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1 Império

YATES, Frances A. Astraea: The Imperial Theme in the Sixteenth Century. London: Routledge & Kegan Paul, 1975.

Carlos V e a Ideia do Império

  • A reavivação do Sacro Império Romano no século XVI, sob Carlos V, assume caráter de fantasma (phantom): sua importância reside menos na realidade política do que na propagação do simbolismo imperial pela Europa.
  • A proposta do ensaio é analisar a ideia de império e a esperança imperial (espérance impériale), e não a história política direta, destacando como o império de Carlos V transferiu o fantasma imperial para as monarquias nacionais emergentes, sobretudo Inglaterra e França.

A Ideia Imperial na Idade Média

  • A deposição de Rômulo Augústulo em 475 e a coroação de Carlos Magno em 800 marcam a primeira renovatio do Império no Ocidente, fundamentada na teoria da translatio imperii e na continuidade do poder romano universal.
  • A concepção agostiniana das duas cidades (civitas Dei e civitas terrena) é reinterpretada: o Império restaurado torna-se cristianizado, com o imperador como defensor da Igreja e responsável por conduzir a mensagem cristã pelo mundo.
  • A relação simétrica entre Papa e Imperador estrutura a Idade Média: o Papa como cabeça da Igreja e o Imperador como cabeça do mundo, ainda que subordinado espiritualmente, com direitos religiosos que alimentam controvérsias posteriores.
  • A santificação da ideia imperial é reforçada pela tradição do papel providencial de Roma como preparação histórica para o nascimento de Cristo, elaborada após a cristianização do Império sob Constantino.
  • O ideal do imperador assume feição setentrional e feudal nos ciclos épicos carolíngios, em que a paz e a justiça imperiais dependem das virtudes guerreiras dos cavaleiros, gerando uma aura romântica que influencia a recepção italiana dos exércitos franceses no final do século XV.
  • A teoria jurídica do Dominus mundi, derivada do direito romano revitalizado em Bolonha, fornece base legal ao poder imperial sobre todos os reis, reinterpretando o princípio feudal de suserania em termos romanistas.
  • Frederico II, por sua trajetória e domínio do direito romano, torna-se expoente máximo do imperialismo medieval; suas constituições sicilianas e a concepção do imperador como fonte única da justiça divina inspiram um Estado absolutista de corte hierático e legalista.
  • A justificação filosófica do Estado imperial baseia-se em Necessitas, Justitia e Providentia, combinando direito romano, filosofia antiga de fontes árabes e imitação da teoria eclesiástica de governo.
  • O gibelismo combina o padrão setentrional, feudal e cavaleiresco com o padrão meridional, clássico e legalista, projetando a renovação do Império sob um único governante universal que reflete o governo divino do universo.
  • O conflito entre Frederico II e o Papado, com manifestos e excomunhões, introduz a noção de reforma imperial da Igreja, posteriormente retomada por monarcas nacionais protestantes.
  • A mística adamítica no círculo de Frederico II atribui ao imperador um papel redentor temporal, conduzindo a humanidade de volta ao Paraíso Terrestre e à idade de ouro, em uma forma de secularismo místico.
  • Com a morte de Frederico II, o projeto de restauração do Império Romano fracassa politicamente, mas sua memória e retórica imperialista persistem nas facções guelfa e gibelina e nos senhores italianos.
  • Dante, na Monarchia, sistematiza a teoria imperialista medieval: o monopólio mundial pertence de direito ao povo romano e ao imperador, com base na justiça, na razão e na providência divina, e a autoridade do monarca deriva imediatamente de Deus.
  • A confutação de Guido Vernani, em 1327, rejeita a Monarchia com base em Agostinho, negando a dupla beatitude e a ideia de que a justiça imperial possa reconduzir o homem ao Paraíso Terrestre.

Humanismo Renascentista e a Ideia Imperial

  • No Renascimento, o universalismo entra em declínio e o patriotismo nacional emerge, com Petrarca deslocando o entusiasmo do Dominus mundi para uma Itália unida, embora sua perspectiva permaneça dentro do quadro universalista.
  • A nova consciência histórica humanista rompe com a noção medieval de continuidade ininterrupta do Império Romano, concebendo uma idade das trevas entre a Antiguidade e o presente, a ser dissipada pelo renascimento das letras clássicas.
  • Petrarca não contesta abertamente a translatio imperii, mas sua visão do Império medieval como instituição semibárbara e sua exigência de re-romanização alimentam a esperança de uma renovatio política que restaure o império em Roma.
  • O fracasso de Rienzo e de Carlos IV leva Petrarca a transferir para o plano das letras o sonho imperial não realizado, como se observa no entusiasmo humanista pela recuperação de manuscritos clássicos e pela restauração da latinidade pura como língua universal.
  • Na Alemanha, a crônica de Naucleus (1516) interpreta a coroação de Carlos Magno como prova da superioridade divinamente ordenada do povo alemão, transferindo para os germanos o argumento providencial antes aplicado aos romanos.
  • No século XV, novas correntes florentinas de pensamento histórico e político rompem com o fantasma do Império, tratando-o como instituição obsoleta e causa de intervenção estrangeira na Itália.
  • Maquiavel, embora rejeite o Império como obsoleto, retém a concepção cíclica de ascensão e declínio dos Estados e a ideia de renovação por retorno à virtù original, implicando que a história italiana é a história romana com suas implicações universais.
  • Erasmo, no Norte, substitui o Império pela concertação dos príncipes cristãos como instrumento de paz universal, mas reconhece que o nome do império conserva associações religiosas veneráveis e que a monarquia universal subsiste como sombra do sonho cristão.
  • A carta de Erasmo de 1517, escrita três anos antes da eleição de Carlos V, testemunha o estado de espírito esclarecido do Norte: o Império é sombra e fantasma diante dos Estados modernos, mas ainda carrega prestígio augusto e religioso.

Carlos V e a Ideia do Império

  • Carlos V herda, por via paterna, os domínios dos duques de Borgonha (Países Baixos e Áustria) e, por via materna, Espanha e Sicília, acumulando territórios que evocam o império carolíngio e incluem as recém-descobertas terras além do Atlântico.
  • A eleição imperial de 1519, após a morte de Maximiliano, desperta temores e esperanças de que Carlos V possa reviver a reivindicação universal do Sacro Império e tornar-se Senhor do Mundo em sentido mais amplo que o romano.
  • A vitória de Pavia (1525) sobre Francisco I e a captura do rei francês reforçam o destino portentoso de Carlos, deixando a Itália a seus pés e reavivando o temor papal de uma aliança entre o reino siciliano e o Norte.
  • O saque de Roma em 1527 pelas tropas imperiais e a prisão de Clemente VII parecem recompor o padrão medieval de Império e Papado, com o Império finalmente prevalecendo, e recolocam a ideia de império universal no centro da cena.
  • O império que a carreira de Carlos parece renovar não é o império romanizado e re-italianizado dos humanistas, mas a ideia medieval de império baseada no detentor setentrional do título.
  • Gattinara, conselheiro de Carlos V, e o bispo Antonio Guevara retomam argumentos dantescos e gibelinos em favor da monarquia universal, combinando-os com influências estoicas e com o ideal do imperador filósofo à maneira de Marco Aurélio.
  • O retrato de Carlos V por Ticiano, que evoca a estátua antiga de Marco Aurélio, apresenta-o simultaneamente como imperador estoico romanizado e como soberano setentrional cristão e cavaleiresco, membro da Ordem do Tosão de Ouro.
  • O culto da Ordem do Tosão de Ouro restaura o caráter internacional das ordens de cavalaria e situa Carlos como Cavaleiro-Imperador da Cristandade, encarregado de manter e difundir as virtudes imperiais cristianizadas.
  • Ariosto, no Orlando furioso, confirma a translatio imperii ao chamar Carlos Magno de “re Carlo imperator romano” e profetiza o império universal de Carlos V, que traria de volta Astreia e a justiça à terra.
  • A profecia de Astolfo associa o novo imperador às casas de Áustria e Aragão e às descobertas de novos mundos, vistas como portentos de uma monarquia universal mais ampla que a romana.
  • O emblema das duas colunas com o mote Plus Oultre expressa que o império de Carlos se estende além dos limites romanos e sugere que a descoberta dos novos mundos foi providencialmente sincronizada com o advento do Dominus mundi.
  • A propaganda imperial difunde pela Europa o fantasma do império medieval em forma modernizada, reavivando a esperança de reforma imperial da Igreja e de reunião da Cristandade sob um único pastor.
  • A posição de Carlos como imperador mais poderoso desde Frederico II reaviva a situação Papa-Imperador, mas em forma modificada pela ortodoxia católica de Carlos e modernizada pelo Renascimento e pela Reforma.
  • A combinação de circunstâncias providenciais — título sagrado, territórios que evocam o Império Romano, descoberta de novos mundos e virtudes imperiais — sugere a possibilidade de uma monarquia universal que reduza a um só rebanho e um só pastor.
  • Gattinara, em discurso a Carlos após a eleição, afirma que Deus o elevou a uma monarquia mundial e à união de toda a Cristandade sob um único pastor, ecoando o papel cristomimético do imperador.
  • O conjunto de circunstâncias providenciais dissolve-se com o tempo, mas o fantasma do Império, na simbologia e propaganda de Carlos V, permanece como legado duradouro.
  • Sem os dois pilares do Papa e do Imperador, a crescente confusão só poderia ser contida se os monarcas nacionais assumissem algo do papel imperial em seu aspecto universal e religioso.
  • O estudo da ideia imperial na Idade Média e no Renascimento é preliminar necessário para compreender o ethos e o simbolismo das monarquias nacionais europeias, especialmente a monarquia Tudor e Elizabeth I, cuja chave simbólica é a ideia imperial e a reforma imperial.
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