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Relatividade Interior do Tempo
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
Cap. II — Relatividade Interior do Tempo
- A cena de abertura de Os Demônios, de Dostoiewski, apresenta Kirillov — engenheiro e teórico do suicídio — a brincar com uma bola de borracha no chão, entre os gritos entusiastas de uma criança.
- Kirillov: personagem de Dostoiewski que encarna uma filosofia do suicídio como afirmação absoluta
- A bola rola para debaixo de um armário e Kirillov deita-se no soalho para alcançá-la, sendo encontrado nessa posição por Stavroguine
- Stavroguine, encharcado, bebe chá quente e trava com Kirillov um diálogo em torno de um duelo à pistola com Gaganov, durante o qual Kirillov exibe um revólver que mais tarde concretizará uma filosofia destrutora.
- Stavroguine: personagem que pertence à raça dos que não têm medo de morrer
- Gaganov: figura mencionada como adversário no duelo quase à queima-roupa
- Após um minuto de silêncio pensativo, Stavroguine indaga misteriosamente a Kirillov se este continua com as mesmas ideias, ao que o engenheiro responde laconicamente que sim, aguardando o momento em que lhe disserem para agir.
- O olhar de ambos é calmo ao falar do suicídio como libertação
- Para Kirillov, trata-se de uma afirmação absoluta, enunciada a frio
- Embora pareça contraditório, Kirillov gosta de crianças e da vida, e ao ouvi-lo afirmar esse amor, Stavroguine pergunta-lhe espantado se não tem a decisão de dar um tiro nos miolos.
- Kirillov responde que vida e morte são coisas diferentes e que a morte não existe
- A vida existe e a morte não existe — eis a enunciação central do engenheiro
- Kirillov declara acreditar na vida eterna deste mundo, afirmando que há momentos em que o tempo para de repente para dar lugar à eternidade, e que espera chegar a tal momento, ao que Stavroguine, sem ironia, duvida que isso seja possível em vida.
- Stavroguine cita o Apocalipse: o anjo assegura que deixará de haver tempo
- Kirillov responde: “Eu sei. Isso é bem verdade. Quando todos os homens tiverem atingido a felicidade, não haverá mais tempo, porque ele já não será necessário. É um pensamento muito exato.”
- O tempo, segundo Kirillov, não é um objeto, mas uma ideia, e tal ideia apagar-se-á do espírito — enunciação que conduz à conclusão de que o tempo não existe em si mesmo, sendo um conceito mental, a consciência do antes, do agora e do depois.
- O tempo existe psicologicamente apenas na medida em que algo muda dentro ou fora de nós e nos apercebemos dessa mudança
- Trata-se de um conceito, não de uma coisa em si
- Dostoiewski evoca o último minuto de um condenado à morte para mostrar como um espaço tão breve chegou para pensar em tanta coisa, tornando-se comprido pela atenção que o condenado lhe prestou.
- O exemplo do condenado ilustra a dilatação subjetiva do tempo pela intensidade da atenção
- Distraídos do tempo e absorvidos por uma ocupação agradável, um minuto nasce e logo morre sem que se dê pela sua existência, ao passo que um minuto de sofrimento, com a mão num ferro em brasa, parece eterno.
- O ponteiro mais pequeno do relógio, observado com atenção, revela que a contagem dura mais do que habitualmente se pensa
- A atenção é a medida interior do tempo
- Na juventude os anos são lentos não por infelicidade, mas por se cismar em algo longínquo e desejado — o fim da escola, o emprego, o dinheiro, a independência ou a glória — enquanto na idade madura e na velhice os anos deslizam depressa uns atrás dos outros, quase juntos.
- A vida presente, longe de absorver a atenção, torna-se quase interminável por dentro
- Na casa dos sessenta, pergunta-se em sobressalto: já?
- Devido a hábitos e situações adquiridas, sem mudanças sensíveis, os anos nascem e morrem sem que se dê por isso.
- A ausência de mudança suprime a percepção do tempo interior
- No Céu o tempo não existe porque a felicidade preenche plenamente a consciência, e o tempo desaparece pois nem sequer se pensa nele nem se teme que haja um fim.
- A felicidade é a causa da extinção do tempo interior
- Mesmo em certos momentos deste mundo, na contemplação do que se ama, o tempo some-se da consciência, e no êxtase não há tempo interior para quem está nele.
- O êxtase suprime a percepção do antes e do depois
- O tempo psicológico desaparece na plenitude da felicidade porque nasce das mudanças sentidas e conforme as sentimos — sendo um conceito, não uma coisa em si, pode eclipsar-se.
- O tempo é um conceito que pode desaparecer: não uma realidade autônoma
- A eternidade, na acepção de uma extensão infinita de séculos lentos, não existe no Céu, mas sim no Inferno, na consciência dolorosa dos condenados.
- A eternidade como extensão é infernal; a eternidade como plenitude é celeste
- Um minuto repugnante dá a impressão de uma longa hora, e uma hora de felicidade ou um sono profundo deixa a impressão de um minuto, pois o tempo equivale à extensão interior da atenção que se lhe presta.
- Tudo depende da atenção prestada ao tempo
- O tempo é idêntico à extensão interior dessa atenção
- Daí deriva a relatividade psicológica do tempo, exemplificada na lenda hagiográfica dos sete dormentes de Éfeso: refugiados numa caverna, esses cristãos adormeceram por obra de Deus e, séculos depois, acordaram como após noites normais, dando bons-dias uns aos outros.
- Os sete dormentes só notaram a passagem de trezentos e setenta e dois anos quando um deles foi à cidade e não conheceu ninguém, nem corriam as moedas que trazia
- Fonte: Ho flos sanctorum em lingoajê portugues, Lisboa, 1513, fls. 108v.–109v.
- Trezentos e setenta e dois anos equivaleram, para eles, a uma noite — o tempo não existiu durante séculos nos sete dormentes de Éfeso
- A mesma relatividade aparece na lenda do monge e do passarinho, espalhada pela Europa e versificada nas Cantigas de Santa Maria: o monge, absorto, escuta o canto do passarinho misterioso enviado por Deus e julga ter escutado apenas um pouco, mas foram séculos de tempo externo.
- Afonso X, o Sábio: Cantigas de Santa Maria, t. 2, Coimbra, 1961, núm. 103 — lenda que entrou depois em autores portugueses, entre eles Bernardes
- Citação das Cantigas: “Como Santa Maria fez estar o monge trezentos anos ao canto da passarya, porque lle pedia que lle mostrasse qual era o ben que avian os que eran en Paraíso”
- Factos semelhantes encontram-se nas odisseias marítimas narradas pelos celtas
- Sobre o mar sem fim navegou o abade irlandês São Brandão com a sua marinhagem de religiosos, de cuja aventura existem apógrafos medievais em Portugal, sendo dito, segundo Zurara, que São Brandão passara pelo Cabo do Bojador.
- Mário Martins: Estudos de Literatura Medieval, Braga, 1956, pp. 18–33 — Viagens ao Paraíso Terreal
- Gomes Eanes de Zurara: Crónica dos Feitos da Guiné, t. 2, Lisboa, 1949, pp. 42–43
- As viagens de São Brandão de ilha em ilha foram estranhas: viram a Cidade Desabitada, desembarcaram na Ilha das Ovelhas Gigantes, subiram sobre um grande peixe pensando ser uma ínsua, escutaram a música de aves misteriosas do outro mundo e aportaram à Ilha de Ailbe, povoada por monges.
- Nas vastas águas assistiram à luta de morte entre duas serpentes e viram um dragão matar um grifo monstruoso
- Enquanto São Brandão cantava missa, os peixes cercaram a barca devotamente
- Sobre uma rocha martelada pelo mar descansava Judas, o traidor, e chegaram por fim à entrada do Paraíso, onde não havia fome nem sede nem calor nem rigor de Inverno nem precisão alguma.
- Foi precisamente ali que o tempo diminuiu e o dia se tornou mais curto
- Citação latina: “Cum enim Brandanus talia ibi prospexit gaudia, de brevitate diei nimium doluit, quia longam ibi cupiebat facere moram” — tradução: “Pois quando Brandano contemplou ali tais alegrias, sofreu muito pela brevidade do dia, porque desejava ali demorar-se longamente”
- Fonte: Vita Sancti Brandani Abbatis, em Traditio, t. 13, Nova Iorque, 1957, p. 343
- São incontáveis as histórias da contração do tempo nessas viagens maravilhosas e na contemplação fascinante do Paraíso Terreal, com palácios encantados, frutas saborosas, aves falantes — ora anjos, ora almas penadas — e a sensação de estar entre dois mundos, o real e o irreal.
- Howard Rollin Patch: El otro mundo en la literatura medieval, México/Buenos Aires, 1956, pp. 45–46
- Na Aventura de Teigue, filho de Cian, o herói navega sobre os mares, descobre ilhas de pássaros desconhecidos e chega à Ilha do Lago Vermelho, um dos quatro paraísos terrestres, onde permanece o que lhe parece um dia, mas na verdade é um ano inteiro, sem comer nem beber.
- Howard Rollin Patch: El otro mundo en la literatura medieval, pp. 52, 55, 67 — outras lendas de redução do tempo interior
- São Amaro entra numa cidade à beira do mar, constrói um barco e parte com alguns mareantes, descobrindo a Ilha da Terra Deserta a sete dias e sete noites de distância, onde escuta uma voz misteriosa que o manda embarcar de novo.
- Passa o Mar Vermelho e aporta à Ilha da Fonte Clara, onde as pessoas viviam trezentos anos e morriam de velhas, sem dor nem doenças
- Três semanas habitou São Amaro na Ilha da Fonte Clara, depois andou perdido no mar, a nave ficou presa nas águas geladas à mercê das bestas fortes marinhas, e por fim desembarcou na Ilha dos Ermitães, seguindo depois para um mosteiro chamado Vale de Flores.
- Um velho frade chamado Leonátis recomenda-lhe que remassem ao longo da ribeira do mar até um porto de só três casas
- Nesse porto, São Amaro distribui tudo pelos companheiros e encontra dois ermitães que lhe falam de uma religiosa — dona Baralides — que descobrira o Paraíso Terreal
- São Amaro continua pelo vale e encontra o Mosteiro da Flor das Donas, alto e formoso, onde dona Baralides lhe ensina o caminho do Paraíso Terreal.
- Fonte: Ho flos sanctorum em lingoajê portugues, Lisboa, 1513, fls. 66–69v.
- Pela margem de um grande rio, cujas águas traziam frutas e nobres flores, erguia-se ao longe um castelo único no mundo, com quatro torres principais, um rio saindo de cada uma, e à frente o mais rico tendilhão do mundo, com arco de rubis e paredes de cristal, sem frio, calor, fome ou sede lá dentro.
- São Amaro permanece contemplando muito mais do que pensou, dirige-se à entrada e quer entrar, mas o porteiro não o deixa
- O porteiro abre um pouquinho as portas para São Amaro espreitar, e lá dentro estava a árvore da maçã que o primeiro pai comeu em dia aziago, com maravilhosas árvores, campos, flores e aves cujo canto faria mil anos parecerem um dia.
- Donzelas coroadas de flores, donzéis a tocar instrumentos, canções em louvor de Deus — toda a gente era feliz
- O porteiro, ao recusar a entrada, diz a São Amaro: “E tu, amigo, depois que aqui vieste, nem bebeste, nem mudaste as vestiduras, nem envelheceste”
- São Amaro chegara ali havia 266 anos e não dera por tanto tempo — e estivera desde então sem comer nem beber, sem que os anos deixassem vinco algum no seu corpo
- Trata-se do mundo céltico, que é também o nosso, e Godofredo de Viterbo narra no século XII que certos monges bretões encontraram uma estátua de bronze numa ilha perdida no mar que indicava a rota a seguir, continuando as aventuras pelo mar fora.
- Gaspar Frutuoso: Saudades da Terra, t. 1, Ponta Delgada, 1939, pp. 200–206 — regista a lenda anterior da existência de uma estátua na Ilha do Corvo a indicar a direção das Antilhas
- Ao regressarem, os monges viram que desaparecera a antiga igreja, eram já outros os monges e até mudara a cidade, com outro povo, novo bispo e leis diferentes — cem anos podiam parecer um dia, mas esses monges tinham envelhecido como de manhã para a noite, marcados cruelmente pelo tempo exterior enquanto por dentro se mantinha quase imobilidade.
- Versos latinos do poema sobre o regresso: “Não era a mesma igreja que primeiramente tinham. / Não era o mesmo abade, nem os monges como antes foram, / Não era a mesma cidade, nem o mesmo povo, nem as mesmas muralhas primeiras.”
- “Novo bispo havia, novo povo, nova comunidade da igreja, / Nova lei da pátria e novo rei para os príncipes, / As coisas antigas morreram, cada uma nasceu nova.”
- “Não reconheciam os lugares, nem os homens, nem a fala, / Em lágrimas romperam, guardando consigo a queixa, / Pois nem pátria nem homem conhecido havia.”
- “Os próprios que foram hoje de forma juvenis, / De manhã envelhecendo são de pele e pelos senis; / Decrépitos, vis e miseráveis se veem.”
- Howard Rollin Patch: El otro mundo en la literatura medieval, pp. 167–168
- Factos semelhantes surgem numa narrativa italiana do século XIV sobre a viagem de três monges ao Paraíso Terreal, cujos aparentes dias de viagem equivaliam a 700 anos ao regressarem.
- Howard Rollin Patch: El otro mundo en la literatura medieval, pp. 173–174
- A experiência relativista do tempo psicológico entrou na literatura de imaginação, por vezes em sentido contrário, na acepção de alargamento do tempo interior em vez de contração.
- O sentido inverso — a dilatação — complementa o fenômeno da relatividade temporal interior
- No capítulo 99 de Las Sergas de Esplandian, durante uma caçada, o autor desce em espírito a uma cova estranha onde jaziam encantados, à maneira do rei Artur, grandes personagens da cavalaria, e ao voltar a si encontrou-se de novo com o falcão nas mãos, parecendo-lhe ter-se distraído um pouco.
- Amadis de Gaula, Oriana, o cavaleiro Esplandião e sua mulher Leonorina — imperatriz de Constantinopla —, Carmela, D. Galaor, Briolanja e outras damas e senhoras de valia estavam encantados na cova
- O criado verificou que tal alheamento ou sono extático durara mais de três horas
- Cf. Biblioteca de Autores Españoles, t. 40, Madrid, 1857, pp. 497–501
- Conhecem-se também casos de distensão do tempo, como no capítulo 11 do Conde de Lucanor ou Libro de Patronio, de D. Juan Manuel, onde se descreve a aventura mágica do deão de Compostela e do nigromante D. Illan de Toledo, numa cova por baixo do Tejo, em que longos anos pareciam decorridos ao deão sendo na verdade pouco tempo fora.
- As perdizes lá estavam ainda à espera, por assar
- Cf. Biblioteca de Autores Españoles, t. 51, Madrid, 1860, pp. 379–380
- Nesse caso, há algo de parecido com certas distensões proféticas quando o vidente pode contemplar, em breves minutos, longos anos de história, com a impressão de muito tempo vivido sendo na verdade pouco.
- A distensão profética é uma modalidade da relatividade interior do tempo
- Cervantes, na sua paródia dos livros de cavalaria, recorda também a descida heróica de D. Quixote de la Mancha à tenebrosa Cova de Montesinos, onde viu Durandarte — flor e espelho de cavalaria — encantado pelas malas-artes de Merlim, e a senhora Belerma e outras pessoas de um mundo que não é bem o outro nem é este onde se vive.
- D. Quixote, Durandarte, Belerma, Merlim: personagens de Cervantes — Don Quijote de la Mancha, parte 2, cap. 23
- Pouco mais de meia hora andou o Cavaleiro da Triste Figura por aquelas profundezas e assevera ter visto ali anoitecer três vezes e amanhecer outras tantas, o que leva Sancho Pança a propor a única explicação aceitável.
- Citação de Cervantes: “talvez o que a nós nos parece uma hora deva parecer lá três dias com suas noites”
- Sancho Pança: personagem que, embora duvidando um pouco — ou até muito —, oferece a explicação mais razoável da dilatação temporal na cova
- Na Cova de Montesinos o tempo não andava em linha paralela com o Sol a girar pelo espaço como no mostrador de um relógio sempre certo, e o mesmo se diga das visões dos santos e dos momentos altos em que o tempo acaba para quem os vive, despertando a vontade de imobilizar o ponteiro do relógio naquela hora bendita.
- A personagem de Os Demônios que quer imobilizar o ponteiro do relógio encarna esse anseio de fixar o tempo na plenitude
- Em suma, o tempo não existe em si mesmo, e só o tempo psíquico aproxima experimentalmente da eternidade, quando desaparece e se fica absorto, sem antes nem depois.
- O tempo psíquico é a única via de acesso experimental à eternidade
- A condição é o desaparecimento do tempo interior — o absorvimento completo, sem consciência do antes nem do depois
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