esoterismo:trithemius:ioan-couliano
Ioan Couliano
COULIANO, Ioan P. Éros et magie à la Renaissance 1484. Paris: Flammarion, 1984.
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Trithemius, em resposta a Maximiliano I em 1508, atacou as bruxas segundo a doutrina do Malleus maleficarum, concluindo pela necessidade de extermínio dos praticantes de feitiçaria com base em preceitos bíblicos.
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As maleficae faziam pactos com demônios e tornavam-se vassalas destes por profissão solene de fé.
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Os textos do Êxodo e do Deuteronômio eram invocados como fundamento divino para a eliminação dos feiticeiros.
No Antipalus maleficiorum, concluído em outubro de 1508, Trithemius manifestou preocupação com a redução do número de inquisidores diante da gravidade e abundância dos crimes de feitiçaria.-
A obra reforçava a posição já expressa nas respostas ao imperador.
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A vigilância da Igreja era exortada com ênfase ainda maior do que na ocasião anterior.
Apesar de exigir pena capital para bruxas e necromantes, Trithemius era considerado por seus contemporâneos um dos maiores feiticeiros do século XVI, equiparado em autoridade a Hermes e ao rei Salomão.-
A contradição entre o papel de perseguidor e a reputação de mago marcou toda a recepção de sua figura.
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Escritos pseudoepígrafos circularam atribuídos a ele, amplificando a lenda após sua morte.
Augustin Lercheimer de Steinfelden narrou prodígios atribuídos a Trithemius, incluindo a posse de um espírito auxiliar que lhe fornecia refeições quentes e vinho durante viagens.-
Um conselheiro imperial alemão teria testemunhado a ação do espírito numa estalagem sem boa comida durante uma viagem à França.
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O episódio era apresentado como prova da intimidade do abade com forças sobrenaturais.
Lercheimer relatou que o imperador Maximiliano pediu a Trithemius que evocasse o fantasma de sua esposa morta, filha de Carlos da Borgonha, e que a aparição de Maria foi tão perfeita que nenhuma diferença podia ser percebida entre a visão e a pessoa real.-
A evocação teria ocorrido diante do imperador, do abade e de uma terceira testemunha.
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O episódio foi comparado à aparição do fantasma de Samuel diante de Saul.
Lutero acrescentou detalhes ao relato, afirmando que Maximiliano recebeu visitas de outros fantasmas célebres, como os de Alexandre e Júlio César, e o médico Johannes Wier confirmou aparições semelhantes produzidas por um grande feiticeiro na corte imperial, desta vez com os fantasmas de Heitor, Aquiles e o profeta Davi.-
Wier não mencionou o nome de Trithemius, mas forneceu detalhes sobre as manifestações.
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Os episódios circularam em versões ligeiramente distintas entre diferentes autores.
O sueco Georg Willin, em 1728, seguido por Will-Erich Peuckert e Kurt Baschwitz, ofereceu a explicação mais plausível para os fenômenos ópticos atribuídos a Trithemius, identificando o uso de câmara escura ou de jogos com espelhos.-
O próprio Antipalus maleficiorum revelava que Trithemius conhecia o princípio da câmara escura e sabia construí-la.
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Henricus Cornelius Agrippa, discípulo de Trithemius, descreveu em detalhes como era possível produzir ilusões ópticas com espelhos, recurso então associado à magia natural.
Bartholomeus Korndorff concluiu que não havia obra demoníaca nas ações de Trithemius, e o servo Servatius Hochel atestou que o abade havia preparado para o imperador duas luzes que permaneceram acesas no mesmo lugar por vinte anos.-
O fenômeno era do mesmo tipo que o atribuído pelos manifestos rosacruzes ao túmulo de Christian Rosenkreuz, aberto 120 anos após sua morte e contendo lamparinas acesas, espelhos e outros objetos.
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Korndorff e seus contemporâneos não compreendiam os mecanismos envolvidos, mas reconheciam a ausência de intervenção demoníaca.
A figura de Trithemius comporta duas imagens históricas radicalmente contraditórias: a do feiticeiro autor da Steganography e praticante de necromancia, e a do sábio celebrado como poeta, filósofo, matemático, historiador e teólogo, segundo a apologia de Wolfgang Ernest Heidel de Worms, redigida em 1676.-
A Steganography era considerada obra abstrusa de escrita secreta e cabbala prática.
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Muitos escritos pseudoepígrafos circularam atribuídos ao abade.
O abade de Sponheim e depois de St. Jakob de Würzburg foi protegido pelo próprio imperador Maximiliano I e por dois príncipes eleitores, e sua Steganography foi dedicada a Filipe, conde do Palatinado e duque da Baviera.-
Trithemius produziu cerca de noventa compilações e panfletos, além de numerosas epístolas.
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Espaço considerável de sua obra foi dedicado à feitiçaria e às superstições populares, distinguindo-se pelo zelo no combate às maleficae.
Peuckert observou que, no Antipalus, Trithemius não hesitava em recomendar, contra feitiços, remédios tradicionais do arsenal da magia medieval, revelando uma duplicidade em relação à feitiçaria.-
Trithemius era um dos grandes eruditos do ocultismo no século XVI.
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Uma observação imprudente traiu sua condição de ocultista ativo, indo além do simples estudo com fins eclesiásticos.
Nascido em Trittenheim em 1º de fevereiro de 1462, o futuro abade chamava-se Heidenberg, mas recusou o sobrenome do padrasto com quem viveu em conflito até os quinze anos, e diante da impossibilidade de estudar recorreu ao jejum e à oração, tendo recebido então uma visão noturna em que um jovem de branco lhe apresentou duas tábuas, uma coberta de escrita e outra de figuras pintadas, ordenando que escolhesse uma.-
O pai biológico morreu quando o menino tinha um ano; a mãe se recasou e os filhos tiveram de adotar o nome do padrasto.
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Ao escolher a tábua com escrita, Trithemius recebeu a promessa de que Deus lhe concederia tudo que pediu e ainda mais do que fora capaz de pedir.
Klaus Arnold considerou plausível que o segundo desejo não revelado de Trithemius fosse conhecer tudo o que existe no mundo, hipótese confirmada pelo projeto da Steganography e pela sede insaciável de conhecimento que o levou a uma leitura intensiva ao longo de toda a vida.-
O primeiro desejo declarado era aprender as Sagradas Escrituras.
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O caráter do segundo desejo seria esclarecido pelo projeto da Steganography e pela ambição enciclopédica do abade.
No dia seguinte à visão, Trithemius aprendeu o alfabeto na casa de um filho de vizinho, lendo alemão com perfeição em um mês; seu tio paterno Pedro Heidenberg custou lições com o padre de Trittenheim, provavelmente a fonte do latim; estudos posteriores foram realizados em Trier, na Holanda e em Heidelberg, onde aprendeu grego sem jamais obter grau acadêmico.-
A rapidez do aprendizado inicial era associada à promessa recebida na visão.
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A ausência de diploma formal contrastava com a vastidão da erudição acumulada.
Em janeiro de 1482, após ser retido por uma tempestade de neve no convento de Sponheim durante uma semana, Johann Zell decidiu ali permanecer, tornando-se novico em março e fazendo sua profissão de fé em novembro; em julho de 1483, aos vinte e três anos, foi eleito abade de Sponheim.-
A eleição tão precoce não teve seus reais motivos revelados na apologia de Heidel.
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A permanência acidental no convento foi o evento decisivo para toda a trajetória posterior.
Sponheim era um dos mosteiros mais pobres do Palatinado, com apenas cinco habitantes quando Trithemius chegou, todos atraídos pela perspectiva de liberdade completa que compensava a miséria do lugar, e os monges elegiam o mais jovem como abade contando com sua inexperiência para preservar o próprio ócio.-
Os predecessores no cargo procuravam deixar o mosteiro o mais rapidamente possível por melhores destinos.
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As dívidas dos predecessores e a desobediência dos monges foram os primeiros desafios enfrentados.
Trithemius revelou-se um administrador capaz, reorganizou as finanças de Sponheim até 1491 e empreendeu a reconstrução completa do mosteiro, decorando as paredes de seu apartamento com quadras do humanista Konrad Celtis e as do refeitório com os brasões dos vinte e cinco abades predecessores, além do seu próprio, um cacho de uvas.-
A reconstrução do complexo monástico representou uma transformação radical em relação ao estado de decadência encontrado.
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A ostentação decorativa sinalizava uma afirmação de prestígio e continuidade histórica.
A principal atração do novo edifício era a biblioteca, sem paralelo no início do século XVI, resultado de compras, trocas de livros raros e de trabalho febril dos monges em cópias e encadernações, crescendo de quarenta e oito volumes em 1483 para cerca de dois mil em 1505.-
Em 1495, o compositor neerlandês Matthaeus Herbenus, reitor de St. Servatius em Maastricht, expressou espanto com a quantidade de livros numa carta a Jodocus Beissel.
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Por volta de 1500, Sponheim tornara-se destino obrigatório de peregrinação para humanistas que passavam pela Alemanha, comparável ao que Weimar representaria para visitantes de Goethe no século XIX.
As despesas exorbitantes com a biblioteca e o esgotamento dos copistas provocaram protesto dos monges, levando à saída de Trithemius em 1506 para o pequeno mosteiro de St. Jakob em Würzburg, enquanto os rebeldes elegiam um novo abade e uma facção pró-Trithemius impedia a destruição da coleção até a morte do ex-abade em 1516.-
Trithemius revisitou Sponheim apenas duas vezes após a partida, em 1508 e 1515.
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A ideia de reconstituir em Würzburg uma biblioteca comparável à de Sponheim foi aparentemente abandonada por motivos de saúde e falta de forças.
Trithemius descreveu sua própria biblioteca em latim como única na Alemanha, ressaltando que nela se encontravam não livros comuns, mas raros, ocultos, secretos e maravilhosos, dificilmente encontráveis em qualquer outro lugar.-
Era possível ao abade adquirir livros raros em mosteiros beneditinos cujos monges temiam que possuí-los comprometesse a observância das regras monásticas.
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O catálogo de 1502 foi perdido ainda em vida do abade, e nenhuma fonte permite reconstituir integralmente os títulos da coleção.
A visita de Trithemius a Sponheim em 1508, coincidindo com a redação do Antipalus, sugere que ele recorreu à biblioteca para rever obras de ocultismo, e a lista de títulos descritos no Antipalus como contrários à religião indica a provável presença de obras como a Clavícula de Salomão, o Picatrix, o Sepher Raziel, o Livro de Hermes, tratados de necromancia atribuídos a Rupert da Lombardia e a Michael Scot, obras de demonologia atribuídas a Alberto Magno, o Elucidarium de Pietro d'Abano, o Schemhamphoras e numerosos outros escritos árabes, ocidentais e anônimos.-
Os títulos listados tratavam principalmente dos sete espíritos planetários, suas fisionomias, nomes e símbolos de invocação.
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Obras como o Speculum Joseph continham truques de catoptromância, enquanto o livro atribuído a Michael Scot ensinava a obter um espírito familiar.
Trithemius poderia ser comparado a um Sir James Frazer do século XVI, acumulando erudição sobre superstições para expô-las, mas é certo que não se limitou a estudar a magia para combatê-la, praticando-a ele mesmo enquanto proclamava sua inocência a cada oportunidade.-
A comparação com Frazer salienta a postura aparente de estudioso distanciado.
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A contradição entre discurso público e prática privada atravessa toda a trajetória do abade.
Uma carta enviada por Trithemius ao carmelita Arnoldus Bostius de Ghent, chefe de uma Fraternidade de Joaquim fundada por volta de 1497 e da qual faziam parte Trithemius e Sebastião Brant, chegou após a morte do destinatário e foi lida pelo prior do mosteiro, que a tornou pública, dando início à lenda de Trithemius o feiticeiro.-
A Fraternidade de Joaquim defendia a ideia da concepção imaculada de Santa Ana em relação à Virgem.
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A divulgação do conteúdo da carta não foi intencional, mas suas consequências foram duradouras.
Na carta, Trithemius anunciava a Bostius um projeto de obra chamada Steganography, cujo primeiro livro causaria espanto universal, abrangendo em quatro volumes a criptografia, a escrita em encáustica, um método acelerado para aprender línguas estrangeiras e métodos criptográficos com temas ocultos que não poderiam ser divulgados publicamente.-
Trithemius afirmava que nada do que professava era sobrenatural.
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A afirmação de que um leigo poderia dominar o latim em duas horas levantava suspeitas sobre a intervenção de um espírito poderoso.
A arte esteganográfica chegou a Trithemius por revelação noturna e parecia cumprir a promessa sobrenatural recebida aos quinze anos de conhecer tudo o que existe no mundo, não como acumulação livresca, mas no sentido direto de saber, a cada instante, o que ocorre em qualquer lugar e talvez no futuro.-
A revelação noturna da arte conectava a origem da Steganography à visão da infância.
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O conhecimento em tempo real de eventos distantes era o núcleo do projeto.
Em 1504, durante uma visita de duas semanas, o picardo Charles Bouelles folheou o manuscrito incompleto da Steganography por duas horas e formou opinião muito desfavorável, comunicada ao bispo Germain de Ganay de Cahors numa carta datada de 1509 segundo Klaus Arnold ou 1506 segundo Peuckert, descrevendo a obra como uma mistura horrível de conjurações demoníacas.-
Quando as acusações se tornaram públicas, Trithemius teve de se defender num escrito hoje perdido.
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Trithemius decidiu não publicar a Steganography e, segundo alguns relatos, queimou o manuscrito em Heidelberg.
Para compreender os dois primeiros livros da Steganography que Bouelles percorreu, é preciso considerar que o tempo e a perspicácia necessários à leitura eram incompatíveis com uma consulta de duas horas, pois a primeira parte da obra é um ludibrium, uma farsa destinada a enganar o leitor e impedir que as chaves da criptografia se tornassem de domínio público.-
Johannes Wier, discípulo de Agrippa, leu o manuscrito na casa deste e corroborou as acusações de Bouelles sem compreender o mecanismo do texto, dedicando um capítulo mordaz a Trithemius em seu De Praestigiis Daemonum.
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O jesuíta Del Rio acolheu essa versão, e sua influência foi suficiente para incluir a Steganography no Index librorum prohibitorum a partir de 1609.
Após a primeira edição de 1606, foram escritas defesas da Steganography por Adam Tanner, pelo abade Sigismond Dullinger de Seeon, por Gustav Selenus, Juan Caramuel y Lobkowitz, Jean d'Espiöres, Athanasius Kircher, Wolfgang Ernest Heidel e Gaspar Schott, sendo as de Caramuel e Heidel as mais importantes.-
Caramuel foi o primeiro intérprete relevante da criptografia de Trithemius, reconhecendo que as incantações demoníacas eram apenas textos codificados e que os nomes dos demônios representavam chaves de mensagens.
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Heidel contradisse e superou Caramuel ao aplicar o mesmo método aos dois primeiros livros, reconhecendo ademais que o terceiro livro continha métodos de natureza inteiramente diversa.
O primeiro livro da Steganography, concluído em 27 de março de 1500, oferece ao leitor formas de codificar uma mensagem aparentemente incoerente, de modo que a partir do nome demoníaco que a encabeça o receptor possa discernir o código, selecionando as letras significativas segundo uma regra determinada, como a extração das letras pares das palavras pares.-
Um exemplo de incantação demoníaca é fornecido, com a instrução de ler apenas as letras em posição par dentro das palavras em posição par.
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O resultado da extração é a mensagem em latim: SUM TALI CAUTELA UT PRIME LITERE CUIUSLIBET DICTIONIS SECRETAM INTENCIONEM TUAM REDDANT LEGENTI.
O segundo livro, concluído um mês depois, contém vinte e quatro séries de permutações alfabéticas organizadas segundo os espíritos que governam as vinte e quatro horas do dia e da noite, mas os espíritos nada têm a ver com o processo, que consiste em colocar duas séries alfabéticas lado a lado com a primeira em posição fixa, gerando substituições sistemáticas de cada letra.-
O mecanismo permite que B = A, C = B e assim por diante, até que A = Z.
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As vinte e quatro permutações eram apenas um subconjunto das combinações possíveis.
Em 21 de março de 1508, Trithemius concluiu a Polygraphy, dedicada ao imperador Maximiliano em junho do mesmo ano, obra de criptografia e taquigrafia com 384 séries alfabéticas em que uma palavra latina substitui cada letra, resultando num texto codificado com a aparência inofensiva de uma longa oração em latim.-
A Polygraphy foi traduzida ao francês por Gabriel de Collange em 1561.
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Trithemius desconhecia que Leon Battista Alberti havia redigido um tratado sobre criptografia para a cúria romana em 1472.
A ideia de permutações circulares das letras do alfabeto deriva de exercícios da cabbala cristã que remontam a Ramon Llull, cuja Ars inveniendi ou Ars combinatoria utilizava figuras de círculos sobrepostos e móveis para obter todas as substituições alfabéticas desejadas, figuras que aparecem ainda nos comentários de Giordano Bruno.-
A criptografia de Trithemius aproveitava apenas o aspecto profano desse método de combinações cabalísticas.
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O método constituía uma espécie de temurah cristã.
Embora Trithemius não mereça o título de pai da criptografia, deve ser considerado o pai da criptografia moderna como autor do primeiro trabalho de importância maior nesse campo.-
Os dois primeiros livros da Steganography não contêm nenhuma conjuração demoníaca, e os nomes dos espíritos são, como Heidel observou com precisão, fictícios e arbitrários.
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A farsa teve pleno sucesso: com exceção de Caramuel e Heidel, estudiosos antigos e modernos continuaram a tratar a Steganography como obra de cabbala prática e ocultismo.
A parte mais interessante da Steganography é o fragmento do terceiro livro, não sujeito à interpretação de Caramuel e Heidel e fonte de desconforto para os apologistas, incluindo Klaus Arnold, que atribuiu sua incompletude a um fracasso do autor em dominar o método de envio de mensagens sem símbolos gráficos ou mensageiro, ou a uma autenticidade duvidosa.-
D. P. Walker, especialista em magia, jamais formulou a hipótese de inautenticidade que Arnold lhe atribuiu.
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Agrippa, que conheceu Trithemius pessoalmente, afirmou que o método era praticado e funcionava.
No De septem secundeis ou Chronologia mystica, escrito em 1508, Trithemius revela ao imperador Maximiliano que Deus governa o cosmos por meio de sete inteligências secundárias, os espíritos planetários Orifiel, Anael, Zachariel, Rafael, Samael, Gabriel e Miguel, e o terceiro livro da Steganography parte desse mesmo ponto, atribuindo aos espíritos uma identidade mais precisa, invocável por meio de sua fisionomia traçada e de fórmulas específicas.-
O método lembrava a arte dos símbolos e apresentava analogias marcantes com a mnemotécnica.
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O mago tornava-se pintor no sentido mais concreto: devia modelar em cera ou desenhar no papel a forma do anjo planetário com seus atributos.
Para enviar uma mensagem a distância pelo intermediário do anjo de Saturno, Orifiel, o operador devia criar uma imagem em cera ou num papel em branco representando Orifiel como um homem nu e barbudo sobre um touro multicolorido, com um livro na mão direita e uma pena na esquerda, depois pronunciar fórmulas dedicando a imagem à transmissão fiel do pensamento ao destinatário, escrever nomes específicos na testa e no peito das imagens do remetente e do destinatário, unir as duas imagens e ordenar a Orifiel que transmitisse a mensagem dentro de vinte e quatro horas.-
As imagens unidas deviam ser embrulhadas em material limpo lavado em água branca e colocadas na entrada de uma casa fechada, em recipientes chamados pelos sábios indianos de pharnat alronda.
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As imagens podiam ser reutilizadas para comunicações com outras pessoas, alterando apenas o nome do destinatário.
Por esse método os presentes sobrenaturais revelaram a Trithemius, em sonho, o que devia ser o desejo mais próximo de seu coração, expresso por ele mesmo em letras maiúsculas quase na última página do que resta da Steganography: ET OMNIA, QUAE FIUNT IN MUNDO, CONSTELLATIONE OBSERVATA PER HANC ARTEM SCIRE POTERIS.-
Nas últimas passagens do fragmento do terceiro livro, Trithemius afirma ser possível aprender tudo sobre qualquer coisa por procedimentos semelhantes.
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A interrupção da obra permanece como questão central da interpretação.
A hipótese mais plausível para a não conclusão do terceiro livro ou sua queima em Heidelberg é fornecida indiretamente por Paul Grillandi: segundo este, todos os procedimentos mágicos que invocam demônios ad modum imperii são apenas sacrilégios, não heresias, mas a predição do futuro é sempre herética.-
Trithemius, como especialista em ocultismo, devia conhecer essa distinção corrente em sua época.
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Para não cometer o pecado de heresia destruiu a parte final do autógrafo da Steganography, que devia tratar de adivinhação, mas preservou a parte sacrilega que considerava um dos métodos mais úteis de comunicação a distância.
Agrippa elogiou o método de Trithemius, afirmando que ele próprio sabia executá-lo e o havia feito com frequência, descrevendo-o como natural, sem superstição e sem a intervenção de qualquer espírito, capaz de transmitir o pensamento de um homem a outro, a qualquer distância, em menos de vinte e quatro horas.-
A afirmação dogmática de Agrippa sobre a eficácia do método convida a dúvidas quando confrontada com o comportamento do próprio Agrippa.
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As mensagens desesperadas enviadas por Agrippa a correspondentes lentos em responder levantam a questão de por que ele não empregava o método infalível de Trithemius.
As observações de Agrippa têm valor por confirmar a autenticidade do método de Trithemius, mas quanto à sua eficácia, a carta de Agrippa de 19 de novembro de 1527 ao frei Aurelio d'Aquapendente, em que ele se descreve como simples mortal sem os dons sublimes dos deuses imortais, apresentando-se apenas como sentinela que aponta o caminho a outros, sugere ao leitor moderno um ceticismo justificado.-
Agrippa descrevia-se como cavaleiro consagrado no sangue da batalha, cortesão por quase uma vida e escravo das vicissitudes domésticas.
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A humildade expressa na carta contrasta com as afirmações anteriores sobre a prática bem-sucedida do método.
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