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Tapetes mágicos

PULLMAN, Philip. Daemon Voices: On Stories and Storytelling. Edited by Simon Mason. London: David Fickling Books, 2017.

Tapetes mágicos

As responsabilidades do escritor

Sobre os diversos tipos de responsabilidade que cabem a um autor: para consigo mesmo e sua família, para com a língua, para com seu público, para com a verdade e para com a própria história

1. Diante do tema dos tapetes mágicos e das perspectivas internacionais proposto pela conferência, a reflexão desloca-se para algo que, embora não trate diretamente desse tema, se apresenta com a maior veracidade possível: a responsabilidade.

2. A responsabilidade merece exame atento porque se relaciona com os rumos do mundo e com a questão de saber se o ofício, a arte ou o artesanato da escrita contribui de algum modo para a luta contínua por um mundo melhor ou se é, em última análise, trivial e irrelevante, havendo entre as concepções possíveis um extremo soviético, que via o escritor como engenheiro de almas humanas obrigado a produzir o que o Estado exige, e outro representado por Oscar Wilde, para quem não há livros bons ou maus, apenas bem ou mal escritos, sendo toda arte inteiramente inútil, embora o próprio livro que traz essa declaração no prefácio, O retrato de Dorian Gray, seja uma das histórias mais morais já escritas, o que revela que até Wilde reconhecia em parte a função social e ética da arte.

3. A arte, a literatura e a literatura infantil não habitam uma torre de marfim, mas fazem parte inextricável do mundo inteiro, e dessa inserção decorrem diversos tipos de responsabilidade.

4. O assunto a tratar é, portanto, a responsabilidade de quem conta histórias, sua extensão, as direções em que se projeta e o ponto em que termina.

5. A primeira responsabilidade é de ordem social e financeira, partilhada com muitos outros cidadãos, e consiste em cuidar da família e dos dependentes, algo evocado por um anúncio aterrorizante da Pearl Assurance que contava uma pequena história lida sempre por inteiro e que, à luz do conceito de catarse aprendido muitos anos depois, revelou ter produzido uma purgação pela piedade e pelo terror.

6. O anúncio compunha-se de cinco desenhos do rosto de um homem, o primeiro deles aos 25 anos, mostrando um jovem de olhos brilhantes, saudável, otimista e cheio de vigor, que dizia num balão de fala ter ouvido que o emprego não oferecia aposentadoria.

7. Cada desenho seguinte mostrava o homem dez anos mais velho e com uma fala diferente, aparecendo aos quarenta e cinco anos sombrio, enrugado e carregado de responsabilidades a lamentar que o emprego não dava direito a aposentadoria, e terminando aos sessenta e cinco anos como um velho alquebrado, abatido e de olhar desvairado, diante do abismo da pobreza e da decrepitude, a confessar que, sem aposentadoria, não sabia o que faria.

8. Sem qualquer intenção de vender planos de previdência, cabe insistir que todo escritor deve ser devidamente remunerado e vender seu trabalho pelo maior valor decentemente obtenível, sem constrangimento, ainda que pessoas sensíveis e sentimentais, sobretudo jovens, se choquem ao saber que livros são escritos para ganhar dinheiro, e de preferência muito dinheiro.

9. No início da carreira todos os escritores são pobres, obrigados a trabalhar em outro emprego durante o dia e a escrever à noite, situação muito menos romântica do que parece a quem não a vive, pois a preocupação constante e persistente com extratos bancários, hipotecas e contas é um péssimo estado de espírito para a escrita, drenando a energia, distraindo e enfraquecendo a concentração, de modo que a única vantagem de ser pobre e desconhecido é o anonimato, assim como o único problema de ser rico e famoso é a fama.

10. Quando escrever e contar histórias passa a render dinheiro, surge a responsabilidade, perante a família e os dependentes, de fazê-lo da melhor e mais lucrativa forma possível, e um conselho útil aos jovens escritores é cultivar a fama, ainda que sem fundamento, de gostar muito de dinheiro, pois quem negocia com eles pensará duas vezes antes de oferecer pouco, além de que exigir pagamento justo beneficia outros escritores em suas futuras negociações com escolas, festivais ou prisões, sendo que aquilo que o dinheiro realmente compra é segurança, espaço, paz, sossego e tempo.

11. A responsabilidade seguinte de quem escreve e conta histórias diz respeito à língua, pois, uma vez adquirida consciência de seu funcionamento e da relação com ela, não é mais possível fingir inocência ou tratá-la como algo que simplesmente acontece, e assim como os seres humanos podem afetar o clima podem também afetar a língua, cabendo aos que a usam profissionalmente zelar por ela, à maneira do bom trabalhador que ensina ao aprendiz o cuidado com as ferramentas: afiar as lâminas, lubrificar os rolamentos, limpar os filtros.

12. A importância de possuir um bom dicionário, ou de preferência vários, dispensa explicação, já que os escritores costumam ser fascinados por palavras e adquirir cedo o hábito de consultá-las, e, como as palavras mudam e possuem história além do significado atual, convém reunir tantas obras de referência quanto o espaço permitir, antigas e desatualizadas inclusive, usá-las habitualmente e orgulhar-se de acertar, preferindo-se ainda os livros à internet, e havendo prazer genuíno em perceber uma dúvida gramatical, consultá-la e fazê-la funcionar corretamente.

13. Diante de quem considera tolice preocupar-se com detalhes como um particípio solto, sob o argumento de que poucos percebem e a maioria entende o sentido de qualquer maneira, existe uma resposta eficaz: se a maioria não nota quando se erra, tampouco se incomodará quando se acerta, e o acerto ainda agradará aos poucos que conhecem e valorizam essas questões, deixando todos satisfeitos.

14. Um exemplo simples é a confusão irritante entre may e might, como na frase de que sem a decodificação de Bletchley Park a Grã-Bretanha may well have lost a Segunda Guerra Mundial, como se houvesse dúvida sobre o desfecho, quando o correto seria might, forma que expressa a hipótese não realizada, de modo que, ao ver alguém acertar em tais casos, cresce a confiança na língua que essa pessoa emprega.

15. Os personagens podem falar da maneira que se desejar, recurso que outrora servia a escritores esnobes para distinguir personagens dignos de admiração dos tratados com condescendência, prática já em parte superada, e quando um autor contemporâneo como Neil Gaiman, no admirável Coraline, percebe a diferença entre bored with e bored of e a emprega com precisão brilhante para marcar não uma diferença de classe, mas de geração, demonstra exatamente essa responsabilidade para com a língua.

16. Além das palavras, é preciso cuidar das expressões e das locuções idiomáticas, desenvolvendo sensibilidade para a própria fala e instalando uma pequena campainha mental que soe diante de expressões de segunda mão ou desgastadas pelo uso, procurando sempre empregar a língua para iluminar, revelar e esclarecer, e não para obscurecer, enganar e ocultar, de modo que ela esteja mais segura nas mãos de quem escreve do que nas dos políticos e que, no mínimo, não fique mais pobre, desajeitada ou imprecisa.

17. A meta deve ser sempre a clareza, pois a tentação de julgar profunda uma passagem obscura é enganosa, já que em águas turvas o fundo pode estar a apenas um centímetro da superfície sem que se perceba, sendo muito melhor escrever de modo que o leitor enxergue até o fundo, desde que ali haja coisas interessantes a observar, uma vez que contar uma história implica conceber acontecimentos interessantes, ordená-los da melhor maneira para evidenciar suas conexões e narrá-los com a maior clareza possível, e o acerto nessa última etapa impede disfarçar qualquer falha na primeira, que é na verdade a mais difícil e a mais importante.

18. No campo da linguagem imaginativa e das imagens ricas e inventivas, o perigo a evitar é justamente o excesso de cautela, nunca guardando uma boa imagem por julgá-la engenhosa demais para o livro em curso, atitude oposta à do grande Leon Garfield, que punha o melhor de sua imaginação em tudo o que escrevia, como se vê em The Pleasure Garden (1976), na descrição da proprietária do Mulberry Garden, a viúva Mrs Bray, cujo luto lhe conferia um volume misterioso a ponto de não se saber onde ela terminava e a noite começava, ao lado do magérrimo Dr Dormann, semelhante a uma mera fatia de homem arrancada dela por uma porta batida sem cuidado.

19. Existe uma linguagem de fast-food e uma linguagem de caviar, e cabe aos adultos apresentar às crianças os prazeres do sutil e do complexo, sendo um bom método deixá-las ver o prazer que os adultos sentem com isso e então proibi-las de tocar, alegando que é adulto demais, forte demais, capaz de enlouquecê-las com desejos estranhos e incontroláveis, pois se isso não despertar sua vontade de experimentar, nada despertará.

20. A honestidade emocional constitui outra responsabilidade, que proíbe recorrer a um crédito emocional ao qual a história não tem direito, como num romance familiar medíocre que introduziu gratuitamente o tema do Holocausto apenas para arrancar lágrimas e enxertá-las no livro, já que a resposta emocional do leitor é algo precioso, quase uma dádiva, e ele precisa poder confiar no estímulo que a provoca, sendo perfeitamente possível, embora difícil, escrever com honestidade sobre o Holocausto, a escravidão ou outros horrores humanos, mas as histórias devem conquistar as próprias lágrimas, e não furtá-las de outro lugar.

21. Quanto ao puro ofício de representar, descrever e narrar o que aconteceu, o cineasta e dramaturgo David Mamet formulou a pergunta fundamental de toda narrativa: onde colocar a câmera.

22. Refletir sobre essa pergunta fascinante e insondável faz parte da responsabilidade para com o ofício, pois, tomando a cinematografia como metáfora da narração e considerando os 360 graus de espaço em torno de cada assunto e a infinidade de posições possíveis, das mais próximas às mais distantes e das mais baixas às mais altas, o grande diretor e o grande contador de histórias parecem saber imediatamente e sem hesitação qual é a melhor posição, vendo-a com a mesma clareza com que se vê que as folhas são verdes.

23. O bom diretor escolhe uma entre as meia dúzia de melhores posições, enquanto o mau diretor, sem saber, desloca a câmera, mexe nos ângulos, tenta tomadas engenhosas e maneiras rebuscadas de narrar, esquecendo que a função da câmera não é chamar atenção para si mesma, mas mostrar outra coisa, o assunto, com a maior clareza possível.

24. Na realidade, os grandes diretores apenas parecem saber de imediato a melhor posição, pois os cadernos de grandes escritores e compositores estão repletos de hesitações, erros e rasuras, e talvez a verdadeira diferença esteja na persistência até encontrar o melhor lugar para a câmera, cabendo aos que não são nem muito bons nem muito maus a responsabilidade de imitar os melhores, observá-los de perto, procurar emulá-los e tomar os maiores como modelo.

25. Uma atitude que se pode chamar de tato exige modéstia de quem conta histórias, sem supor que o interesse do leitor pela história implique interesse por quem a conta, devendo o narrador ser invisível, o que se garante tornando a história tão interessante que ele simplesmente desapareça, como demonstra a experiência de estudantes de magistério incentivados a contar histórias em sala sem ler de um livro, que, temerosos de se derreter em constrangimento diante dos olhares infantis, descobriam com espanto que funcionava, porque as crianças olhavam não para quem contava, mas para a história contada, que se tornava muito mais eficaz com a invisibilidade do narrador.

26. Encontrar uma boa história é tarefa ao alcance de todos, pois há milhares delas no mundo e qualquer jovem professor pode adquirir umas três dúzias e conhecê-las bem o bastante para contar uma por semana ao longo do ano letivo, merecendo reconhecimento os que coletam contos populares e os devolvem ao público, como Jane Yolen em Favorite Folktales from Around the World, além de Alan Garner, Kevin Crossley-Holland, Neil Philip e Katharine Briggs, graças aos quais as tradições orais, que pareciam à beira da extinção, sobrevivem em novas gerações de contadores, muitos dos quais encontram suas histórias não na avó ou no velho do bar, mas nos livros.

27. As histórias nada têm de exclusivo, esnobe ou distante e sentem-se em casa em qualquer lugar, de modo que hoje um contador irlandês pode aprender histórias australianas, um africano contar histórias indonésias e um polonês narrar histórias inuítes, e se transmitir a experiência da própria cultura é um dos deveres primordiais do contador, restringir-se a ela por julgar ilegítimo apropriar-se da experiência alheia seria um erro, pois uma cultura que nunca encontra outras torna-se primeiro introvertida, depois estagnada e por fim apodrecida, cabendo aos contadores trazer correntes novas de histórias de todo o mundo, acolher experiências de toda parte e oferecer a própria em troca.

28. A invisibilidade também importa na transmissão da história, pois os melhores contadores são os que têm tato e não sobrecarregam o público com sua autoconsciência, seja simples nervosismo diante de uma plateia, seja uma complexa angústia intelectual pós-modernista sobre a instabilidade dos significantes e a relação escorregadia entre texto e enunciação, devendo tudo isso ser posto de lado em favor de dizer o que aconteceu, quem fez o quê e o que veio depois, enfrentando o constrangimento pela simples atitude de fingir que ele não existe, forma de tato que lembra o dever de cortesia para com leitores e ouvintes.

29. Daí decorre a responsabilidade para com o público, e, sabendo que entre os leitores há crianças, embora não apenas crianças, já que todo livro infantil é também lido por adultos, coloca-se a questão de qual deve ser a atitude adotada e onde reside a responsabilidade.

30. Comentaristas pouco informados, mas barulhentos, afirmam que livros infantis não deveriam tratar de sexo, drogas, violência, homossexualidade, aborto ou abuso infantil, embora os tabus mudem com o tempo, como mostra o fato de que há poucas gerações era raro um livro infantil abordar o divórcio, e em sentido contrário sustenta-se que as crianças deveriam encontrar nos livros tudo o que podem realisticamente encontrar na vida, já que conhecem esses assuntos, falam sobre eles, fazem perguntas e às vezes os vivem em casa.

31. Seja o que for representado nas histórias, é preciso mostrar que as ações têm consequências, como ilustra o romance Junk (1998), de Melvin Burgess, vencedor da Carnegie Medal, que provocou previsível tempestade de controvérsia na imprensa, mas que constitui uma história profundamente moral, por mostrar que a tentação é de fato tentadora e que as ações acarretam consequências.

32. Outra forma de responsabilidade para com o público leva alguns escritores a evitar uma visão demasiado sombria do mundo e a deixar sempre um vislumbre de esperança, postura que tem seu mérito, mas sem esquecer que também a tragédia eleva quando mostra o espírito humano em sua melhor forma, conforme a máxima de Samuel Johnson de que o verdadeiro propósito da escrita é permitir ao leitor desfrutar melhor a vida ou suportá-la melhor, dois tipos de ajuda de que crianças e adultos igualmente necessitam.

33. O que vale para a representação da vida em geral vale também para a representação das pessoas, responsabilidade definida com perfeição por Walter Savage Landor ao advertir contra visões desfavoráveis da humanidade, que fazem os maus acreditarem não ser piores que os outros e ensinam aos bons que são bons em vão, pois o cinismo fácil não é mais verdadeiro que o otimismo fácil, embora pareça sê-lo aos jovens.

34. Ao retratar personagens que lutam para fazer o bem e o fazem, ou que, tentados pela fraqueza ou pela ganância, resistem, os contadores oferecem aos leitores amigos cuja boa conduta e cujo apreço pela coragem, constância ou generosidade alheias fornecem uma imagem de como agir bem, deixando assim o mundo, espera-se, ao menos não pior do que o encontraram.

35. Num sentido mais simples e básico, a responsabilidade para com os leitores envolve as numerosas cartas que eles enviam, e se não há dúvida para quem recebe a primeira carta de fã, respondida com o entusiasmo de saber-se amado por alguém, a quantidade cresce com a notoriedade e responder individualmente a cada criança consome cada vez mais tempo, impondo a questão de continuar ou não a responder do mesmo modo, independentemente do volume e do tempo exigido.

36. A questão é difícil, porque o contato entre contador e leitor é muito próximo e pessoal, sobretudo do lado do leitor, que sabe quem ele é e quem é o escritor, enquanto este só conhece a si mesmo, e nenhuma frustração se compara à de receber uma carta maravilhosa de uma criança que esqueceu de incluir o endereço, quando ela anseia por uma resposta, a merece, o escritor deseja dá-la e teme ser considerado mesquinho e arrogante se não o fizer.

37. Até pouco tempo nada se podia fazer nesses casos, mas a carta de uma menina americana que falava de si, de seu amor pelos livros e do violino que tocava, encaminhada pela editora sem o envelope, pôde ser respondida graças à sugestão de pesquisar seu nome no Google, que revelou uma escola na Pensilvânia anunciando um concerto com solo de violino dela, permitindo enviar a resposta aos cuidados da escola.

38. Tudo isso, porém, consome tempo, cada vez mais escasso à medida que os livros alcançam mais leitores, e se vale a pena dedicar alguns minutos a buscas desse tipo, há menos empenho diante de cartas escritas por obrigação escolar, que exigem resposta sob pena de nota baixa, pedem fotografia e exemplar autografado e perguntam de onde vêm as ideias, qual a cor favorita, se há animais de estimação e o que é uma luneta, ou como a de um menino que, estudando obituários, pediu detalhes da morte desejada, de preferência a mais dramática possível, recebendo a resposta de que seria preferível deixar a natureza seguir seu curso, embora todas as cartas acabem respondidas com o tempo.

39. Quase por último, cabe prestar atenção ao que a imaginação se sente à vontade para fazer, como no caso de quem, por razões profundamente enterradas, considera o realismo um modo superior à fantasia, mas ao escrever realisticamente se move com botas de chumbo, enquanto a ideia de pequenas criaturas com esporões venenosos montadas em libélulas faz as botas caírem e brotarem asas nos calcanhares, tendência que pode ser lamentada, mas não negada, pois às vezes a natureza fala com mais sabedoria que as convicções e só se trabalha bem ouvindo o que ela diz.

40. A responsabilidade mais importante, mais difícil de explicar e mais intensamente sentida, que todo contador deve reconhecer e que se sobrepõe a todas as outras, é a responsabilidade para com a própria história, percebida no hábito de curvar os ombros para proteger o trabalho de olhares curiosos ou, no computador, de manter um grande espaço em branco ao pé do arquivo para exibir apenas uma tela vazia caso alguém entre, gestos de proteção de algo frágil e fugidio que só se mostra a quem escreve por confiar que será mantido nessa condição meio resolvida e meio informe, longe do escrutínio alheio, cujo olhar poderia fazê-lo fugir de vez ou fixá-lo num estado diferente daquele que desejava alcançar.

41. Existe, portanto, uma responsabilidade protetora, um papel de guardião, quase de pai ou mãe, pois a história, antes mesmo de ganhar palavras, personagens ou incidentes definidos, quando é apenas um pensamento, o mais evanescente fiapo de coisa, parece ter batido à porta ou sido deixada na soleira, e não resta alternativa senão cuidar dela.

42. Daí resulta, quase contra a vontade, a impressão de que as histórias vêm de outro lugar, ideia difícil de racionalizar para quem não acredita em nenhum outro lugar além deste, sendo possível que a história venha do inconsciente, sem que isso altere em nada a responsabilidade de cuidar dela e protegê-la de interferências enquanto ela ganha segurança e se assenta na forma que deseja.

43. A história de fato deseja e sabe com firmeza o que quer ser, ainda que não se expresse com clareza, avançando facilmente numa direção e resistindo com firmeza a outra sem que se saiba por quê, restando aceitar sua autoridade, e é nesse ponto que a responsabilidade assume a forma de serviço, não de servidão ou de labuta vergonhosa imposta sem piedade, mas de serviço livre, justo, voluntário e honroso, de modo que ser servo da história é motivo de orgulho.

44. Como bom servo, quem escreve deve cumprir horários regulares de trabalho, antecipar para onde a história quer ir e facilitar seu avanço por meio da pesquisa em bibliotecas, de conversas com pessoas e da busca de informações, manter-se sóbrio nas horas de trabalho, conservar a saúde, evitar compromissos em excesso, já que ninguém pode servir a dois senhores, e guardar os segredos da história, pois revelá-los seria grave quebra de confiança, a ponto de a única forma de sobreviver a uma oficina de escrita criativa parecer ser escrever duas histórias, uma falsa para submeter à crítica da turma e outra verdadeira, trabalhada em silêncio e mantida em segredo.

45. É preciso também estar preparado para certa teimosia e excentricidade do patrão, já que as clássicas histórias de amo e criado retratam o amo como o louco levado de um lado a outro pelos ventos do impulso ou da paixão e o criado como a âncora prosaica do bom senso, padrão bem-sucedido demais para ser contrariado, o que obriga a esperar da história certo grau de loucura.

46. Como no diálogo em que o criado adverte que aquilo são moinhos de vento e não gigantes, o amo insiste que são gigantes e promete dar conta deles, e o criado acaba concordando que gigantes eles são, por mais tolo que pareça, a história sabe o que é melhor.

47. Por fim, o servo fiel precisa saber quando deixar a história sair de suas mãos e ter muito cuidado com as mãos a que a confia, sendo uma sorte encontrar bons editores, ou saber conduzi-la até eles, e o último e mais responsável ato do servo da história é reconhecer quando nada mais pode fazer e admitir que outros olhos talvez a vejam com mais clareza, pois tornar-se grandioso a ponto de recusar a edição, como fizeram alguns escritores, é ser um mau servo, e não um bom.

48. A responsabilidade não esgota a relação com o trabalho, que seria uma vida penosa se feita apenas de dever e cuidado, pois há um amor genuíno pelo ofício e alegrias incomparáveis: a emoção de uma ideia nova repleta de promessas e possibilidades, a revelação súbita da solução após longo período de reflexão, perplexidade e frustração, o deleite quando um personagem diz algo espirituoso demais para ter sido pensado por quem escreve, o prazer lento e constante do acúmulo regular de páginas e a satisfação honesta do trabalho bem-feito, seja uma virada da trama habilmente conduzida, um diálogo que revela o caráter enquanto faz avançar a história ou um padrão de imagens que ecoa e esclarece discretamente o tema do livro inteiro.

49. Essas alegrias são profundas e duradouras, e há alegria também na própria responsabilidade, no saber que o que se faz na terra, enquanto se vive, é feito com o máximo da capacidade e à luz de tudo o que se conhece sobre o bom e o verdadeiro, pois a arte, de qualquer espécie, assemelha-se à música misteriosa descrita pelo maior de todos os escritores, feita de sons e doces melodias que deleitam sem ferir, e carregar a responsabilidade de deleitar sem ferir é um dos maiores privilégios humanos, que se deseja exercer até o fim da vida.

50. A palestra foi proferida na conferência do Grupo de Escritores e Ilustradores Infantis da Society of Authors, em Leeds, em setembro de 2002.

51. Outras responsabilidades se impõem, sobretudo diante das enormes mudanças no mercado editorial e livreiro desde então, entre elas a de preservar o melhor da edição, como a atenção editorial cuidadosa, a manutenção de catálogos de títulos intermediários e de fundo e o respeito e entendimento mútuos entre autor e editor, bem como o melhor do comércio de livros, como o conhecimento e o entusiasmo dos livreiros independentes, livres de pressões comerciais opressivas que conduzem à mesmice insossa de um estoque restrito, já que o mundo dos livros não é um conjunto aleatório de interesses isolados, mas uma ecologia viva, ou ao menos foi e deveria continuar sendo, e sempre que for possível interferir em qualquer campo em favor da virtude, existe a responsabilidade de fazê-lo.

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