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Tempo

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

A emoção do Tempo, que corre continuamente e vai fundir-se na eternidade, é o que empresta unidade às histórias díspares de As mil e uma noites

  • O broche da aurora une as histórias ao mesmo tempo que parece separá-las, com um efeito patético imponderável
  • O recurso literário de adiantar-se à moderna divisão em capítulos, deixando a continuação da história flutuando no ar na incerteza da noite seguinte, é de uma grande força emotiva
  • A cada noite, lembra-se a própria mortalidade, pois não se sabe se Xerazade alcançará a noite seguinte
  • É de capital importância marcar nas versões essas pausas e numerar essas noites, como critica Burton aos tradutores que as suprimem
  • Deve-se repetir sempre o estribilho “mas viu Xerazade chegar a aurora e cortou o fio de suas palavras encantadoras”, pois há ali todo um drama de angústia no coração de Xerazade

É patético o momento em que o diamante da alvorada corta a urdidura da narração e pode cortar o seu pescoço

  • A angústia de Xerazade se adivinha na premura com que sua irmã Dunyazade acode a confortá-la com seu aplauso e suas palavras
  • As tímidas palavras que Xerazade insinua revelam sua inquietude, tentando anudar uma história com outra para prolongar sua vida
  • A vida pendente de uma história faz com que a literatura se torne séria de repente
  • Essa angústia periodicamente renovada põe em jogo todo o drama do tempo e dá à hora efêmera perspectiva de eternidade

A pausa da aurora, cortando o fio do relato, tem o ar ameaçante da foice da morte

  • Cada uma dessas pausas retrotrai ao ponto inicial do livro, fazendo sentir novamente o drama e lembrar que, como Xerazade, se é mortal e se tem um cutelo sobre o pescoço
  • Há uma ressonância tácita da constante admoestação de Maomé em seu Alcorão: “Ó os crentes! Temei a Alá e servi-o! Lembrai-vos do Dia da Conta!”
  • Como o Alcorão, As mil e uma noites são um recordatório das últimas coisas

A situação de Xerazade contando histórias sob a ameaça da morte é um símbolo ascético de enorme impressão

  • O rei Xariar, também mortal, um dia há de contar sua história ao rei dos reis, a Alá, não menos angustiado e inquieto que sua pobre vítima
  • Cada aurora há no livro uma comparência de Azrael, e as trombetas com que na Pérsia anunciam o dia têm algo da do Juízo Final
  • Xerazade diante do rei lembra Sócrates diante do Areópago, mas a cena filosófica de Sócrates não tem o fundo religioso que aquela tem

O broche que dá unidade às dispares histórias do livro é o Tempo, a que todas vão parar e de onde arrancam

  • Tudo vai encaminhado a pôr em estado de exame de consciência, sendo o livro todo uns exercícios espirituais esmaltados de exemplos e casos
  • Xerazade, com seus contos, dora ao rei a amarga pílula da verdade, obrigando-o a fixar a atenção no destino dos homens e no seu próprio
  • Ganhar tempo, somar noites, é o objeto destas histórias, mas cada noite aproxima da Eternidade

O Tempo atua como um personagem imponente em As mil e uma noites

  • O Tempo é o Sino, identificado pelos orientais, pois Kalas em sânscrito e Dahr em árabe têm o mesmo sentido que Ananke e Fatum
  • Cronos é o deus tremendo e inexorável que devora os homens e os deuses
  • O Tempo atua como o próprio Sino, do qual se desdobraram os tempos e as vicissitudes que engendram as histórias

Toda a transcendência metafísica do Tempo é contemplada graças à introdução do número

  • Há os tempos das histórias, em que o Tempo se fraciona, e há o tempo da narradora e do ouvinte
  • Ao longo dos três anos de noites e dias, a tragédia inicial se converte em sainete, o rei depõe o cenho e a terra se cobre de fecundas rugas
  • O Tempo converte esta história que começa com ar tão lúgubre de Apocalipse em uma hagadá talmúdica, como o Livro de Ester lido na festa de Purim

A intervenção do Tempo, partido em noites, presta transcendência e unidade a estas histórias

  • Esse recurso basta para diferenciar a obra de seus presuntos modelos, como o Hazar Afsanah, que são Os mil contos, mas não As mil noites
  • No título As mil e uma noites, as histórias aparecem como hijuelas do tempo, pois é o Tempo que cria as histórias
  • A dança de histórias, como a das horas mesmas, está regida e cronometrada pelo repique de tambor do Tempo
  • A noite é o leitmotiv que orienta nesta sinfonia e o fio de Ariadna que guia neste labirinto

As mil e uma noites reduzem-se assim a uma só noite, cheia de encanto e inquietude, como se fosse a única e última noite

  • Essa sensação do Tempo só poderia ser introduzida no livro pelo gênio de um judeu ou um árabe, para quem a hora e o minuto têm o imenso valor da Eternidade
  • Há nisso um sentido místico que presta também uma unidade moral às histórias do livro
  • O livro é resumo, um manual de exame de consciência, um livro ascético, embora às vezes pareça alegre e licencioso, um Kempis com perfis de Decamerão

As histórias frívolas são o pregão, o reclamo para atrair as almas, que assim se encontram de repente no coração do drama do homem

  • O livro, tão louco às vezes, é no fundo de uma seriedade tão trágica, com uma iminência mortal sempre pendente
  • Xerazade diante do rei é o próprio símbolo, fiando sua salvação à beleza da história que conte
  • Também um dia cada um há de contar sua história diante de um Rei, tremendo como ela
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