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Tempo e Morte

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

A parábola do tempo e da morte

A parábola do homem, do unicórnio e da árvore é apresentada como uma ilustração da condição daqueles que se afastam de Deus e se entregam aos prazeres mundanos, esquecendo-se da morte espiritual.

  • Os que servem a um senhor duro e malicioso (o mundo) e se distanciam do Senhor Deus são comparados a um homem que foge de um unicórnio e cai em uma cova.
  • O homem, para não cair no fundo da cova, segura-se em uma pequena árvore, mas percebe os perigos ao redor: dois ratos roendo a raiz, quatro serpentes consumindo a árvore, um dragão no fundo e uma espada pendurada sobre sua cabeça.
  • Diante de tanto perigo, o homem vê um pouco de mel destilando da árvore, esquece seus riscos e se dedica a comer do mel, até que a árvore cai, a espada o traspassa e o dragão o consome.

Interpretação dos elementos da parábola

Cada elemento da narrativa recebe uma interpretação simbólica que remete à morte, ao mundo, ao tempo e aos perigos espirituais.

  • O unicórnio, besta cruel que persegue todos, representa a morte, que não perdoa ninguém.
  • A cova é este mundo, e a árvore simboliza a medida da vida humana.
  • Os dois ratos (um branco e um negro) são o dia e a noite, que roem e diminuem continuamente a árvore da vida.
  • As quatro cabeças de serpente (áspides) representam os quatro humores do corpo (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra), cujo destempero dissolve o corpo.
  • O dragão no fundo da cova é o diabo, e o fundo da cova é o Inferno.
  • A espada é a sentença do estreito juízo, e o fio que a pendura é a misericórdia de Deus.
  • A destilação do mel simboliza a deleitação carnal, e a queda do homem é o fim da vida.

A relação entre tempo, morte e consciência

A parábola é chamada de “parábola do tempo e da morte”, evidenciando a perseguição implacável da morte e a dependência do homem em relação ao tempo irreversível.

  • A morte persegue como fera implacável, e o homem pende da árvore roída pelo dia e pela noite (o tempo irreversível).
  • Os quatro humores, na medicina antiga, são o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra, cujo desequilíbrio leva à morte do corpo.
  • Morre-se de si mesmo e por si mesmo, como um círio que se consome, sendo o homem destinado a morrer.
  • A consciência do existir-para-morrer equivale à sabedoria.
  • O dia e a noite gastam o tempo, e o destempero dos humores gasta o corpo, desfazendo a linha vital do existir.
  • Quando o dia e a noite cortarem as raízes da árvore da vida, Cronos (o Tempo) morrerá para o indivíduo, mas continuará a consumir outras vidas.

O paradoxo entre o prazer imediato e a morte certa

Apesar da consciência da morte, o instinto humano prende-se ao mundo e busca o prazer imediato, esquecendo os perigos.

  • Embora se veja que o arrancar da árvore equivale a morrer, o instinto prende o homem a este mundo.
  • Procede-se como se o tempo efêmero e a morte implacável não existissem, estendendo a mão faminta para saborear a gota do mel do prazer.
  • Lembra-se do pensamento de Fernando Pessoa: “Sus! deixai brincar os moribundos!”

A necessidade do equilíbrio diante dos opostos

O paradoxo da vida corresponde ao paradoxo do tempo, que envolve realidades opostas como valor e desvalor, verdade e mentira, sendo necessário equilíbrio para não paralisar as energias nem se reduzir a um ser pedestre.

  • Pensar demais no desvalor da vida terrenal paralisa as energias que prendem ao mundo e impelem o progresso material.
  • Olhar unicamente para a beleza sedutora do mundo como se fosse eterna reduz o homem a um ser pedestre, sem asas para escapar ao tempo e à cova do mundo.
  • Uma coisa certa e segura é a mão de Deus, como o leito do rio em relação às águas.

Origens e variações da parábola entre diferentes obras

A parábola do Horto do Esposo deriva de Jacques de Vitry, mas seus elementos variam conforme a obra, sendo o essencial as figuras do tempo e da morte perseguindo o homem.

  • A parábola do Horto do Esposo deriva de Jacques de Vitry, mas a origem pouco importa.
  • Falta a espada na Vida de Barlaão e Josafá, em Calila y Dimna, no Libro de los Gatos e nos Gesta Romanorum.
  • O Libro de los Gatos fala de maçãs em vez de mel, talvez por analogia com a maçã do Paraíso Terrestre.
  • No Libro de los Gatos, as folhas da macieira significam as lindas palavras e os belos vestidos, enquanto as maçãs representam os prazeres do mundo (comer, beber e fermosas mujeres).
  • A versão castelhana de Calila y Dimna menciona o dragão no fundo do poço, mas omite a referência direta ao Inferno, conservando a forma essencial de parábola da morte inevitável: “e fize semejanza de la serpienta ala muerte, que ninguno non puede escusar”.
  • A referência indireta à morte existe na resolução do homem de entrar em religião para chegar ao Céu, onde a morte não tem lugar, nem a dor.

A antinomia cristã e a vida como ilusão temporal

Toda a vida cristã está cifrada no trágico paradoxo entre o esquecimento da morte pelo prazer e a amargura causada pelo pensamento da morte, levando os ascetas a desiludir a temporalidade humana.

  • Sete palmos de terra e uma mortalha bastam para quem não cabia no mundo.
  • Toda a vida cristã se encontra cifrada no paradoxo: um favo de mel faz esquecer a morte; o pensamento da morte torna amargo o favo de mel.
  • Os ascetas foram descarnando a ilusão da vida humana no que ela tem de mera temporalidade, até reduzi-la a um esqueleto — o esqueleto universal da Dança Macabra.

A lenda de Barlaão e Josafá como parábola do sofrimento

A lenda oriental de Buda, transposta em cristão na Vida de S. Barlaão e S. Josafá, chegou ao Ocidente em versão de códice alcobacense e nos Flos Sanctorum, sendo considerada uma parábola do sofrimento, do tempo e da morte.

  • Josafá, vivendo em existência palaciana, ao ver pela primeira vez um cego e um leproso, constatou que havia desgraças e doenças entre os homens, ficando muito triste.
  • Noutra ocasião, ao encontrar um velho à beira da estrada, Josafá espantou-se ainda mais, concluindo que ou se morre cedo ou se envelhece miseravelmente para depois morrer.
  • Os pensamentos de Josafá mudaram completamente, e seu coração libertou-se do mundo ilusório, alumiado pela luz da morte.
  • O pensamento da morte levava os discípulos de S. Barlaão a trazer consigo ossos de esqueletos humanos.
  • A velhice é o tempo na sua extremidade, e a essa lenda de fontes budistas pode-se chamar parábola do sofrimento, do tempo e da morte.
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