionamento dos futuros cidadãos, começando pelo ginásio, que fortalece e harmoniza o corpo, seguido pela música, que contribui para um equilíbrio entre espírito e físico.
    • Os artesãos precisam adquirir sólido conhecimento das técnicas.
    • Os homens livres, e mais ainda os dirigentes da cidade, devem dominar as ciências: aritmética, geometria, astronomia, euritmia e, sobretudo, lógica.
  • A descrição da cidade perfeita ressente da proximidade dos dórios em Creta e em Esparta, reencontrando sua subdivisão tripartite: guerreiros e dirigentes sustentados por uma classe camponesa escrava.
    • Os espartanos viviam em quartéis dos vinte aos trinta anos e, até os sessenta, iam comer em mesas militares.
    • Dos sete aos vinte anos eram criados e instruídos em comunidade, habituados sobretudo a uma severa disciplina.
    • Heródoto já assinalara a existência de mulheres-soldado entre os citas; as Amazonas e as leis de Licurgo também fixavam limites de idade para o casamento, a fim de favorecer a procriação e melhorar a raça.
  • Platão reencontra nessas leis a lendária severidade e o rigor necessários para compensar as fraquezas do indivíduo por meio de um Estado forte, pois o indivíduo, no pensamento platônico, sofre de um desequilíbrio profundo causado por um conflito permanente entre a alma e as paixões do corpo.
    • Desse conflito nasce uma espécie de doença da alma, provocada pela fraqueza, pela intemperança e pela falta de senso de justiça.
    • Nas Leis (644 e), o homem é comparado a um fantoche cujas paixões puxam os fios dos atos, induzindo-o a ultrapassar a tênue fronteira entre o vício e a virtude.
    • Em razão dessa doença da alma, os homens são incapazes de se governar, como um rebanho de ovelhas, e nas Leis (713 d) afirma-se que não se dá o comando de bois a outros bois, nem de cabras a outras cabras, exercendo-se sobre eles a autoridade de uma raça superior.
  • O Estado deve possuir quatro virtudes: sabedoria, coragem, temperança e justiça, conforme Platão ao enfrentar o problema moral.
    • A sabedoria política deve ser ensinada e é própria da minoria dirigente.
    • A coragem deve ser a característica mais importante dos soldados.
    • A temperança, domínio das paixões, deve residir no coração de cada homem.
    • A justiça se manifesta na constância com que cada um cumpre seus deveres; a injustiça, na preguiça ou na interferência nas funções alheias.
  • A conduta e os costumes de um Estado dependem, segundo Platão, do nível moral dos indivíduos, e três princípios se disputam o domínio da alma humana — razão, cólera e concupiscência —, aos quais correspondem três classes no Estado: os dirigentes, os guardiões e o povo.
    • A justiça na alma humana resulta de um equilíbrio dos três princípios: a razão domina os outros dois e a cólera domina a concupiscência.
    • Há injustiça ou desequilíbrio quando a razão não consegue controlar a cólera e a concupiscência.
    • Um Estado é justo quando os dirigentes o guiam, os guardiões o protegem e os trabalhadores e artesãos o sustentam.
  • A República apenas toca de passagem o problema religioso, com um breve aceno protocolar ao oráculo de Delfos, e os sacerdotes não fazem parte das classes sociais que formam o Estado, pois a Cidade é o único intermediário possível entre os homens e o Invisível.
    • A cidade é o único meio capaz de assegurar a salvação dos homens.
  • A cidade de Platão não tem como objetivo o domínio sobre outras cidades de pedra e barro, mas representa, isolada em seu território, o elo que une o homem ao Invisível e a matriz de onde surgirão almas regeneradas por leis justas, preparadas para enfrentar o Além e capazes de escolher uma nova vida terrena.
    • Segundo Platão, a alma imortal do homem, ardendo de amor pela verdade, busca o que, como ela, é divino, imortal, eterno.
    • As leis da cidade a protegem da sujeira deste mundo ou, como diz Platão, da crosta grossa e rude de terra e de pedra que deriva dos banquetes irresponsáveis, conforme a República (612 a).
  • Mais do que as leis justas, Platão se preocupa com o destino das almas após a morte e transmite, no Fedro, no Górgias e no Fédon, os princípios essenciais de um ensinamento secreto; na República, o relato de Er, filho de Armênio, ressuscitado da morte, recorda a finalidade da cidade de leis justas.
    • Er morreu valentemente em batalha e foi encontrado dez dias depois entre outros cadáveres, único a não ter apodrecido.
    • Quando estava prestes a ser cremado na pira funerária, despertou para a vida e narrou o que havia visto no além.
  • As almas, narra Er, se apresentam a um tribunal: as justas tomam o caminho ascendente à direita e os criminosos o que desce à esquerda, e cada um expia seus pecados dez vezes, com cada punição durando cem anos.
    • Redimidas as culpas, as almas se reúnem num prado, umas subindo das entranhas da terra, cansadas e empoeiradas, outras descendo leves e puras do céu.
    • Gemendo e chorando contam umas às outras suas peripécias ou se maravilham com os prazeres celestes que conheceram.
  • No oitavo dia de viagem, as almas eleitas são admitidas à contemplação do eixo do cosmo — o fuso da Necessidade que faz girar todas as esferas —, cujo contrapeso é formado por oito anéis concêntricos resplandecentes de luzes diversas, cujas oito vibrações e oito vozes compõem, enquanto giram, um canto admirável e indescritível.
  • A virgem Láquesis, filha da Necessidade, dirige às almas as palavras que anunciam o recomeço de uma nova vida mortal, em que não será o acaso a lhes atribuir o demônio que as acompanhará, mas elas mesmas a escolher seu próprio destino, pois cada uma é responsável por sua escolha e a divindade não intervém.
    • Escolhido o novo destino, as almas se lançam em direção ao mundo superior, à terra dos homens, e no estrondo de uma tempestade sobem como estrelas, conforme a República (612 b).
    • Er despertou então ao amanhecer na pira funerária.
  • Esse antigo logos encerra a República, e diversas cenas — especialmente a ascensão das almas eleitas e a descida das condenadas — inspiraram indubitavelmente a arte cristã, assim como os homens selvagens feitos de fogo que atormentam os malvados.
    • A tradição platônica não esperou o Renascimento para enriquecer com suas certezas e símbolos o pensamento dos homens de estudo.
  • O relato de Er constitui a justificação da cidade harmoniosa e de suas leis severas, as únicas capazes de preparar o homem para a escolha de um novo destino e para uma nova etapa no ciclo de seu devir, a fim de obter as recompensas da justiça como um vencedor nos jogos.
  • Para alcançar esse objetivo, a Cidade Justa não deve inovar criando novas estruturas, mas, ao contrário, buscar religar-se ao passado, depositário de toda a sabedoria, e é no passado que Platão tenta reencontrar as leis imutáveis da sociedade justa, assim como Hipódamo de Mileto, ao reconstruir sua cidade, buscava reintegrá-la na antiga harmonia do cosmos.
  • Esse passado, difícil de reencontrar numa época conturbada, Platão o persegue através de outros ensinamentos e, sobretudo, na antiquíssima história ateniense, movido pela nostalgia do reinado de Cronos, cujo reflexo estaria nas melhores instituições atuais, conforme as Leis (713 b).
    • Esse passado seria lendário se Platão não o revestisse do prestígio das tradições egípcias.
  • É um sacerdote de Sais que, no Timeu (23 d), explica a Sólon o parentesco entre Atenas e Sais, fundadas pela mesma deusa — Neith, chamada pelos gregos de Atena —, e afirma que as leis egípcias de Sais, nove mil anos antes das atenienses, antecipavam o mesmo espírito.
    • Isso confere maior autoridade à tripartição social preconizada na República, análoga, no espírito platônico, à subdivisão em três classes instituída originalmente por Teseu.
  • As Leis (745 b-c) retomam o tema da divisão geométrica da cidade em doze partes dispostas em raios ao redor de seu centro — o recinto de Vesta, de Zeus e de Atena —, e a cidade esboçada nas Leis é desprovida de muralhas e cercada de templos.
    • Antecipando Maquiavel, Platão já considera que a muralha induz os cidadãos à moleza, convidando-os a se refugiar em seu interior em vez de combater, conforme as Leis (VI, 778 c).
    • As Leis marcam um recuo em relação à República, retomando a planta circular da cidade e os templos destinados a proteger os homens.
    • A ausência de muralhas exprime, por si só, tudo o que Platão ainda espera da consciência dos cidadãos.
  • No Crítias, Platão retoma a organização política da Atenas antiga, que se assemelha em muitos pontos à que preconiza para a nova Atenas, insistindo na rigorosa separação das classes sociais que nela coexistiam.
    • A raça dos guerreiros, isolada desde o início dos homens divinos, habitava por conta própria e tinha o que necessitava para viver e se perpetuar, mas nenhum guerreiro individualmente possuía coisa alguma, pois todo bem era comum, conforme o Crítias (110 d).
    • Naquele tempo, também as mulheres participavam das atividades bélicas, conforme o Crítias (110 b).
  • Essa organização militar permitiu a Atenas repelir a invasão dos Atlantes e libertar todos os povos aquém das Colunas de Hércules que haviam sido submetidos, pois o Império de Atlântida havia se estendido ao ponto de ameaçar o próprio Egito e a Tirrénia, conforme o Crítias (113 c).
  • Atlântida, no pensamento de Platão, representa a antítese da sábia Atenas: fundada no excesso e no desequilíbrio, é a cidade injusta nascida do capricho de um deus inquieto, Posêidon, em recordação de seu amor por Gito, filha da Terra.
    • A cidade dos Atlantes é protegida por anéis concêntricos de mar e terra.
    • A ilha em que se ergue é rica e exuberante, com o misterioso oricalco, o mais precioso dos metais depois do ouro.
    • Um complexo e prodigioso sistema de barragens portuárias colocava Atlântida em comunicação com o mar: passagens cobertas, pontes guardadas por torres e dotadas de portas, bacias subterrâneas.
  • Na construção das casas de Atlântida foi usada alternadamente pedra branca, vermelha e negra, e as muralhas concêntricas resplandeciam ao sol, revestidas de cobre, estanho e oricalco de reflexos de fogo.
    • O palácio real era cercado de muros de ouro.
    • A cada ano, os dez reis das dez províncias chegavam para oferecer a Posêidon e a Gito os sacrifícios sazonais.
    • O santuário era imenso, todo revestido de ouro e prata, e continha estátuas dos deuses, dos dez reis nascidos daquele amor divino, de suas esposas e descendentes, além de muitas outras estátuas votivas.
  • Cada linha do Crítias sublinha a riqueza de Atlântida — jardins, palestras, picadeiros —, e a defesa era assegurada por numerosas tropas formando um poderoso exército de carros de guerra, cavaleiros, hoplitas e fundeiros, além de uma frota de mil e duzentas naves.
    • O exército era recrutado com base em uma espécie de conscrição territorial, um imposto em homens e materiais pago por cada um dos seis mil distritos em que estava dividida a ilha.
    • As tropas mais confiáveis tinham seus alojamentos dentro do recinto interno.
    • As guardas mais fiéis estavam aquarteladas dentro da própria acrópole, perto do palácio real.
  • Os dez reis de Atlântida eram os cinco pares de gêmeos do sexo masculino nascidos do amor entre Clito e Posêidon, e dispunham de poder absoluto, cada um em sua cidade, podendo encadear e condenar à morte quem quisessem, conforme o Crítias (119 c).
    • Suas relações eram regulamentadas por um protocolo gravado em uma coluna de oricalco erguida no centro da ilha, no templo de Posêidon.
  • Certo dia, Atlântida chegou a ameaçar com seu poder o Mediterrâneo ocidental, e nada parecia capaz de obstruir sua vitória sobre Atenas, a cidade justa.
    • Por muito tempo, os dez reis haviam seguido as regras da verdadeira sabedoria, desdenhando tudo o que não fosse assimilável à virtude.
    • Mas essa sabedoria não provinha do livre desenvolvimento de sua alma racional, sendo antes consequência de um elemento irracional: a presença neles de uma partícula divina, um phuseos théias, ligada à sua origem como filhos bastardos de Posêidon.
  • Quando a partícula divina presente nos reis foi diminuindo e se apagando, por terem eles se unido a numerosas mortais, e quando começou a prevalecer sua herança humana, conforme o Crítias (121 a-b), não se contentaram mais com o que já possuíam e se deixaram dominar por uma desmedida cobiça de novas conquistas.
    • Aos homens dotados de segunda visão, os reis pareciam feios, pois haviam perdido o bem mais precioso, a centelha divina, e eram presas de uma injusta avidez e vontade de poder.
  • Atlântida não é apenas o contraponto mítico da virtuosa Atenas governada por leis justas, mas representa e simboliza o Oriente — a Pérsia, mais especificamente —, cujas invasões haviam abalado as estruturas da sociedade grega muito mais do que os Atlantes de um passado longínquo e mítico.
  • Em vários aspectos, Atlântida recorda as cidades da Ásia Menor: Ecbátana, segundo o testemunho de Heródoto, era protegida por sete cinturões concêntricos de muros com as cores dos sete planetas, e no centro se erguia o palácio real, o tesouro do rei e os santuários erguidos por Nabucodonosor, revestidos de ouro e prata como o templo de Posêidon, conforme Heródoto, Clio, 98.
  • As cidades circulares são características da tradição oriental — Bagdá conservou sua planta original até o primeiro século do Islã — e exprimem uma das preocupações primárias da cidade retomada ao longo dos séculos por todas as utopias: exorcizar a morte.
    • Alcméon de Crotona explica que os homens morrem porque não podem, como os astros, recomeçar do princípio quando chegam ao fim, conforme P. Lévêque e P. Vidal-Naquet, Clístenes o Ateniense, p. 78.
    • Reproduzindo na terra a órbita dos astros e especialmente o movimento aparente do sol, a cidade de planta circular paralisa o tempo em um eterno presente, tornando os homens participantes da imutável inalterabilidade do tempo das origens assim reencontrado.
    • Aristófanes apresenta Pistetário aconselhando os pássaros a construir uma cidade e a cercá-la de uma grande muralha circular de tijolos, como a antiga Babilônia, conforme os Pássaros (550 e seguintes).
  • É, portanto, o Oriente que Atenas derrotou uma primeira vez ao repelir a invasão de Atlântida — aquele Oriente cujo poder dependia de um elemento divino, quase mágico, um phuseos théias misturado à argila e ao esmalte das muralhas consagradas aos planetas, e cujo princípio político era a monarquia de direito divino.
    • A esse Oriente se contrapõe Atenas, vitoriosa por ter sabido opor ao invasor a alma racional e o espírito da democracia.
    • Aos Atlantes, ricos de todos os tesouros da terra, se contrapõem homens que desprezam os bens materiais deste mundo, a ponto de tê-los posto em comum para não conceder ao corpo mais do que o necessário.
  • A vitória de Atenas sobre Atlântida é já a dos pobres sobre os ricos, daqueles que escolheram se despojar de todos os bens sobre os que não conseguem se libertar da escravidão da riqueza.
    • Atenas não precisará, para viver livre, de muralhas consagradas nem de reis divinos, mas apenas do harmonioso desenvolvimento da alma racional de cada cidadão.
  • Lidas as letras grandes do livro da cidade, é possível — como sugere Platão — decifrar o pequeno livro do microcosmo.
    • As muralhas circulares e a planta cósmica das cidades recordam ao homem que, com cada um de seus gestos, ele participa da harmonia do mundo.
    • Com o despertar de sua alma racional, o homem toma consciência com maior clareza de ser cidadão de uma cidade sem muralhas, fundada na vontade dos homens e não no arbítrio dos deuses.
    • Leis justas dominam as paixões e as cobiças do corpo, estimulam neste mundo o despertar da alma racional e dão ao homem a possibilidade de escolher um bom daímon no prado dos mortos.
  • A contraposição entre o Império de Atlântida e Atenas é metáfora dessa luta, dessa stasis que é a contradição inerente ao homem, e desse conflito nascerá o pensamento moderno do Ocidente.
    • Atlântida, com seu templo e as mil estátuas do recinto sagrado, simboliza uma precisa loucura da alma.
    • Atenas é a cidade da justa recompensa, onde o homem se prepara para assumir sua humanidade e suportar as consequências de suas próprias ações.
    • A cidade justa, cuja planta Platão traçou, prepara as utopias dos séculos vindouros: ela é a Cidade do Homem, de um homem livre de toda angústia, da fatal presença dos deuses, senão já do fardo de sua alma imortal.
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