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8 Graal como pedra

JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.

1. O vaso, na alquimia, é um verdadeiro símbolo que exprime uma ideia mística e possui vastas conexões de sentido, pois, segundo a lendária Maria Profetisa, todo o segredo reside em conhecer o vaso hermético, sempre uno e redondo como a abóbada celeste para que as influências celestes contribuam para a obra, chamado também matriz ou útero, onde nasce o filius philosophorum, e misteriosamente idêntico ao seu conteúdo, a aqua permanens, o Mercurius, verdadeiro vaso oculto e jardim filosófico onde o sol se levanta, e a própria pedra filosofal, podendo ser interpretado psicologicamente, por conter e reunir a matéria dispersa, como um conceito que não é atribuído arbitrariamente pela consciência ao inconsciente, mas que se desenvolve a partir dele mediante sua observação cuidadosa.

2. Nesse sentido o vaso é uma theoria em que o inconsciente se explica a si mesmo, método redescoberto pela psicologia profunda na imaginação ativa, definida por Jung como evocação ativa das imagens interiores secundum naturam, em que não se fantasia a esmo, mas se procura apreender o sentido do objeto interior como imagem mental fielmente reproduzida, verdadeira realização do pensamento e da imaginação que produz histórias simbólicas ou diálogos com um parceiro interior personificador do inconsciente, aproximando e sintetizando as metades consciente e inconsciente da personalidade e criando uma atitude disposta a considerar duradouramente os conteúdos inconscientes e incorporá-los à vida real, de modo que o indivíduo se torna vaso desses conteúdos, como os místicos alemães designavam o homem pela palavra vaz, e, como diz Senior citado por Theobald de Hoghelande, a visão do vaso hermético deve ser mais buscada que a escritura, pois contemplando-o o homem alcança o nous, a consciência superior nele contida, tornando-se o vaso útero da renovação ou renascimento espiritual.

3. Desde cedo o conteúdo do vaso, a substância arcana, foi comparado às águas do Nilo ou ao Osíris desmembrado, admitindo-se sua natureza secreta e divina, de modo que o vaso representa também uma disposição interior para relacionar-se com o arquétipo do Si-mesmo, o que se aplica aos povos do noroeste da Europa, para os quais o cristianismo era produto de uma cultura mediterrânea distante e mais avançada enxertada em sua mentalidade primitiva e bárbara, e que, sem instrumento intelectual ou pensamento diferenciado para compreendê-lo, só podiam deixar a nova fé afundar até animar nas profundezas da alma um arquétipo latente, assimilando-a assim de modo mais fundamental e seguro do que por um entendimento meramente intelectual ou sentimental.

4. Em grande ou pequena escala, no coletivo ou no indivíduo, tal processo de apropriação espiritual acompanha-se inevitavelmente de uma profusão de associações da alma individual, nas quais justamente consiste a assimilação, contribuições que não são por si ortodoxas nem se ajustam a uma concepção consciente e universalmente válida, mas são tal como surgem na alma da pessoa ou do povo, e, mesmo condenadas como heréticas por uma Igreja empenhada em estabelecer um credo uniforme, têm grande importância por servirem ao processo de assimilação.

5. Uma nova compreensão só se torna viva e eficaz quando ultrapassa os limites da consciência e alcança as profundezas da alma, unindo-se ao arquétipo correspondente, e o símbolo feminino e materno do vaso pode ser entendido como o lugar, semelhante ao ventre materno, onde fatores antes invisíveis ou existentes apenas in intellectu adquirem vida e forma, o que parece ligar-se à ideia de que, após sua chegada à Bretanha, o Graal caiu em cativeiro ou desapareceu num além ou ocultamento, situação comparável a uma incubação.

6. Como mostra Jung em Psicologia e Alquimia e Mysterium Coniunctionis, a alquimia medieval, como a lenda do Graal, espelha um processo semelhante de assimilação do cristianismo, que é também remodelação e desenvolvimento dos conteúdos cristãos, de modo que o vaso significa não só a possibilidade de assimilação psíquica, mas também a matriz em que o arquétipo do Si-mesmo continua a transformar-se, possuindo por seu conteúdo divino o valor de um mistério, chamado na Practica Mariae medida do fogo e corpus toxicum oculto pelos estoicos por transformar o Mercurius, a água dos filósofos, e sendo, como substância arcana, água e fogo, pois a pedra, frasco de fogo, é criada do fogo, qualidades venenosas, perigosas e ígneas que caracterizam também o Graal, como no Lancelot-Graal, em que Mordrain, companheiro de José, ao aproximar-se demais para ver o Graal desvelado, perde a visão e o uso dos membros, ficando desamparado como o Rei Pescador, e na Queste, em que Lancelot, atraído por um brilho, vê o vaso sagrado sobre uma mesa de prata, chega perto demais, sente no rosto um sopro de vento quente que o queima, perde audição, vista e fala e jaz vinte e quatro dias e noites imóvel como morto.

7. Esse motivo revela o Graal como verdadeiro mistério, semelhante aos objetos sagrados dos cultos de mistérios antigos, guardados envoltos em cestas, as cistae, vedadas aos não iniciados, e ao fetiche ou ao conteúdo da trouxa de guerra ou da bolsa de medicina dos povos primitivos, cuja visão curiosa e não autorizada acarreta consequências semelhantes, expressão da qualidade perigosa e avassaladora e da essência numinosa do conteúdo arquetípico, o que explica em parte o extraordinário tabu que envolvia o livro e o mistério do Graal.

8. Na Continuação de Wauchier, das maravilhas temidas que o herói encontrou ninguém deve falar, pois quem o fizer estará em perigo, sendo esse o segredo do Graal, e o mal pode atingir quem dele falar de modo diverso do devido, e na Elucidação o mistério do Graal é dado como algo de que ninguém pode falar nem contar.

9. Em Robert de Boron afirma-se que no livro está escrito o grande mistério chamado Graal.

10. A equiparação alquímica do vaso a seu conteúdo, a pedra, aparece curiosamente na história do Graal, pois em Wolfram o Graal é uma pedra, trazida sobre um achmardi verde-escuro pela portadora como perfeição do Paraíso, raiz e ramo, coisa chamada Graal que supera toda perfeição terrena, e da qual vivem os cavaleiros do Graal como de uma pedra da mais pura espécie chamada lapsit exiliis.

11. A expressão lapsit exiliis, vertida por W. Hertz como lapis electrix, suscitou muitas especulações, e pela leitura lapsit ex coelis quis-se interpretar o Graal como meteorito, já que na Antiguidade os meteoritos eram considerados pedras dotadas de alma.

12. Segundo Wolfram e Kyot, o Graal foi descoberto pelo naturalista pagão Flegetanis, que o leu nas estrelas, identificado por muitos estudiosos com o místico Thabit ben Qorah, que viveu em Bagdá de 826 a 901, traduziu escritos alquímicos gregos e aparece como Thebed na literatura alquímica latina, ou, segundo P. Hagen, com Felek-Thani, nome árabe do guardião da segunda esfera planetária, a de Mercúrio, cujo escrito o provençal Kyot teria encontrado em Toledo e confirmado por uma crônica em Anjou, fonte que, segundo R. Palgen, aponta inequivocamente para a astrologia e alquimia árabes ou sabeias, e a pedra dos alquimistas era chamada lapis exilis em versos atribuídos a Arnaldo de Vilanova e citados no Rosarium philosophorum do século XV como pedra insignificante, desprezada pelos tolos e estimada pelos sábios, termo que Wolfram, anterior a Arnaldo, nascido por volta de 1220, não pode ter tomado dele, embora não desconhecesse ideias astrológicas e alquímicas, razão por que muitos corrigem lapsit exiliis para lapis elixir, designação da pedra filosofal usada por Vicente de Beauvais por volta de 1260 ao citar o De arte Alchemia de Avicena, que, embora não contenha a expressão, compara a pedra ao elixir, sendo lapis elixir termo alquímico corrente.

13. Extremamente significativa e igualmente alquímica é a crença, segundo Wolfram, de que a pedra do Graal foi deixada na terra e guardada pelos anjos que permaneceram neutros na luta entre Deus e Satanás, por vezes chamados zwivelaere, duvidosos, anjos nobres e dignos que não tomaram partido quando Lúcifer e a Trindade combateram e foram obrigados a descer à terra junto a essa pedra.

14. Segundo S. Singer, essa ideia difundida provém de círculos cátaros, e assim guardam o Graal os anjos que se opuseram à cisão dos opostos divinos internos, buscando manter o equilíbrio e a unidade original da imagem de Deus, unidade luminosa e obscura dos opostos divinos também representada pela pedra alquímica e pelo Mercurius, a ela idêntico e dito duplex, bom com os virtuosos e mau com os pecadores, imagem de Deus em que os opostos se unem, ora identificado a Cristo, ora ao diabo, masculino e feminino, gêmeo, Adão e Eva, velho e menino, figura do Anthropos e do salvador gerada pelo inconsciente que compensa e completa a figura luminosa de Cristo, deus terrestris et absconditus e parte essencial do Si-mesmo como complexio oppositorum, imagem divina luminosa e obscura também representada pelo Baphomet supostamente adorado pelos templários, ser andrógino de duas faces e longa barba grisalha ou cabeça de cobre que respondia oracularmente, tradições secretas que sobreviveram entre os Hospitalários em Rodes, onde o alquimista Bernardo de Treviso as redescobriu e ligou às suas ideias, caminhos tortuosos pelos quais concepções místicas de seitas orientais de influência gnóstica penetraram, em parte unidas à alquimia, no pensamento europeu, tendo Guiot-Kyot, fonte de Wolfram, supostamente estado em Jerusalém e na corte de Frederico Barbarossa e conhecido os templários, guardiães do Templo de Salomão, figura arquetipicamente ampliada do Velho Sábio, unido à espectral Rainha de Sabá e guardião de vastos tesouros, cujo trono e anel simbolizam o tesouro difícil de alcançar, o Si-mesmo, e que por isso aparece como autoridade na literatura alquímica.

15. A familiaridade de Wolfram com ideias alquímicas deduz-se também da descrição do Graal como a pedra por cujo poder a fênix é consumida pelo fogo para renascer rejuvenescida das cinzas, figura alegórica de papel importante na alquimia.

16. A lenda da fênix não menciona pedra alguma, mas resinas inflamáveis acumuladas pela ave no ninho, enquanto o Lancelot-Graal fala da ave Serpilion queimada pela Pirastite, pedra trazida do vale de Hebron para aquecer os filhotes, que ela então alimentava como o Graal alimenta seus protegidos, combinação das figuras da fênix e do pelicano, sendo Serpilion provavelmente ave-serpente, noção aparentada à semenda persa, combinação de serpente e ave que bem ilustra a dupla natureza instintiva do inconsciente.

17. O motivo da fênix e da pedra em Wolfram liga a imagem do Graal a ideias decididamente alquímicas, e o epíteto exilis, pobre e vil, alude a um traço conhecido da pedra filosofal, repetidamente descrita como sem valor, lançada ao monturo ou pisada na rua, e já Zósimo, na Antiguidade, a dizia desprezada e altamente honrada, não dada e dada por Deus.

18. Supôs-se ainda que a concepção do Graal como pedra tenha surgido de confusão com a mesa de pedra ou da imagem do Graal como altar portátil sobre o qual a pomba depositava a hóstia, concepção que o associa à pedra que fechava o sepulcro de Cristo, identificada por lendas orientais com o rochedo ferido por Moisés no deserto para dar água aos filhos de Israel, comparado pelos alquimistas à sua pedra, como na Aurora consurgens, que descreve a pedra como casa do tesouro fundada sobre rocha firme, que só se fende ferida três vezes pela vara de Moisés para que as águas jorrem abundantes e todo o povo, homens e mulheres, delas beba.

19. Wolfram mistura também aqui ideias de certo modo aparentadas, e as qualidades mencionadas, sobretudo a concessão de juventude e longevidade, atribuídas ao Graal em quase todas as versões, são as mesmas da pedra filosofal, enquanto outra linha de pensamento remonta à Arca da Aliança colocada por Salomão no Templo de Jerusalém sobre uma pedra e contendo quatro coisas, a vara de Aarão, as Tábuas da Lei, candelabros de ouro e a urna do maná celeste, urna sagrada desaparecida da terra, talvez escondida numa caverna sob o pavimento, e envolta em muita especulação mística.

20. Os quatro objetos podem referir-se às quatro funções da consciência, e, se espada e lança correspondem ao pensamento e à intuição, o Graal, por seu poder de seleção e por conceder seus efeitos, como a alegria do coração, apenas aos dignos, compara-se à função sentimento, que também discrimina ao consentir ou recusar, embora seja apenas um dos aspectos de um símbolo de tantos sentidos, pedra da mais pura espécie que exige pureza dos guardiães e só pode ser carregada por uma virgem pura e sem malícia, em cujas mãos não pesa, enquanto o vil não consegue erguê-la, assim como o alquimista árabe Alfídio diz da pedra que sua mãe era virgem e seu pai não a conheceu e a Aurora consurgens a chama pedra da castidade, novos pontos de contato com a alquimia.

21. Reunidos seus aspectos de pedra maravilhosa, vaso ou relíquia, o Graal dispensa alimento material conforme o gosto e consolo espiritual, conserva a juventude e a vida, cura cavaleiros feridos, irradia luz e doce fragrância, alegra o coração, impede quem o vê de pecar naquele dia, discrimina entre bem e mal, permanece invisível aos não batizados, manifesta a vontade de Deus por escritos que nele aparecem, só é encontrado por quem o céu destina e cujo nome nele está escrito, e não permite ao seu defensor outro amor senão o que prescreve, o que foi a desgraça de Anfortas, que escolheu a bela Orgeluse e, buscando fama a seu serviço, recebeu da lança envenenada de um pagão a ferida que não sara, atribuindo ao Graal um significado psicológico ligado a Eros, como se o vaso opinasse sobre a escolha amorosa do homem e guiasse sua relação com a anima, numa época em que o Minnedienst tendia, segundo Jung, à realização individual da anima e à relação pessoal com a mulher, tendências interrompidas pelo crescimento do culto à Virgem, que reduziu a anima a mero símbolo arquetípico, e embora o momento da escolha individual seja muito perigoso, como mostra Anfortas, o Graal parece ter agido como símbolo orientador em meio aos enredamentos da anima, pondo o desenvolvimento do indivíduo, como imagem de sua totalidade absoluta, a serviço de uma meta superior.

22. Os maravilhosos atributos do Graal, que o qualificam como tesouro difícil de alcançar, e sua analogia com a pedra alquímica, que em Wolfram chega à identificação, justificam tomá-lo como símbolo do Si-mesmo ligado à imagem de Cristo por ser relíquia de seu sangue, aspecto funerário e sanguíneo que o relaciona ao estágio de desenvolvimento psíquico que prolonga a eficácia de Cristo no mundo após sua morte terrena e preserva através dos tempos sua substância anímica, pois a figura indistinta e inconsistente de Jesus nos Evangelhos só adquiriu significado porque em torno dela se cristalizaram, a partir do inconsciente coletivo, as imagens simbólicas do Si-mesmo da época, como o peixe, a cruz e o Filho do Homem, tornando-a idêntica ao conceito de Si-mesmo e conferindo-lhe a substancialidade e realidade centrais para a cultura cristã, significado que teria declinado se, desde o apóstolo Paulo, indivíduos não tivessem repetidamente vivido experiências psíquicas interiores apreendidas como idênticas a Cristo, de modo que a força psíquica que sustenta a vida do símbolo de Cristo pode ser entendida como o padrão inato de individuação capaz de gerar, em todas as épocas e em cada ser humano, uma imagem crística do Si-mesmo e assegurar sua sobrevivência.

23. O Graal pode também ser tomado como imagem da função transcendente, síntese psíquica de consciência e inconsciente que permite à totalidade psíquica, o Si-mesmo, tornar-se consciente, responsável pela contínua maturação e transformação da imagem de Deus e por isso apropriadamente simbolizada como o vaso em que se preserva a substância anímica do deus.

24. Embora vaso e conteúdo sejam idênticos, há uma sutil diferença na escolha das imagens, pois a pedra alquímica significa o homem espiritual interior, partícula de Deus oculta na natureza por seus atributos divinos, análoga ao Deus que em Cristo desceu à terra num corpo sofredor, enquanto sua vileza, lapis exilis ou vilis, indica que todo ser humano é seu portador potencial e até seu gerador, compensando o símbolo da pedra a espiritualidade excessivamente elevada e remota da imagem eclesiástica de Cristo, distante demais do homem natural e terreno.

25. Embora a hóstia antes da consagração também seja matéria sem vida que se torna Corpo de Cristo, e o apaixonado interesse medieval pela transubstanciação mostre quão significativa era a incorporação do elemento material à especulação sobre Deus, o mistério eucarístico não bastava como resposta, talvez pela pequena quantidade de matéria envolvida, e os alquimistas aprofundaram por conta própria o problema do deus inerente à matéria inerte, alguns deles, como Petrus Bonus, Melchior Cibinensis e o autor da Aurora consurgens, percebendo a analogia entre a transubstanciação na missa e a obra alquímica, em que, segundo Jung, a carne glorificava-se a seu modo, não se transformando em espírito, mas fixando o espírito na pedra, símbolo do Cristo interior, de Deus no homem, e desenvolvimento do símbolo de Cristo em direção à matéria, pelo qual o alquimista, sem o saber, levava adiante a ideia da imitatio Christi até concluir que a plena assimilação ao Redentor lhe permitiria continuar a obra de redenção nas profundezas da própria psique e até libertar o espírito divino aprisionado na matéria, não como eu, mas como Si-mesmo, pois o símbolo da pedra não vinha da consciência individual, mas das regiões fronteiriças da psique que se abrem ao mistério da matéria cósmica.

26. A pedra alquímica é símbolo do Si-mesmo análogo a Cristo, mas enriquecido, por seu retorno às profundezas da matéria e do físico, com um lado mais escuro que o completa, e, enquanto o símbolo da pedra enfatiza a substância material desse conteúdo, o aspecto do vaso acentua a importância da compreensão psíquica do Si-mesmo, pois o vaso, coisa material que serve para conter outras substâncias, indica que a imagem do Si-mesmo, Cristo, é praticamente inexistente se não for realizada na alma humana.

27. Trata-se de parte de um longo processo histórico em que a imagem de Deus, de início vivida como inteiramente transcendente à consciência, deixa progressivamente seu lugar de projeção numa realidade metafísica e penetra cada vez mais no âmbito humano, aproximação espelhada primeiro nos mitologemas do deus-homem, como Gilgamesh, Tamuz e Osíris, depois na doutrina da encarnação de Deus numa pessoa historicamente real, Jesus, pela qual Deus desceu plenamente ao aqui e agora humano e que tornou a pessoa de Cristo objeto central da especulação teológica nos ramos reformados, descida que ficaria incompleta, sobretudo por pertencer o Cristo histórico a um passado distante, sem um passo ulterior, a realização da existência do deus-homem na alma de cada indivíduo, expressa pela primeira vez com intensidade de experiência individual pelos místicos medievais e, em paralelo rico em imagens, pela lenda do Graal, na qual o vaso ou a pedra significa o homem psíquico total, não o eu, como realização da divindade que desce até a matéria, de modo que, à medida que o homem se torna mais consciente, qualidades e conhecimentos antes inconscientes e atribuídos só a Deus entram em sua esfera de influência, a ponto de, graças à compreensão da matéria, poder desencadear explosões aniquiladoras do mundo diante das quais as destruições dos deuses mitológicos parecem insignificantes, e, sem que se possa prever aonde levará essa crescente consciência da imagem de Deus no homem, ela impõe ao indivíduo uma responsabilidade moral antes mal sonhada e a grande obrigação de buscar consciência mais elevada, levando a sério a própria individuação.

28. Perceval surge assim como símbolo do homem moderno diante dessa tarefa colossal, cuja meta, a realização do homem total, é indicada pela pedra ou pelo vaso, predominando a pedra na alquimia e o vaso nos poetas medievais talvez porque os alquimistas, como naturalistas, buscavam o conteúdo, o espírito divino na matéria, enquanto aos poetas estava mais próxima a apreensão e configuração emocional do mesmo problema, adequadamente simbolizada pelo vaso feminino, e também porque ver o Graal impunha uma pergunta ao contemplador sem lhe dar conhecimento direto, simbolizando antes uma disposição emocional receptiva ainda no âmbito da anima e não claramente formulada, cabendo examinar a natureza da pergunta do Graal após a consideração dos demais símbolos carregados na procissão.

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