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VIDA DE ESOPO

Vie d’Ésope: livre du philosophe Xanthos et de son esclave Ésope : du mode de vie d’Ésope. Paris: Belles lettres, 2006.

  • A obra conhecida como Vida de Esopo existe em várias versões, das quais se possuem três recensões distintas: a recensão G, a recensão W e a recensão Accursiana.
    • A recensão G deve seu nome ao fato de o único manuscrito que a preservou ter pertencido ao mosteiro de Grottaferrata; desaparecido misteriosamente no final do século XVIII, foi reencontrado décadas depois em Nova York, na Pierpont Morgan Library, sob o número 397 — sendo a mais antiga e mais extensa das três versões.
    • A recensão W, ou Westermanniana, deve seu nome ao seu primeiro editor, A. Westermann, é datada geralmente do início da época bizantina e apresenta duas redações ligeiramente distintas — a redação dita MORNLo e a redação BPThSA —, além de um grupo de manuscritos contaminados que mesclam características de ambas.
    • A recensão Accursiana, editada pela primeira vez em Milão entre 1479 e 1480 por Bonus Accursius, é a mais tardia, datando ao que parece do final do século XIII; conhecida também como versão de Planudes, é muito provavelmente obra do monge bizantino Máximo Planudes (ca. 1255 — ca. 1305), autor, entre outras obras, da Antologia planudiana e de traduções latinas das Metamorfoses e das Heroídes de Ovídio.
  • Embora cronologicamente primeira, a versão G não representa a forma original da Vida de Esopo, como atestam os fragmentos conservados em papiro — cinco ao total, de época romana ou bizantina, reproduzindo passagens substanciais da biografia do fabulista.
    • O mais antigo desses papiros data do final do século II ou início do século III d.C.; o mais recente foi copiado no século VI ou VII.
    • Uma comparação atenta revela que as lições fornecidas pelos papiros nunca concordam inteiramente nem com a recensão G nem com a recensão W, embora os pontos de contato sejam mais numerosos com G.
    • Conclui-se que a Vida de Esopo conheceu, como tantas obras populares, uma transmissão textual fluida, em que cada nova cópia vinha acompanhada de intervenções por vezes importantes no texto, pois esse tipo de obra não gozava do mesmo respeito dos copistas que os poemas homéricos ou os diálogos de Platão.
  • O papiro mais antigo, o P. Berol. inv. 11628 (fins do século II — início do século III d.C.), fornece um precioso terminus ante quem para datar o surgimento da obra, sugerindo que a versão primeira remonte ao início do século II ou ao final do século I.
    • Diversos índices indicam que o texto, em sua forma atual, não é anterior à época imperial: registram-se numerosos latinismos na língua da versão antiga, especialmente para exprimir realidades da vida cotidiana.
    • O uso de um duplo sistema monetário — ora grego (óbolos e talentos), ora latino (asses e denários) — reforça essa datação; um estudo minucioso de J.-P. Callu sobre os preços de escravos e mercadorias mencionados no texto conclui por estimativas compatíveis com o mercado dos dois primeiros séculos da era comum.
    • Outros detalhes revelam personagens que vivem num mundo amplamente penetrado pelos costumes romanos: a importância atribuída aos banhos na rotina diária e o hábito de tomar aperitivo antes das refeições — costume romano que o tradicionalista Plutarco, nos Comentários à mesa, deplora como sintoma de intemperança.
    • A viagem à Grécia que Esopo empreende ao final de sua vida, apresentando de cidade em cidade suas habilidades de logopoios, remete à existência itinerante dos oradores-estrela da Segunda Sofística: como eles, o fabulista se produz em salas de conferências (akroatêria) e recebe salário por suas atuações.
    • A presença, em vários passos do texto, de notações de caráter fisiognomônico ancora ainda mais solidamente a Vida de Esopo na época imperial, período em que essa pseudociência atingiu seu pleno desenvolvimento.
  • Não se pode negar, entretanto, que diversos elementos da Vida de Esopo remontam a uma época muito mais antiga, a ponto de comentadores modernos terem encontrado no texto um caráter profundamente arcaico.
    • Os anos de escravidão de Esopo em Samos, o nome de seu senhor Xanto — versão levemente alterada do Xantes mencionado por Heródoto — e o papel de conselheiro político junto aos samianos já circulavam nos séculos V e IV a.C.
    • Na seção final da Vida, dedicada à morte trágica de Esopo, a influência da tradição antiga é mais evidente: reencontram-se todos os detalhes já presentes em Aristófanes e Aristóteles — a acusação mentirosa, a taça escondida traiçoeiramente na bagagem do fabulista e a fábula da águia e do escaravelho, contada por Esopo na esperança de escapar à morte.
    • As consequências funestas para os delfios remetem sem equívoco ao contexto arcaico da primeira guerra sagrada: o autor anônimo precisa que, após a morte de Esopo, os delfios foram vítimas de uma expedição de represália conduzida por uma coalizão de povos da Grécia e da Ásia — lembrança confusa da expedição que a Liga Anficiônica empreendeu, na primeira década do século VI a.C., contra a cidade de Kirrha, que controlava o acesso ao santuário de Delfos e foi inteiramente destruída após dez anos de guerra, tendo sua planície fértil consagrada a Apolo.
    • O final da biografia é impregnado de uma atmosfera muito arcaica de vingança sobrenatural, evocada pela pestilência que se abate sobre a cidade culpada e pelo oráculo que prescreve sacrifícios expiatórios; na recensão W figura ainda outro detalhe de tonalidade arcaica — ausente no texto G —: os delfios arrependidos se preocupam em erigir um templo e uma estátua em honra de Esopo.
  • Morte violenta vingada por uma divindade e heroicização póstuma são elementos recorrentes nas vidas lendárias dos poetas antigos, como Hesíodo e Arquíloco, ambos supostamente assassinados e defendidos pelos deuses.
    • Diz-se que Zeus teria fulminado e engolido no mar os assassinos de Hesíodo; quanto a Córax, assassino de Arquíloco, maldito por Apolo, teve de se dirigir ao túmulo da vítima para aplacar sua alma com oferendas.
    • Um culto heróico foi instituído em Paros em honra de Arquíloco; em Argos, Homero recebeu uma estátua de bronze e honras de sacrifícios regulares, conforme relata o célebre Torneio poético de Homero e Hesíodo — texto tardio, datado da época de Antonino, mas em grande parte proveniente do sofista Alcidamas, remontando portanto ao século IV a.C.
    • É possível que uma biografia de Esopo tenha sido redigida no mesmo período, ou um pouco mais tarde, na época helenística, para acompanhar as primeiras coleções de fábulas esópicas — concebida nos moldes das biografias de Homero ou dos trágicos, e enriquecida talvez com uma amostra de fábulas, assim como a Vida de Homero transmitida sob o nome de Heródoto é salpicada de composições de circunstância supostamente improvisadas pelo poeta.
  • O autor da Vida de Esopo pode ter utilizado uma biografia desse tipo como núcleo primário de sua obra, sobre o qual vieram enxertar-se muitos elementos adventícios, entre eles empréstimos evidentes de outras vidas de homens célebres, notadamente as dos Sete Sábios e de Diógenes.
    • O papel que Esopo desempenha junto a Creso — impedindo-o de atacar os samianos — reproduz o que a tradição antiga atribuía a Bias ou a Pítaco: Heródoto narra que, quando Creso meditava construir navios para atacar os insulares, Bias de Priene (ou Pítaco de Mitilene, segundo outros) veio a Sardes e, ao ser interrogado sobre as novidades da Grécia, deu uma resposta que suspendeu os preparativos; Bias contou a Creso que os insulares compravam milhares de cavalos para atacá-lo, e ao ver Creso rir-se da ideia de insulares tornando-se cavaleiros, fez-lhe notar que ele não era muito melhor ao pretender armar uma frota contra gente das ilhas — argumento que convenceu Creso a renunciar e concluir um pacto de amizade com os jônios.
    • Na Vida de Esopo, o fabulista ocupa o lugar do Sábio e obtém o mesmo resultado pelo uso criterioso de suas fábulas.
    • O episódio do banquete de línguas (51–55) e o da tarefa de beber o mar (68–74) parecem inspirar-se em anedotas habitualmente associadas à figura de Bias: segundo Plutarco, foi Bias quem enviou ao faraó Amásis — que lhe pedira “o que é ao mesmo tempo o melhor e o pior no corpo de uma vítima” — a língua do animal sacrificado, indicando assim “que a língua pode produzir os maiores danos como os maiores benefícios”; foi também Bias quem, sempre segundo Plutarco, sugeriu ao mesmo Amásis — desafiado pelo rei dos etíopes a beber o mar até a última gota — que convidasse seu adversário a “deter os rios que desaguam no mar, o tempo que ele próprio beba até a última gota o mar tal como está atualmente: pois é dele que se trata na tarefa imposta, e não do mar por vir”.
  • Os pontos de contato são ainda mais numerosos entre a Vida de Esopo e o repertório de anedotas tendo Diógenes por protagonista — anedotas que chegaram em sua maioria por intermédio de Diógenes Laércio, mas que em grande parte remontam a uma época sensivelmente mais antiga.
    • O episódio da venda de Esopo (20–27) parece inspirar-se num episódio correspondente da vida de Diógenes, e a célebre frase do filósofo cínico mandando o pregoeiro anunciar “Alguém quer comprar um senhor?” poderia estar na origem das queixas reiteradas de Xanto, consternado por ter, na pessoa de Esopo, comprado um senhor (28, 40).
    • O episódio em que Esopo declara ter visto nos banhos apenas um homem, sob o pretexto de que apenas um era digno desse nome (66), remete à famosa história de Diógenes procurando um homem à luz de sua lanterna — anedota que, na biografia do próprio filósofo cínico, serviu de matriz a toda uma série de variantes, uma das quais muito próxima do relato esópico: Diógenes, a quem um interlocutor pergunta se havia gente nos banhos, responde sucessivamente que havia poucos homens, mas uma grande multidão.
    • Os conflitos de Esopo com o estratego de Samos, que o lança na prisão por ter declarado não saber para onde ia (65), têm uma variante conservada com Diógenes por protagonista num fragmento de papiro de época helenística (séculos III–II a.C.), que figura entre outras anedotas relativas ao filósofo cínico e que talvez constituam os restos de um bios antigo.
  • A Vida de Esopo é portanto uma obra composta de peças e fragmentos de origem heterogênea, extraídos de tradições de épocas diferentes e por vezes muito recuadas, sendo o mais considerável dos empréstimos praticados pelo autor anônimo o que figura na penúltima parte da Vida, onde se narram as aventuras de Esopo a serviço do rei da Babilônia (101–123).
    • Todo esse episódio revela-se a transposição de um relato de origem oriental cujo protagonista era inicialmente o sábio Aquicar, grão-vizir do rei da Assíria.
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