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HISTÓRIA DE MERLIN E JUVENTUDE DE ARTHUR

VISEUX, Dominique. L'initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980

“É somente depois de ter sido curvado sob a dor e os infortúnios inumeráveis, que eu escaparei dos laços que me retêm; pois a habilidade é mais fraca que a necessidade.” Ésquilo-Prometeu Acorrentado.

Antes de abordar o simbolismo da história de Merlin, que está na base mesma da tradição Arturiana, lembramos brevemente os principais dados da lenda.

Um demônio abusa de uma virgem durante seu sono e a conhece carnalmente: desta união nasce Merlin que herda assim a ciência infusa e o conhecimento das coisas passadas e futuras. Sete anos mais tarde, Vortigern, rei ilegítimo de Logres, faz construir uma torre inexpugnável para se proteger dos futuros assaltos de Uter Pendragon, herdeiro legítimo do trono. Por três vezes, a torre desmorona e Merlin, levado ao local, revela a Vortigern que dois dragões dormem sob as fundações. Os operários cavam e descobrem um dragão vermelho e um dragão branco adormecidos que, assim que acordados, se entregam à batalha. O branco consegue consumir o vermelho, mas, ferido mortalmente, deita-se pouco depois para morrer. Merlin revela então a Vortigern que este combate é a prefiguração daquele que ele travará com Uter Pendragon e é assim que mais tarde este último se torna rei legítimo de Logres. Em seguida, Merlin ajuda o jovem Uter Pendragon a firmar sua autoridade no reino de Logres, dá-lhe a vitória contra os Saxões graças a seus encantamentos, e faz vir da Irlanda os megálitos de Stonehenge que os guerreiros não puderam mover, dispondo-os por sua única ciência. Por ocasião de uma corte realizada em Carduel, Uter Pendragon encontra Ygerne, a mulher do duque de Tintagel, da qual ele se apaixona violentamente. Merlin desaprovando o rei, permite-lhe, no entanto, passar uma noite com Ygerne e dá-lhe para isso a aparência do duque de Tintagel. Desta união ilegítima nasce Arthur que é então confiado a Merlin e criado por Antor, o próprio pai de Keu.

Dezesseis anos mais tarde, Uter Pendragon morre sem herdeiro conhecido. Os barões reunidos pedem a Merlin que lhes designe um sucessor. É então que no Natal, durante a Missa da Meia-Noite, aparece na praça da cidade uma pedra maravilhosa com uma espada, cravada nela até o punho, e que só o futuro rei poderá tirar da rocha. Todos os cavaleiros tentam, nenhum consegue. Arthur (que ainda não conhecia sua linhagem real) retira então a espada Escalibor sem nenhuma dificuldade. Ele é assim sagrado Rei, mas deve enfrentar os barões ciumentos e rebeldes e os reunir à sua causa. Graças a Merlin, o Rei obtém a vitória em todos os lugares e afirma sua autoridade sobre todo o país. Durante uma de suas campanhas, Arthur encontra Guinevere com quem se casa quando a paz e a ordem voltaram ao reino.

Para completar o relato da juventude de Arthur, é preciso igualmente mencionar o nascimento de Mordret. Com efeito, Arthur em sua juventude havia cometido uma falta que devia, apesar de seu sincero arrependimento, ter prolongamentos longínquos: enquanto ele dormia, segundo o costume, no quarto do Rei Lot de Orcanie e este último havia se ausentado, ele conheceu, por tentação, a Rainha que não era outra senão a irmã de sua própria mãe. É desta união adúltera e incestuosa que saiu Mordret, “aquele que jamais deveria ter nascido”.

Antes de prosseguir o relato pelas tribulações de Merlin, convém fazer um balanço da situação que possui agora todos os dados necessários ao “Drama”. Pode-se dizer, por analogia, que todas as peças estão agora instaladas no tabuleiro de xadrez: o Ser total que simboliza Arthur, chegou à maturidade, ou seja, que ele possui o poder sobre a totalidade de seu espaço mental que figura o Reino. Sua corte está agora formada; ele reuniu em torno de Si a Rainha, sua Dama; Merlin, personificação da autoridade espiritual e sacerdotal; seus sobrinhos, incluindo Gauvain, o espírito cavalheiresco, e seus três irmãos, as tendências internas do ser; Keu, o senescal sarcástico; Sagremor, o impetuoso; e Mordret o traidor. Como no tabuleiro de xadrez, estes personagens são determinados por funções bem definidas e compõem esta “legião de seres elementares” que cada um carrega em Si e que cada cavaleiro pode mover à sua vontade, dependendo do que ele procura. O verdadeiro jogador de xadrez será, portanto, o cavaleiro que, ao longo de sua busca, virá se confrontar regularmente com a corte do Rei como para recapitular sua própria situação ou retificar o jogo de suas peças.

O episódio que relata o combate dos dois dragões já é em Si mesmo uma prefiguração do Drama e não se limita, como se poderia acreditar, a anunciar o combate entre Vortigern e Uter Pendragon (o nome deste último sendo, aliás, muito significativo). De fato, como diz Nicolas Flamel: “São as duas Serpentes ligadas ao redor do Caduceu, a vara de Mercúrio, e é por elas que este exerce sua grande potência… Aquele que matar uma, matará também a outra, porque uma só pode morrer com seu irmão… Eles se mordem os dois cruelmente… e finalmente matando-se mutuamente, se sufocam em seu próprio veneno que os muda depois de sua morte em água viva e permanente…” É, portanto, do confronto das duas naturezas fundamentais do ser que se trata aqui, o que anuncia o assunto do Drama (que terminará, como se sabe, pela Aventura de Lancelot) e é por isso que um simbolismo análogo será empregado para fechar este, no último combate de Arthur contra Mordret. É preciso, no entanto, notar que, dos dois dragões que dormem “sob as fundações do Ser” e o fazem tombar, enquanto este último não resolveu a dualidade fundamental de sua natureza em um confronto final, um é branco, enquanto o segundo é vermelho. Esta referência direta à Realeza (vermelho) e ao Sacerdócio (branco) é igualmente a da “Força” e do “Espírito”, pois mesmo que o “Espírito” triunfe da “Força”, ele deve, por sua vez, se aniquilar, sem o qual a união não saberia se realizar.

Outro ponto merece ser notado neste relato: trata-se das circunstâncias do nascimento de Arthur que, por sua ilegitimidade, remete inevitavelmente à de Mordret e da qual teremos que falar em seguida. Importa ver, por enquanto, que a “falta” do nascimento de Arthur não cabe mais a Uter Pendragon, mas a Arthur ele mesmo, o que dá no mesmo, pois Arthur e Uter Pendragon não são, na realidade, senão dois níveis existenciais do mesmo Ser. Da mesma forma, Mordret partilhará sua falta com Arthur, seu pai, até que esta seja enfim expiada, ou seja, reabsorvida em um novo equilíbrio.

A provação da espada e a tomada de Escalibor por Arthur, constituem, na literatura Arturiana, o tipo mesmo do “Ato de Verdade”: quando um impasse se apresenta nos assuntos humanos, é ao julgamento divino que se deve se submeter. Mas o símbolo vai mais longe: a rocha que retém a espada não é outra coisa senão a “pedra escondida” ou a Materia Prima, autêntico centro do Ser, ainda indiferenciado. A espada, como vimos, figura a arma do Conhecimento que se tira de “Si mesmo” ou da Pedra (em seu estado primordial) que poderá assim revelar suas virtualidades. Certas tradições utilizam, aliás, um outro símbolo, equivalente no fundo: a espada da qual Arthur vai se apoderar sob os conselhos de Merlin, não é mais encravada em uma rocha, mas é mantida acima das águas por um braço misterioso. Como a Pedra, as águas simbolizam aqui as potencialidades do Ser mantidas em sua forma primeira: a Materia Prima.

O segundo ato do Drama relata as tribulações de Merlin e seus amores com Viviane. Quando este reúne os vassalos da Bretanha para combater ao lado de Arthur, ele atravessa a floresta de Broceliande, e lá encontra a charmosa Viviane, a amiga da qual ele sabe que deve se desconfiar. Merlin está então na força da idade. Sua beleza só é igualada por sua sabedoria e seu saber, mas as circunstâncias estranhas de seu nascimento, se elas o cobriram de tantos dons maravilhosos, não o protegeram da queda sempre possível. Louco de amor por Viviane, ele chega a lhe prometer imprudentemente que lhe ensinará todos os seus segredos, se ela se entregar a ele. Um dia, enquanto ambos passam na frente do lago de Diane, Merlin conta a sua amiga esta história: Diane, a bela caçadora, amante de um cavaleiro chamado Faunus, traiu um dia este último por um chamado Felix por quem ela estava apaixonada. Enquanto Faunus estava ferido por um javali, Diane o fez descer para o fundo de uma fonte seca a fim de curá-lo por um feitiço. Quando Faunus estava no fundo da fonte, Diane fez tombar sobre ele as pedras, o enterrou e fez correr chumbo derretido que acabou por consumir Faunus. Quando ela contou a Felix a forma como ela havia se livrado de Faunus, este, com raiva, cortou-lhe a cabeça e jogou seu corpo no lago… Viviane manifesta então o desejo de viver neste lugar e Merlin faz imediatamente aparecer para ela, no lugar do lago, um castelo maravilhoso. Doravante, ela poderá acolher quem ela quiser, mas para os outros, o castelo guardará a aparência do lago. Daí, o nome da fada Viviane: a Dama do lago, aquela que dia após dia rouba os segredos de Merlin sem nunca se entregar a ele, na esperança de poder um dia se passar de seus ensinamentos.

De volta à corte de Arthur, Merlin revela ao Rei e a seus cavaleiros sua própria missão: reconquistar o Graal. Ele lhes revela as tribulações deste desde a morte do Cristo até sua guarda pelos Reis Pescadores, depois ele ergue ele mesmo a Távola Redonda onde cada cavaleiro poderá tomar lugar “sem nenhuma precedência”, deixando, no entanto, um lugar vazio à direita do Rei: o Assento Perigoso, reservado ao Melhor Cavaleiro do Mundo. Cento e cinquenta (em certas tradições, doze) assentos de madeira cercam a mesa, sobre os quais estão escritos em letras flamejantes os nomes daqueles que poderão empreender a busca do Graal, quando os cavaleiros estiverem reunidos por completo. Então, Gauvain, sobrinho do Rei, faz o juramento de proteger as Damas, de fazer justiça aos humildes e de procurar durante pelo menos um ano e um dia os companheiros perdidos. O Rei, por sua vez, faz o juramento de não tocar nenhuma comida em um dia de festa antes que uma aventura notável não tenha ocorrido na corte.

Merlin deixa então a corte e vai se juntar a Viviane, da qual ele anseia cada vez mais. Esta, assim que ele retorna, lhe pede para revelar seu último segredo que consiste em reter prisioneiro um homem em uma masmorra invisível. Merlin, em sua loucura, o ensina a ela e, durante seu sono, Viviane tece em torno do encantador a prisão invisível que o reterá para sempre. Viviane está agora segura de que Merlin não será mais para ela um rival perigoso. O espírito do encantador se tornou cada vez mais pesado, e sua lucidez o abandonou; ele sabe, no entanto, que enquanto durar seu amor por Viviane, a prisão aérea o reterá, privando-o por tanto tempo de seus poderes divinos.

Vimos que antes de consumir sua loucura até seu termo, Merlin vinha de instituir a Ordem da Távola Redonda, destinada à busca do Graal. O simbolismo da Távola Redonda, geralmente bastante conhecido, não apresenta nenhuma ambiguidade. A grande sala do castelo de Arthur é uma réplica do Universo, e a Távola Redonda ela mesma é uma imagem da Roda cósmica. Seus representantes, em número de doze ou cento e cinquenta, são os princípios divinos do Universo manifestando o Verbo na criação, são os deuses do Olimpo, as Ideias de Platão, os Apóstolos do Cristo. O Assento Perigoso, que se encontra virtualmente no centro, é destinado a receber o digno representante do Cristo, o Homem Universal, centro e motor do Universo.

Convém, no entanto, parar sobre os diversos juramentos formulados nesta ocasião por Gauvain e Arthur. O espírito cavalheiresco encarnado por Gauvain, deve proteger as Damas (o que é evidente para um cavaleiro), fazer justiça aos humildes e procurar os companheiros “perdidos” no caminho do Graal, isto durante um ano e um dia. Este prazo simboliza evidentemente o ciclo de existência, como o tempo de uma revolução solar; há aqui uma relação de equivalência entre o Ano, o tempo da vida humana e o ciclo cósmico. O juramento do Rei é ainda mais significativo a este respeito: este promete nunca tocar nenhuma comida em um dia de festa (que é frequentemente o dia do ano novo) antes que uma aventura não tenha ocorrido diante dele. Estamos aqui diante de um autêntico mito da criação: o banquete simboliza a festa da Vida, mas, antes que este possa ocorrer, é preciso que na “origem dos tempos” a divindade tenha se sacrificado, desmembrado e oferecido como alimento àqueles que, para a conhecer e a reintegrar, devem primeiro assimilá-la, ou seja, “consumir os frutos da Vida”. É por isso que aquele que não come e não bebe o fruto do Sacrifício não pode “ter parte” com a divindade sacrificada. Cada novo ciclo exige, portanto, um sacrifício na origem, a fim de que os frutos possam ser consumidos, e é por isso que Arthur e sua corte esperam que uma Aventura (ou um Acontecimento, pois o sacrifício é um) tenha ocorrido diante deles, antes de começar o banquete que, na realidade, é eucarístico. A fração do pão antes da refeição (que é também a da divindade) encontra aqui sua origem.

Resta-nos agora estudar mais profundamente a história de Merlin. Certas tradições não hesitaram em lhe atribuir alguma relação com o Cristo, mas devemos levar mais longe a analogia. Ao examinar as circunstâncias curiosas de seu nascimento, vemos que ele nasceu de um demônio e de uma virgem. Ora, Adão ele mesmo nasceu de uma virgem: Adamah, a terra primordial, e sua existência só se tornará efetiva pela intervenção do demônio Nahash, a serpente designando o ardor cobiçoso e o “enrolamento da Vida”. Mas a analogia entre Adão e Merlin não para por aí. Merlin possui na origem “o sentido da eternidade”: sua ciência infusa e universal é à imagem da Ciência divina. Na floresta de Broceliande, a “Hyle primordial”, perto da fonte de Barenton que não é outra coisa senão a Fonte da Vida no centro do jardim paradisíaco, ele encontra Viviane, perfeita imagem da Natureza universal sob seu aspecto obscuro, a Avidya-Maya ou o poder de ilusão que entrega o ser à destruição, à morte, ao tempo. Ilusório é, com efeito, o amor de Merlin por Viviane que nunca se entregará a ele, como a Natureza nunca se entrega a quem não sabe superá-la. Mas além desta lenda, é preciso bem ver que Merlin prolonga sua queda conscientemente, pois cabe a ele, como a seu homólogo, Adão, “comer os frutos da Vida”. Assim, a falta original não é mais um “mal”, mas a condição necessária do processo cósmico. O cativeiro final de Merlin por Viviane se compreende então facilmente: Viviane, a Avidya-Maya, é também a Aranha, e o mundo é a teia que ela teceu, destinada a reter o ser prisioneiro, enquanto este último não tiver renunciado a seu amor insensato.

A história do lago de Diane desenvolve um tema análogo, ao mesmo tempo que antecipa o desfecho do Drama. Diane, com efeito, não é outra coisa senão Viviane: a Dama dos Bosques se torna a do Lago. Faunus, traído por seu amor, encontra seu equivalente em Merlin. Quanto a Felix, veremos que ele é uma prefiguração de Lancelot. Faunus e Felix, com efeito, não são senão um só e mesmo personagem ou melhor, duas etapas de um mesmo processo, uma descendente e a outra ascendente, Adão e o Cristo. O simbolismo, muito difundido, da decapitação é, aliás, muito claro a este respeito. Felix corta a cabeça de Diane, ou seja, ele mata em eu o princípio do desejo, do apego ao mundo e da vontade individual, que retém o ser cativo.

O castelo substituído pelo lago pelo encantador, no entanto, modifica consideravelmente a função de Viviane: com efeito, para a imensa maioria dos mortais, este permanecerá invisível e potencial (sob o aspecto de um lago), enquanto ele aparecerá como a base mesma da realização, ao cavaleiro eleito. Aqui, desvenda-se mais uma vez, o duplo rosto da Natureza que ensina ou dissimula dependendo da qualidade daqueles que se apresentam a ela.

Tal é a história de Merlin. De tempos em tempos, os cavaleiros da Távola Redonda, perdidos na floresta de Broceliande, ouvirão, como um murmúrio nas árvores, as queixas de Merlin; e a angústia do encantador será para o cavaleiro, como uma constante lembrança de sua natureza divina, retida nos laços invisíveis da Natureza. Merlin espera, ele também, a vinda do Melhor Cavaleiro do Mundo, cuja pureza sozinha poderá virtualmente libertar o Encantador, que dorme no fundo de cada existência.

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