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folktale:mario-martins:mortos

Prantos pelos mortos

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

PRANTOS POÉTICOS PELOS MORTOS

  • A composição de cânticos fúnebres por Saul e Jônatas é apresentada como exemplo bíblico de lamento heroico.
    • Davi compôs um cântico sobre o destino adverso e a glória dos heróis vencidos em batalha funesta.
    • Cita-se o verso: “Considera, Israel, os que morreram cobertos de feridas, sobre os teus altos.”
    • Menciona-se o pedido para não noticiar a morte em Geth nem nas praças de Acalon, para que não se alegrem as filhas dos filisteus.
    • Faz-se referência à maldição sobre os montes de Gelboé, para que não haja orvalho, chuva nem campos de primícias.
    • Registra-se que a seta de Jônatas nunca voltou sem sangue e a espada de Saul não se retirou em vão.
    • Afirma-se que Saul e Jônatas, amáveis e majestosos na vida, na morte não se separaram, sendo mais ligeiros que águias e mais valentes que leões.
    • Convoca-se as filhas de Israel a chorar Saul, que as vestia de escarlate e dava ornamentos de ouro.
    • Lamenta-se a queda dos fortes no combate e a morte de Jônatas nos montes.
    • Expressa-se mágoa por Jônatas, tido como mais gentil e amável que as mais amáveis mulheres, amado como uma mãe ama o filho único.
    • Pergunta-se como caíram os robustos e pereceram as armas guerreiras.
  • A apologia das qualidades e feitos dos defuntos, com lágrimas pelo desaparecimento, é identificada como algo de epopeia.
    • Observam-se as raízes dos “prantos” na alma do povo e no costume quase ritual das lamentações fúnebres.
    • Nota-se que os prantos cresceram dramáticos e clamorosos, às vezes estragados por exibicionismo de mau gosto.
  • A “General Estoria” do século XIII é mencionada por referir muitos prantos do mundo clássico e do povo judaico.
    • Relata-se que os hebreus perguntavam “o que fariam sem ele e o que seria deles e que naquela hora eram lançados em mesquinha vida e grave paixão”.
    • Compara-se tais lamentações às da gente simples da província.
  • Os lamentos de gregos e troianos são descritos como iguais e quase alheios à violência e a qualquer aticismo.
    • As pessoas enlutadas rasgavam as vestes, feriam-se, davam bofetadas no rosto e arrancavam os cabelos desesperadamente.
    • O luto envolvia alarido, como se a dor fosse uma explosão para fora.
  • A interpretação medieval do mundo greco-romano é notada na “Historia Troyana” em castelhano dos anos 1270.
    • Presencia-se o choro espetacular de Aquiles sobre a morte de Pátroclo.
  • Os costumes das lamentações voltaram a prevalecer após Aljubarrota, resistiram séculos e nunca morreram de todo.
    • Mesmo nas cidades mais adiantadas, esses costumes se mantiveram.
  • Tais prantos revelam beleza e autenticidade dramática, mesmo exteriorizando-se de modo teatral.
    • Cita-se uma rapariga de nove ou dez anos: “Ai meu rico paizinho! que sempre fostes tão bom para mim! Nunca mais hei-de te beijar a mão. Nunca mais me darás a bênção. Adeus, meu rico paizinho. Adeus.”
  • Os prantos pelos mortos na Idade Média entraram na poesia dos cancioneiros galaico-portugueses.
    • Dá-se o exemplo das composições de Pero da Ponte.
    • Ele chorou em verso a morte prematura de D. Telo Afonso, herói de grandes feitos em Baeza, Martos, Andujar, Jaen e perto de Arjona.
    • Os versos contêm reflexões sobre a inanidade ilusória dos bens mundanais, elogio do defunto, protesto contra a morte e queixas a Deus.
    • Ninguém pode se fiar no mundo, apesar de Deus tê-lo criado.
    • O Senhor quis levar D. Telo para si, deixando todos ao desamparo, para castigo e escárnio do mundo malvado.
  • A “Chanson de Roland” é mencionada como anterior aos cancioneiros, descrevendo o pranto de Carlos Magno sobre o cadáver de Roldão.
    • A cena se passa num prado de flores tintas de vermelho pelo sangue dos heróis.
    • Cita-se o verso sobre as flores vermelhas do sangue dos barões.
    • O imperador desmaia junto ao cadáver e depois se despede de Roldão, afirmando que nunca houve cavaleiro igual para travar e ganhar grandes batalhas.
    • Carlos Magno perde os sentidos novamente e é segurado por quatro barões.
    • O imperador arranca as barbas e os cabelos brancos, chorando nos desfiladeiros de Roncesvales.
    • Roga a Deus que se apiede de Roldão e que sua alma entre no Paraíso, lamentando que quem o matou deixou a França ao desamparo.
    • Deseja que sua alma saia do corpo antes de chegar aos últimos desfiladeiros de Cize, para ser enterrado junto aos cavaleiros mortos.
    • O Duque de Nimes exclama que grande é a angústia de Carlos.
    • Identifica-se no pranto o elogio dos feitos militares de Roldão, a dor de sangue por ele ser sobrinho de Carlos Magno, a pena pela perda de um hábil general e a sensação de desamparo para o imperador e para a França.
    • Não se encontra ali o problema universal da morte nem a metafísica do tempo irreversível.
  • O Arcipreste de Hita, Juan Ruiz, eleva-se na problemática da Morte omnipotente ao prantear a morte da alcoviteira Urraca, por alcunha Trotaconventos.
    • Isso ocorre nas estrofes “De como morió Trotaconventos” e “de cómo el arcipreste faze su planto, denostando é maldiziendo la Morte”.
    • A Morte é grafada com maiúscula inicial como pessoa que desempenha papel de primeira classe no Grande Teatro do Mundo.
    • Todos entram e saem sem convite, quando a ampulheta do Tempo marca a hora.
  • O pranto do Arcipreste pela morte de Dona Trotaconventos é apresentado em sentido geral.
    • Mal-anda a morte que levou a velha Trotaconventos, antes levasse a ele mesmo.
    • Ninguém iguala a morte, inimiga do mundo, e todos se assustam com sua amarga recordação.
    • A morte fere e leva de rastos, igualando bons e maus, nobres e plebeus, sem considerar papas nem reis.
    • Não olha a senhorio, parentesco ou amizade, anda de mal com todo o mundo, faltando-lhe mesura, amor e compaixão; acompanham-na tristeza, penas e crueldade.
    • Ninguém pode fugir ou esconder-se, pois todos ignoram quando chega e ela recusa atender à vontade dos homens.
    • O corpo é abandonado aos vermes da fossa e a alma é levada logo; ninguém conhece o caminho adverso da morte.
    • O mundo a aborrece de tal modo que, mal chega, todos fogem do morto como de coisa podre.
    • Os que amavam o morto em vida o aborrecem depois de morto como coisa repugnante.
    • Parentes e amigos fogem do morto como de uma aranha.
    • Pais, mães, mulheres fiéis e amigos deixam de gostar dos que morreram.
    • Quem era rico descai em grande pobreza, e quem era honrado torna-se vil e hediondo depois de morto.
    • Nenhum sábio ou pessoa importante fala bem da morte, e todos partem descontentes dela, exceto o negro corvo que se sacia de cadáveres.
    • A morte diz ao corvo que o saciará, mas não há certeza de quando e a quem matará; seria melhor morrer hoje do que ficar à espera e ouvir o corvo dizer “cras” (amanhã).
    • Os senhores não devem ser amigos do corvo, mas temer suas ameaças; o bem que se pode fazer hoje não se deve deixar para amanhã, pois estar neste mundo é um jogo.
    • A saúde e a vida mudam depressa e se perdem de repente; o bem adiado é palavra nua, é preciso vesti-la de obras antes da morte.
    • Quem teima em má jogada perde; é preciso apressar-se a realizar boas obras, porque depois da morte tudo escurece.
    • Muitos cuidam ganhar, mas vem um azar, juntam tesouros, chega a morte e deixa todos de rastos.
    • O moribundo perde o entendimento e a fala, não podendo levar nada; os bens acumulados levam-nos um mau vento.
    • Quando a família fareja que alguém vai morrer, todos se reúnem para ficar com tudo; se o médico diz que o doente vai morrer, todos levam isso a mal.
    • Parentes próximos, irmãos e irmãs, não se importam com a hora dos finados, pois apreciam mais a herança do que o parentesco.
    • Mal sai a alma do pecador rico, deixam-no sozinho, sentem medo dele, roubam quanto podem, e o que menos leva tem-se por inferior.
    • Fazem diligências para enterrá-lo depressa, receiam que arrombem as arcas e não querem esperar pela missa; mau pago dão ao defunto.
    • Não distribuem esmolas aos pobres, não mandam cantar missas, não rezam; os herdeiros limitam-se a fazer alaridos junto ao morto.
    • Enterram-no logo, assistem de má vontade a uma missa tarde ou nunca, e a alma leva-a o diabo.
    • Se o defunto deixa viúva moça, rica e bonita, eles a cobiçam antes mesmo das missas; ela casa com alguém de maior riqueza e não dá importância ao trintário ou ao luto.
    • O mesquinho defunto deseja apelar, mas não tem para quem; ninguém faz testamento como deve ser até ver a morte diante dos olhos.
    • A morte nunca consola nem dá coragem a ninguém; tem o defeito do mastruco, que dói na cabeça de quem o come muito; fere na cabeça, domina os fortes e não valem remédios.
    • Põe no teto os belos olhos, tira a vista, emudece a língua, faz parar o coração; não existe mal, rancor ou desespero que não esteja nela.
    • Dá cabo dos cinco sentidos, ninguém pode doestá-la de verdade; se a insultarem, fica na mesma.
    • Tira a respeitabilidade, desfeia a formosura, suprime o encanto da graça, afronta a mesura, enfraquece a força, enlouquece o juízo, transforma a doçura em fel.
    • Despreza a louçania, escurece o ouro, destrói o que existe, entristece a alegria, suja a limpeza, envilece a cortesia; mata a vida e aborrece o mundo.
    • Não agrada a ninguém, mas agrada-se de quem mata ou morre, fere ou maltrata; tudo o que está bem desfaz a sua maça, e sua rede envolve tudo quanto nasce.
    • Inimiga do bem e amadora do mal, tem a natureza da gota, do mal e da dor; onde vai, tudo corre pelo pior; onde entra tarde, tudo vai melhor.
    • Sua morada eterna são as profundezas do Inferno; ela é o primeiro mal, e o Inferno o segundo; povoa aquela triste morada e despovoa o mundo, dizendo que a todos afunda sozinha.
    • Por causa da morte existe o Inferno; se o homem vivesse sempre na Terra, não teria medo dela nem de sua má estalagem.
    • A morte erma os povoados, enche os cemitérios, abre as fossas, desagrega os impérios; com receio dela, os santos rezaram salmos; fora Deus, todos se assustam com suas penas e misérias.
    • A morte despovoou o Céu, deixou as cadeiras vazias, sujou os puros, mudou anjos em demônios.
    • O Senhor que a fez, ela o matou; fez sofrer Jesus Cristo, Deus e homem; meteu medo a quem temem o Céu e a Terra, obrigando-o a mudar de cor.
    • O Inferno teme a Cristo, mas a morte não o temeu; assustou sua carne e lhe causou grande susto; por causa dela, a humanidade de Cristo entristeceu-se, mas a divindade não se amedrontou.
    • A morte não reparou em Cristo, mas ele a viu; a morte crudelíssima de Cristo encheu-a de imenso espanto; ele venceu o Inferno, os amigos da morte e a própria morte; ela lhe deu a morte por algum tempo, e ele a matou para sempre.
    • Quando Cristo a venceu, a morte viu quem ele era; antes o apavorara, mas depois sentiu maior medo; ele a encheu de penas, mas ela sentiu mil vezes mais penas; aquele que ela matou deu-nos a vida morrendo.
    • Aos santos presos na maldita morada da morte foi dada a vida pela morte de Cristo; a casa da morte ficou deserta e vazia de santos.
    • Cristo livrou dos sofrimentos da morte a Adão, Eva, seus descendentes Cam, Sem e Jafet, os patriarcas, Abraão, Isaac, Dan, São João Batista, Moisés e os demais profetas e santos; todos estavam nos cárceres da morte.
    • Cristo libertou do cárcere todos os eleitos, deixando com a morte somente os réprobos.
  • O Arcipreste de Hita increpa de novo a morte, que por vezes tarda mas sempre acaba por chegar.
    • Abandona as alturas da morte universal e regressa ao passamento da velha e viciosa Trotaconventos, unindo o sublime ao cômico vulgar.
    • Diz que nunca se dirá a décima parte da maldade da morte e se encomenda a Deus, já que não pode impedir a vinda funérea.
    • Pergunta à morte desmesurada por que se meteu com ele e onde pára a velha Trotaconventos, assassinada por ela, embora Jesus Cristo a tenha comprado pelo preço do sangue e lhe tenha perdoado.
    • Lamenta a partida de sua leal amiga Trotaconventos, abandonada por muitos que andaram atrás dela; não sabe para onde foi sua alma.
    • Observa que nunca volta a informar quem percorre o caminho de além-túmulo: “Nunca torna con nuevas quien anda esta carrera”.
    • Imagina Trotaconventos sentada no Paraíso na companhia dos santos mártires, pois Deus a martirizou nesta vida.
    • Pede a Deus que dê glória à velha, pois nunca houve mais leal recadeira; fará um epitáfio com sua história, dará esmolas, rezará, mandará celebrar missas e fará oblações.
    • Roga a Deus que abençoe Trotaconventos e que quem salvou o mundo salve também sua alma.
  • O Arcipreste de Hita pede que as senhoras não o chamem de tonto, pois se a falecida tivesse feito por elas o que fez por ele, também chorariam.
    • Escreveu um pequeno epitáfio e o desgosto o transformou em rude trovador.
    • Pede que quem o escutar reze, por amor de Deus, pela velha de amor: “La oración digades por la vieja d’amor”.
  • O verso “Nunca torna con nuevas quien anda esta carrera” é aproximado da frase de Hamlet sobre o país não descoberto de onde nenhum viajante retorna.
    • Nenhuma influência do Arcipreste de Hita em Shakespeare é admitida, mas sim um enraizamento comum na Bíblia, no Livro de Job: “antequam vadam et non revertar ad terram tenebrosam et opertam mortis caligine”.
    • Aplica-se à morte e ao tempo o versículo: “et semitam per quam non revertar ambulo”.
    • Todos percorrem um caminho irreversível para uma terra donde não se volta mais.
  • No epitáfio para a sepultura de Trotaconventos (Dona Urraca), Juan Ruiz ergue-se de novo à meditação da morte e do tempo.
    • Diz que a morte o prendeu em suas redes sem ele se aperceber.
    • Pergunta aos parentes e amigos por que não o socorrem, exortando-os a proceder bem durante a vida e não pecar, pois assim como ele morreu, também todos morrerão: “Prendiome syn sospecha la muerte en sus rredes! Parientes é amigos, aquí non me corredes? Obrad bien en la vida, á Dios non lo erredes: Que byen como yo morí, asy todos morredes”.
  • Os prantos entraram na literatura, e Rabelais, ao contar o nascimento de Pantagruel e a morte da mãe da criança, descreve as lamentações de Gargantua em estilo de paródia.
    • A passagem tem o título: “Du deuil que mena Gargantua de la mort de sa femme Badebec”.
  • Em Portugal, os prantos ocorreram desde a Idade Média até começos de setecentos, com nomes de grande vulto como Gil Vicente e o P. Luís da Cruz.
    • Referem-se primeiramente aos prantos sobre o Senhor morto na cruz, os prantos da Paixão, principalmente de um poeta beneditino do século XV.
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