2 Variantes
COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.
As variantes de Cinderela
1. As numerosas versões de Cinderela apresentam grande diversidade de nomes, inclusive dentro de um mesmo país, preservando em algumas tradições a referência às cinzas e adotando em outras designações relacionadas ao calçado, à aparência ou à condição principesca, enquanto certas narrativas árabes e transilvanas atribuem o papel central a um jovem.
2. A modalidade mais difundida começa com a morte da mãe e o segundo casamento do pai, seguido pela perseguição da madrasta e das irmãs, pela redução da heroína à servidão e pelo auxílio sobrenatural que lhe permite encontrar o príncipe em três ocasiões, até que um objeto de identificação assegure o reconhecimento, o casamento e a felicidade definitiva.
3. Nas variantes do tipo Rei Lear, um rei exige declarações de amor das três filhas e, ofendido pela comparação do afeto da caçula com o sal, expulsa-a ou ordena sua morte, obrigando-a a fugir e assumir um trabalho servil em outro reino, onde recebe auxílio e percorre o caminho habitual do encontro, do reconhecimento e do casamento.
O tema do incesto
1. A terceira modalidade apresenta um pai que deseja casar-se com a própria filha, seja por sua beleza, seja porque somente ela satisfaz a promessa de encontrar uma esposa tão bela quanto a falecida, provocando a fuga da jovem, sua entrada numa condição servil e o desenvolvimento da sequência tradicional, geralmente acompanhada da punição paterna.
2. Na modalidade centrada na madrasta, a indiferença ou impotência do pai diante do sofrimento da filha permite associá-lo ao destino ou ao carma, cuja realização não pode impedir, ou ao rei do xadrez, representante das forças solares da lei e da ordem cujos movimentos permanecem limitados pelas condições da existência mundana.
3. Nas variantes de Rei Lear, o pai assume o papel cruel geralmente atribuído à madrasta, enquanto o ciclo incestuoso remete a tradições religiosas e sociais nas quais o casamento entre parentes podia ser proibido ou ritualmente admitido, sobretudo quando vinculado à preservação da realeza divina, encontrando numerosos paralelos entre deuses e heróis e podendo esclarecer a força dos vínculos entre irmãos em certas narrativas.
4. As uniões incestuosas da religião e da mitologia simbolizam a identidade original e a restauração da unidade primordial, correspondendo na alquimia à regeneração e ao retorno à matéria-prima, mas sua proibição no mundo manifestado torna-se necessária para assegurar a diferenciação, a multiplicidade e a libertação de dependências que impedem o desenvolvimento.
5. Psicologicamente, o desejo incestuoso do rei exprime o apego regressivo ao passado e à segurança do conhecido, assim como a tentativa de recuperar a juventude à custa da filha e evitar o envelhecimento e a morte, configurando uma covardia espiritual distinta da aspiração ao Paraíso que impulsiona a transformação e a iluminação.
6. A interpretação junguiana aproxima a tendência incestuosa do motivo de Jonas e a baleia e das figuras devoradoras da mãe, da bruxa, do lobo ou do dragão, fazendo da libertação desse domínio uma descida iniciática ao mundo inferior e um renascimento, enquanto a ameaça paterna precipita Cinderela para fora da infância e a introduz no universo adulto da sexualidade, da aventura e do perigo.
7. As interpretações solares e lunares identificam a filha com a lua nova semelhante à mãe, a lua velha, e o pai com o sol, ou apresentam a princesa como a luz vespertina perseguida pelo sol matutino, entendendo seus mantos celestes como símbolos luminosos e a pele de asno como a obscuridade ou as névoas que lhe permitem escapar.
8. Nas variantes em que a heroína se refugia no bosque, se oculta numa pele ou permanece recolhida num quarto até ser descoberta pelo príncipe, a leitura sazonal permite identificar o velho rei com o Tempo devorador, a jovem com o Ano-Novo e o príncipe com a força solar crescente ou com o parceiro de um casamento ritual.
9. As condições impostas pela esposa falecida para um novo casamento, como a igualdade de beleza, o ajuste de roupas e adornos ou a presença de uma estrela na sobrancelha, somente podem ser satisfeitas por Cinderela, cuja marca estelar exprime presença divina, luminosidade espiritual e afinidade com a Rainha do Céu.
10. As versões medievais europeias do tema incestuoso incorporam uma influência cristã peculiar ao apresentar clérigos que toleram, favorecem ou planejam o casamento do rei com a filha, revelando uma concepção moral contraditória nesses personagens religiosos.
Fuga e disfarce
1. A fuga de Cinderela pode ser preparada por exigências de vestidos esplêndidos e objetos mágicos, por estratagemas que simulam sua permanência no banho ou pelo auxílio da mãe falecida e de outros protetores, enquanto os objetos lançados durante a perseguição criam obstáculos que retardam o pai, compondo episódios que aproximam Pele de Asno e Cinderela como partes de um mesmo ciclo narrativo.
2. A adaptação de Perrault atenua o desejo incestuoso ao atribuí-lo à confusão de um rei envelhecido que já não distingue adequadamente a filha da esposa morta, reduzindo a importância dos elementos simbólicos e restringindo a narrativa a uma dimensão moral mais limitada.
3. O disfarce mais frequente da heroína consiste numa pele animal, mas também pode ser formado por penas, juncos, musgo, palha, tiras de casca de abóbora ou madeira, recursos igualmente presentes nas variantes de Rei Lear em que a jovem foge da expulsão e da ameaça de morte.
As respostas e o simbolismo do sal
1. Na versão francesa A moça das galinhas, a princesa condenada por comparar seu amor ao sal é poupada por um advogado, trabalha num castelo e encontra o príncipe em três noites de carnaval, sendo reconhecida pelo sapato perdido; antes do casamento, um banquete sem sal revela ao pai empobrecido o verdadeiro sentido de sua resposta, permitindo a reconciliação, a recuperação do reino, a punição das irmãs e a recompensa dos auxiliares fiéis.
2. As versões suecas, italianas e holandesas variam as declarações das irmãs mais velhas, comparando o amor a Deus, à vida, aos olhos, ao ouro ou à prata, mas preservam a referência ao sal como resposta da caçula, cujo valor é reconhecido após a perseguição, o encontro amoroso e a experiência paterna de uma refeição sem esse ingrediente.
3. Em algumas variantes, um criado poupa a princesa condenada e apresenta órgãos de um animal como prova de sua morte, enquanto uma anciã, um animal ou uma ave oferece auxílio sobrenatural durante a fuga ou transforma suas roupas em vestes esplêndidas no castelo estrangeiro onde ela trabalha.
4. O príncipe descobre a beleza da jovem ao observá-la secretamente, e o banquete nupcial sem sal leva o pai a compreender sua injustiça, reconhecer a filha e reconciliar-se com ela, enquanto a justiça divina pune as irmãs e os colaboradores recebem suas recompensas.
5. A escolha do sal como expressão verdadeira do amor filial possui um fundamento simbólico universal especialmente adequado ao reconhecimento de um valor essencial que havia sido desprezado.
6. As três irmãs retomam a representação do corpo, da alma e do espírito, enquanto o sal reúne os sentidos de incorruptibilidade, imortalidade, permanência, fidelidade e amizade, participa da tríade alquímica com enxofre e mercúrio e exerce funções mágicas de proteção contra espíritos e contra o rapto de crianças pelas fadas.
Cinderela na Índia e na China
1. Nas versões indianas, possivelmente situadas entre as mais antigas, uma vaca alimenta e protege a heroína perseguida, recupera a vida mediante a reunião de seus restos e lhe oferece vestidos e sapatos dourados para encontrar o príncipe, enquanto o calçado perdido e, em certos casos, a intervenção de um galo permitem o reconhecimento, o casamento e a punição das perseguidoras.
2. Na versão chinesa, Yeh-hsien acolhe um peixe de nadadeiras vermelhas e olhos dourados que, depois de morto pela madrasta, conserva nos restos o poder de realizar desejos e lhe proporciona um vestido de penas de martim-pescador e sapatos dourados para o festival, do qual a jovem foge deixando um calçado que conduz à sua identificação pelo rei e ao desfecho acompanhado da morte das perseguidoras.
3. Uma variante chinesa posterior apresenta uma vaca como encarnação do espírito materno, enquanto o vestido de penas de martim-pescador aproxima a narrativa do motivo da Donzela Cisne identificado por Arthur Waley.
Versões europeias
1. Numa versão italiana, uma mulher dá à luz uma abóbora que contém uma menina bela, posteriormente abandonada no bosque e encontrada por um príncipe, articulando o destino de Zucchettina ao simbolismo alquímico do recipiente hermeticamente fechado em que ocorre a transformação e a outros motivos, como a carruagem de cristal e o fruto mágico que somente a heroína consegue colher.
2. A versão polonesa combina a perseguição de Cinderela com o espelho de Branca de Neve e faz do anel, do bastão e do sapato os sinais de reconhecimento da jovem que trabalha como porqueira e comparece à igreja em vestes esplêndidas, enquanto o recurso de prender o calçado com alcatrão também aparece numa variante dálmata associada a roupas provenientes de uma árvore mágica.
3. Na versão portuguesa A gata da lareira, a vaca auxiliar é morta e suas entranhas se transformam num fio dourado que conduz a heroína ao reino das fadas, onde sua disposição para ordenar e ajudar é recompensada com a realização de um desejo, ao contrário da irmã preguiçosa, permitindo posteriormente a obtenção das vestes, o reconhecimento pelo sapato e a punição das perseguidoras.
4. Outra variante substitui o fio dourado por um peixe da mesma cor, que solicita ser lançado ao poço e conduz a heroína à entrada do reino das fadas.
5. Na narrativa inglesa Tattercoats, a morte da mãe durante o parto origina a rejeição da menina e seu trabalho na cozinha, onde ela se torna amiga de um guardador de gansos dotado de poderes musicais, antes de despertar o amor de um príncipe que a convida para o baile da meia-noite.
6. A chegada de Tattercoats ao baile em andrajos provoca o riso dos convidados, mas o reconhecimento amoroso do príncipe e a música encantada do guardador de gansos revelam sua aparência radiante, transformam as aves em pajens e fazem desaparecer o auxiliar sobrenatural.
7. Nas variantes Rushen Coatie e Mossy Coat, a rainha moribunda anuncia à filha que uma bezerrinha vermelha atenderá a todos os seus pedidos.
8. Após o segundo casamento do pai, a heroína perde suas roupas, recebe um manto de junco ou musgo e enfrenta tarefas impossíveis com o auxílio da bezerrinha, cujos ossos conservam poderes depois de sua morte e possibilitam três aparições esplêndidas na igreja, culminando na perda do sapato e na tentativa das irmãs de usurpá-lo mediante a mutilação dos próprios pés, fraude denunciada por uma ave que indica onde se encontra a verdadeira jovem.
9. Na variante dinamarquesa, a ave denuncia que a mutilação dos dedos e do calcanhar não torna as irmãs aptas a calçar o sapato dourado e revela que somente a donzela da cozinha pode usá-lo.
10. Na versão escandinava, a mutilação dos pés impede as irmãs de dançar durante a celebração do casamento.
11. As versões em que as irmãs matam e devoram a mãe por ciúme de sua preferência por Cinderela preservam vestígios de antigos ritos canibais, enquanto os ossos recolhidos pela heroína mantêm poderes mágicos que a protegem das perseguidoras.
12. Outras variantes combinam a perseguição de Cinderela com provas que distinguem a bondade prestativa da filha bela da recusa egoísta da filha favorecida, produzindo recompensas e castigos correspondentes e preservando, apesar das mudanças na composição familiar, a importância do número três e dos conflitos de ciúme entre irmãs.
13. Nas narrativas em que o protagonista é masculino, permanece a sequência de rejeição familiar, maus-tratos, trabalhos servis, tarefas difíceis e auxílio sobrenatural, agora acompanhada por roupas ou armaduras mágicas que permitem vencer três provas, conquistar a princesa e alcançar a realeza e a felicidade.
