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Pietro Negri – Conhecimento do Símbolo

UR & KRUR

  • Segundo Dante (Convívio, II, 1), os textos podem ser compreendidos segundo quatro sentidos: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico, sendo este último o sentido mais interior, que aponta para as coisas da glória eterna, claramente distinto dos outros por sua importância espiritual superior.
    • Dante chama esse sentido anagógico de “super-sentido”.
    • A interpretação anagógica da Divina Comédia ainda carece, na opinião de Pietro Negri, de ser empreendida.
  • O termo grego an-agogia significa “conduzir” ou “elevar para o alto” e, como termo técnico náutico, designa o ato de levantar âncora e zarpar, indicando metaforicamente, no contexto espiritual, a elevação e o afastamento da terra firme à qual os seres humanos estão tenazmente ancorados.
    • Na simbologia dos “navegadores”, o anagógico designa deixar a “terra” para içar as velas e encontrar uma corrente forte rumo ao mar aberto.
  • A distinção dos quatro sentidos de Dante aplica-se a escritos sagrados e iniciáticos e a qualquer meio de expressão de fatos e doutrinas espirituais, sendo o “super-sentido” sempre o sentido anagógico em todo tipo de simbolismo.
    • A plena compreensão dos símbolos consiste na percepção do sentido anagógico neles oculto.
    • Compreendidos e empregados anagogicamente, os símbolos podem contribuir para a elevação espiritual, sendo dotados de virtude anagógica.
  • Nem todos os símbolos possuem virtude anagógica: por extensão, às vezes se dá o nome de “símbolos” a meros caracteres e emblemas de valor quase exclusivamente representativo, como os símbolos da matemática e da química, aos quais se pode atribuir o mesmo sentido com representações completamente diferentes.
    • O termo “símbolo”, em seu sentido mais próprio, possui significado muito preciso e complexo, revelável pela análise etimológica.
  • O grego sym-bolé designa o ato de unir e juntar, e sym-bolon indica acordo e o sinal ou marca, ambos derivados do verbo ballo (“lançar”), de modo que o símbolo se opõe ao “diabo” (dia-bolos, “adversário”), que separa e divide.
    • A virtude dinâmica do símbolo opõe-se a toda análise (ana-lysis: dissolução, morte) e age como instrumento de síntese.
    • O símbolo no conhecimento iniciático corresponde ao papel que os conceitos e silogismos desempenham no conhecimento discursivo.
    • A lógica chega à consideração e à medida de modo discursivo; a ciência mágica opera com a bolé, a irradiação e a fulguração.
  • O símbolo é diferente e superior ao emblema, à insígnia, à parábola, à metáfora e à alegoria em virtude do caráter mesmo de sua composição.
    • Na alegoria diz-se algo diferente do que se quer realmente dizer, sendo o sentido literal uma “bela mentira” e o verdadeiro sentido outro, possivelmente contrário ao literal.
    • No símbolo não há contraste ou diferença verdadeira entre o que aparece e o que se quer dizer: há relação de harmonia, analogia e correspondência, e a compreensão consiste em remontar do sentido evidente aos sentidos ocultos, realizando o sentido inicial em vez de superá-lo.
    • A parábola (para-ballò: “pôr coisas lado a lado”) é mera comparação ou similitude, útil para as massas profanas, como demonstra seu uso por Menênio Agripa e por Jesus.
    • Metáfora e tropos são termos próprios da retórica verbal e não chegam a ser símbolos no sentido pleno.
  • Os símbolos se apresentam em grande variedade de espécies, podendo qualquer coisa constituir a base de um símbolo, com critérios próprios para sua escolha e emprego.
    • O simbolismo numérico, empregado especialmente pelos pitagóricos, depois pelos cabalistas e maçons, usa números inteiros como símbolos e suas potências, resíduos e raízes como virtudes anagógicas.
    • O simbolismo das letras do alfabeto conecta-se ao numérico, que está na base da tradição cabalística.
    • O simbolismo geométrico dos platônicos e neoplatônicos liga-se ao numérico e estende-se às artes sagradas que envolvem proporções, ritmo e harmonia: arquitetura, canto, música, dança, poesia e pintura.
    • Da heráldica e da emblemática aos fenômenos físicos (simbolismo polar, solar, meteorológico e hermético), dos fenômenos biológicos (fermentação, putrefação, germinação, metamorfose, ressurreição, alimentos e bebidas espirituais) às formas de atividade humana (simbolismo régio, da guerra santa, da navegação, da construção de templos e cidades, da custódia de objetos sagrados), eventos históricos e lendários também podem tornar-se base de simbolismo.
    • Os mitos (mythos: “o que é dito”; tradição) não são símbolos, mas podem ter caráter simbólico e tornar-se base de certo simbolismo, como a mitologia pagã forneceu símbolos aos hermetistas Michael Maier e Pernety.
  • A expressão verbal, mesmo em suas formas figuradas, não pode rivalizar com a natureza vital e sintética dos símbolos, pois as palavras variam no tempo e no espaço, ficando sujeitas a desgaste e alterações de forma e significado, enquanto os símbolos alcançam estabilidade e universalidade que as palavras não conseguem atingir.
    • Palavra e símbolo compartilham, porém, o traço fundamental da natureza metafórica que liga seu valor concreto ao sentido abstrato.
    • Ambos pressupõem o reconhecimento de uma unidade, correspondência e analogia universais, admitindo implicitamente a “similitude” humana: os seres, especialmente os humanos, são semelhantes entre si interna e externamente, e os sentidos e órgãos internos de pessoas diferentes se assemelham e equivalem, assim como os sentidos e órgãos físicos.
    • Por isso, a experiência interior transcende a individualidade e pode ser expressa em palavras e símbolos compreensíveis por aqueles que tenham experiência análoga, podendo ainda contribuir para induzi-la nos que ainda não a tiveram.
  • A analogia universal está na base do simbolismo e da linguagem metafórica, e a Tábua de Esmeralda, atribuída pela tradição hermética a Hermes Trismegisto, inicia-se com a afirmação solene dessa conexão: o que está abaixo é como o que está acima, e o que está acima é como o que está abaixo, para a realização do milagre de uma só coisa.
    • Há analogia entre o físico e o metafísico, entre exterioridade e interioridade, entre o homem e o cosmos: o homem é potencialmente Deus, e o microcosmo é potencialmente macrocosmo.
    • A relação analógica que conecta uma coisa a outra faz de cada coisa o símbolo natural das coisas que lhe correspondem, daí o conceito e o uso mágico das “signaturae rerum” (assinaturas das coisas).
    • A similaridade entre o símbolo e o que representa pode ser direta (como entre uma nota e suas oitavas) ou inversa (como entre um objeto e sua imagem refletida), e o fenômeno meteorológico do arco-íris, gerado pela dispersão do raio solar nas águas, tem o valor de símbolo natural do próprio processo de analogia universal.
  • O caráter analógico intrínseco ao símbolo lhe confere ambiguidade e indeterminação de significado, tornando-o rico e fértil em comparação com a precisão da palavra, mas também menos simples e fácil em sua penetração e uso.
    • No caso dos símbolos, o processo de compreensão de um significado abre caminho para a conquista de outros em domínios colaterais e superiores, sem o obstáculo constante do mistério das raízes últimas da linguagem presente em toda análise etimológica.
  • Pela meditação constante, o símbolo se imprime na mente e, com sua presença permanente, inspira-a e sugere as relações analógicas que mantém com o objeto do pensamento, fornecendo-lhe elementos de trabalho e fecundando-a com um poder criativo.
    • Dessa forma, os símbolos constituem modos de movimento e ação, fatores de endogênese, que impulsionam, guiam e conduzem a condições de consciência ainda não experimentadas, e assim a um conhecimento efetivo, direto e significativo.
    • Do sentido oculto encontrado nos signos é possível ascender à posse consciente, constituindo assim um ensinamento também prático.
  • A ação fecundante e mágica do símbolo sobre a mente corresponde perfeitamente à ação similar dos símbolos na política e na religião, como demonstram as ondas de entusiasmo e determinação heroica que um hino, uma bandeira ou um símbolo nacional pode induzir nos indivíduos ou nas massas.
    • Há, porém, uma diferença essencial: na política e na religião o símbolo apela ao sentimento, enquanto no esoterismo o símbolo nunca apela ao sentimento, mas às faculdades superiores de compreensão e criatividade da mente e do espírito.
    • O sentimento, as crenças, as teorias e qualquer ideia de adaptação às massas são elementos meramente humanos, e é erro apoiar-se neles ao tentar ascender do humano ao divino.
    • A Magia e todas as tradições iniciáticas substituem coerentemente o dogmatismo religioso e filosófico, ou o verbalismo representativo de algumas ciências, pelo ensinamento simbólico, que com a ajuda dos símbolos torna as experiências e condições interiores compreensíveis, possibilitando a percepção e a compreensão direta da transcendência.
  • O uso mágico dos símbolos é típico do Hermetismo e dos rituais de algumas organizações por ele parcialmente influenciadas, enxertando-se na prática ritual que conduz ao cumprimento da Obra.
    • A tradição hermética afirma que apenas um vaso é suficiente para completar a Obra, devendo ser hermeticamente selado para que se possa operar dentro dele após isolá-lo do exterior.
    • Segundo o dito hermético de Basílio Valentino, “Visita interiora terrae, rectificando invenies occultam lapidem” (Visita o interior da terra; pela retificação encontrarás a pedra oculta): o vaso, o graal ou cálice do Santo Graal, é de “terra”, que em simbolismo arcaico encontrado em muitas línguas designa o corpo humano.
    • O Cardeal Nicolau de Cusa (1401-1464) emprega o simbolismo edificador da transformação da pedra que corresponde precisamente ao simbolismo maçônico posterior, no qual os trabalhadores polimentam, esquadrejam e formam a pedra cúbica ou pedra perfeita na “câmara interior”.
    • O interior da terra, o “coração” do organismo, é o coração, santuário ou cripta do templo, representado como subterrâneo nas criptas dos templos antigos; um alquimista francês anônimo explicou o nome do Saint Graal com a etimologia, incorreta mas significativa, de sang real (“sangue real”), e a ligação entre o vaso e o coração remonta ao antigo Egito, onde o ideograma do coração é uma vasilha com duas alças em forma de orelha.
  • O símbolo da descida ao interior da terra é tão difundido que passa despercebido, pois a consciência não é um objeto encontrado dentro do corpo e não existe cima nem baixo, mas a sensação de afundamento da consciência em seus mais íntimos recessos só pode ser expressa em linguagem humana por analogia com sensações materiais da vida ordinária.
    • O Hades grego e o neter khert egípcio (o mundo subterrâneo, morada dos mortos, chamado “Amenti” de Amen, “invisível, oculto”) associam-se ao simbolismo da “descida ao inferno”.
    • Essa descida deve ser feita sem perder a autoconsciência e sem beber das águas do Lete; ao contrário, deve-se beber da fonte de Mnemósine, doadora de imortalidade no Orfismo, ou das águas do rio Eunoè de Dante.
    • Mnemósine, a memória, oposta ao Lete, é Mãe das Musas; correspondentemente, a verdade em grego é a-letheia, e o aprendizado, platonicamente, é anamnese, ou rememoração.
  • O simbolismo da pedra oculta que se encontra retificando o interior deriva provavelmente de uma sensação interior, pois em um texto italiano do século XVI, talvez de Campanella, afirma-se que em certa etapa da prática o praticante torna-se “imóvel como uma planta ou uma pedra”.
    • Segundo o rosacruz Michael Maier, a Pedra dos Filósofos é a pedra que Cibele forçou Saturno a engolir para salvar Júpiter da voracidade do pai, permitindo que Júpiter escapasse do tempo e se tornasse rei do Olimpo.
    • René Guénon (Le roi du monde) identifica a palavra “betil” com “Beth-el” (casa de Deus), a pedra que Jacó usou como travesseiro ao ter sua famosa visão, e o nome original da cidade próxima ao local do sonho era Luz, que em hebraico designa um osso indestrutível ao qual a alma permanece ligada após a morte até o dia da ressurreição e também o nome da amendoeira, junto à qual havia um buraco por onde se acessava uma passagem subterrânea que conduzia à cidade completamente oculta de Luz.
    • Todo o simbolismo do “edifício espiritual” dos Evangelhos e típico da Maçonaria, assim como o da “Pedra dos Filósofos”, é desenvolvimento desse símbolo fundamental que não pode ser compreendido nem ensinado até que a “pedra oculta” seja encontrada.
  • A pedra oculta é necessariamente negra, e essa característica não é apenas consequência lógica do desenvolvimento do simbolismo, mas tem referência específica à sensação do negro hermético, mais negro do que o negro: a pedra encontrada é a matéria empregada na obra, não a matéria de sua perfeição, e a sensação de “petrificação” acompanha a de negridão absoluta.
    • Observações adicionais poderiam ser feitas sobre a importância das pedras negras na antiga Roma, na tradição muçulmana e na tradição de Agartha, mencionada por Saint-Yves d'Alveydre em Mission de l'Inde, por Ossendowski em Bestas, Homens e Deuses e por Guénon em Roi du monde.
  • Uma vez atingida essa condição, a compreensão do símbolo torna-se efetiva e ilumina o sentido do simbolismo subsequente, sugerindo o que deve ser feito e conduzindo a uma fase ulterior da obra.
    • Com o avanço, a voz interior (a “voz do coração”) e o ouvido interior (as “orelhas do coração”) são ativados, e é por meio deles que a transmissão do simbolismo ocorre hermética e literalmente.
    • Essa voz interior não é a “voz da consciência”, o “imperativo categórico” ou vozes mediúnicas: são sentidos interiores aos quais as pessoas normalmente não prestam atenção por estarem ensurdecidas pelos ruídos externos.
    • A voz e a audição internas podem operar tanto no estado de vigília quanto no sono e nos diversos estágios de consciência atingidos durante a prática do rito; simultaneamente à sua ação, fenômenos reais e tangíveis ocorrem por vezes, de caráter simbólico manifesto e incomparável beleza e nobreza.
    • O caráter simbólico estende-se a essas manifestações, tornando-se uma espécie de linguagem universal ou iniciática que encontra correspondência e expressão na linguagem iniciática (por sinais, gestos ou “palavras universais”) empregada por algumas organizações mais ou menos conectadas à tradição iniciática.
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