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Xariar

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

A psicologia do rei Xariar, primogênito dos dois irmãos e rei dos reis da Pérsia, só se descreve no livro a partir do trauma sofrido com a descoberta da infidelidade de sua esposa

  • Até então, o jovem rei foi um rei bom, justo, equitativo e um bravo e cumprido cavalheiro, assim como seu irmão Xá-Zamán
  • Ambos se haviam dividido o reino de seu pai e viviam em paz em suas respectivas cortes, amando-se como bons irmãos e bons príncipes
  • A tragédia surge e muda o caráter dos dois jovens, cândidos e inexperientes, criados no falso ambiente das cortes
  • A tremenda impressão que neles faz o descobrimento da verdadeira realidade da vida indica até que ponto eram inocentes e infantis suas almas

Eles concebem uma misantropia, um desgosto de viver e um ódio às mulheres que os lança a crimes extremos

  • Todo seu mundo moral se derrubou; perderam a fé em tudo e se sentem enganados, zombados por seus educadores
  • No naufrágio de seus bons sentimentos originais, só se salva o amor que ambos têm um pelo outro, e a desgraça os une e os irmana mais
  • Antes de proceder à vingança, abandonam o palácio e se jogam pelos caminhos do mundo para comprovar se sua desgraça é única ou se é coisa que está no plano da vida
  • No primeiro caso se matariam; no segundo, seguiriam vivendo, pois seu desonor não teria que envergonhá-los tanto

No curso de suas andanças sem rumo, encontram uma jovem raptada por um efrito que os obriga a folgar com ela

  • A jovem lhes conta sua história e lhes pede seus anéis para unir aos quinhentos e setenta que marcam o número de suas infidelidades
  • Os dois reis veem que sua desdita não é única e que a imoralidade é a regra quase geral da vida
  • Sentem um amargo consolo e decidem voltar a seus reinos e vingar sua honra matando suas mulheres adúlteras e seus cúmplices
  • Para evitar novas afrontas, decidem não amar nenhuma mulher mais de uma noite e sacrificá-la ao despontar da aurora

Dessa decisão segue-se a despovoação de seus reinos, o desbaratamento dos assuntos públicos e a desorganização política

  • Os dois reis, antes modelo de perfeitos príncipes, converteram-se em dois déspotas sanguinários que inspiram horror a todo o mundo
  • Do rei Xá-Zamán só se sabe ao final do livro, onde se conta sua história a modo de epílogo
  • O livro segue pelo registro do rei Xariar, que inicia com Xerazade, a filha de seu vizir, o segundo argumento: a regeneração do príncipe por meio do amor
  • O amor se serve do ingênuo ardil de contar histórias

O fato de o rei Xariar se deixar vencer por esse recurso tão simples mostra o fundo simples, infantil e bárbaro de sua alma

  • Esse rei terrível é, no fundo, uma criança que se deixa embalar e entreter por canções de ninar
  • É também um rei galante que nunca deixou totalmente de amar as mulheres, e sua reação homicida contra elas é um indicio disso
  • Xariar não manda matar suas esposas de uma noite porque se cansa delas, mas por temor a não se cansar
  • Na série de mulheres assassinadas, vai sempre buscando um ideal, que se lhe apresenta na pessoa de Xerazade

É lícito pensar que, desde o primeiro momento, o rei Xariar se enamora de Xerazade, filha de seu vizir

  • Se assim não fosse, depois de possuí-la não lhe teria concedido sua vênia para contar a primeira história
  • Depois desse ponto, o rei Xariar deixa de interessar, pois será apenas um personagem passivo, o atento ouvinte de sua bela e sábia esposa Xerazade
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