2 Mito
BIRZER, Bradley J. J. R. R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle Earth. 1st ed ed. New York: Regnery Publishing, 2023.
Mito e Subcriação
1. No verão de 1972, pouco mais de um ano antes de morrer, Tolkien pediu que a lápide da esposa recém-falecida trouxesse o nome Lúthien e reservou para a própria o nome Beren, revelando que via Edith, inspiração juvenil da bela elfa que renuncia à imortalidade terrena por amor e combate ao lado do amado contra o pai zombeteiro e contra Morgoth, ao mesmo tempo em termos históricos e mitológicos, pois mitologizava quase tudo na vida, recusava-se a escrever uma biografia ordenada por exprimir o que sentia de mais profundo em contos e mitos e cultivava uma mente intrincadamente medieval, voltada ao mito e ao mistério, convicta de que o mistério nos cerca, de que a modernidade deformou essa percepção e de que mitologizar o mundo amplia a visão da beleza e da sacramentalidade da criação e permite que ideias e amores transcendam o tempo e o espaço.
2. O amor ao mito, com o qual Tolkien lutou ao longo da vida adulta e de boa parte da infância, constituiu a ponte entre sua obra acadêmica e sua ficção, já que, filólogo cuja obra inteira era filológica, ele não distinguia passatempo de dever, achava os próprios deveres divertidos e falava, segundo um antigo aluno, de acontecimentos imaginados como se possuíssem a mesma realidade da Revolução Francesa ou da Segunda Guerra Mundial.
3. Os mitos exprimem verdades muito maiores do que os fatos históricos, e os mitos santificados e inspirados pela graça funcionam como anamnese, pela qual um povo recorda encontros com o transcendente que ordenaram sua alma e sua sociedade, podendo, herdados ou criados, oferecer um súbito vislumbre da Verdade, uma breve visão do céu, ou ao menos revelar a vida que os homens deveriam ter levado antes da Queda.
4. O primeiro aspecto fundamental da mitologia de Tolkien é sua imensa complexidade e sutileza, que a torna convidativamente real e assombrosamente completa para quem a aprecia, sendo O Silmarillion, O Hobbit e O Senhor dos Anéis apenas manifestações ou fragmentos do mundo mitológico da Terra-média que de modo algum esgotam sua história, a ponto de o idoso escritor considerar, para espanto dos entrevistadores dos anos 1960, que o maior defeito de uma obra de mais de mil páginas era ser curta demais, e de os doze volumes da História da Terra-média organizados por Christopher Tolkien atestarem uma criatividade imensa, quase avassaladora.
5. O legendário constitui uma única entidade revelada ao longo do tempo, na qual O Silmarillion e O Senhor dos Anéis formam uma mesma história inseparável e incompreensível quando dividida, com mais de seiscentas referências da primeira obra na segunda, como mostram Sam ao perceber, diante da luz do frasco de Galadriel às portas de Mordor, que ele e Frodo continuam no mesmo conto de Beren e da Silmaril, e Aragorn ao responder ao cavaleiro de Rohan que é possível caminhar ao mesmo tempo em lendas e sobre a terra verde à luz do dia, pois quase não há diferença entre história e mito nem entre o historiador e o menestrel, e este pode compreender as complexidades da vida muito melhor do que o historiador preso a seus arquivos e a seu mundo especializado e estreito.
6. Essas passagens, além de unir as duas grandes manifestações da Terra-média, advertem que a luta contra o mal deve prosseguir até o fim dos tempos, pois os grandes contos jamais terminam, embora as pessoas neles entrem e saiam quando sua parte se cumpre, e o mundo mítico, anterior ao mundo histórico e ligado ao conto de um mundo caído, nunca chega de fato ao fim antes do Apocalipse.
7. O segundo aspecto fundamental é a firme convicção de que Deus é o autor da história da Terra-média em todas as suas manifestações e de que Tolkien apenas servia como escrivão do mito divino, esperando saber o que realmente acontecera ou que a história se escrevesse sozinha, concordando com o parlamentar britânico que lhe disse não ter sido ele o autor de O Senhor dos Anéis e reconhecendo no Escritor da História a Pessoa sempre presente e nunca nomeada, tarefa de registro recebida como dom supremo e coerente com a ideia, partilhada com Lewis e antecipada por Chesterton, de que Deus fala pela mente dos poetas, de que os mitos pagãos são Deus exprimindo-se por meio das imagens que neles encontrou e de que a história de Cristo é simplesmente um mito verdadeiro.
8. A palavra hobbit ilustra o modo como a inspiração costumava chegar, pois surgiu quando Tolkien, corrigindo enfadonhamente provas, encontrou uma folha em branco e nela escreveu, sem nunca ter ouvido ou usado o termo, que num buraco no chão vivia um hobbit, e Bilbo Bolseiro simplesmente vagou para dentro da mitologia maior, assim como O Senhor dos Anéis nasceu apenas da tentativa de continuar de onde O Hobbit havia parado, já que havia hobbits nas mãos de seu criador.
9. As próprias histórias e a mitologia frequentemente intrigavam Tolkien, levando-o a escavar cada vez mais fundo a Terra-média em busca de respostas, e uma das manifestações mais perturbadoras desse registro foi a chegada inesperada do Espectro do Anel logo no início de O Senhor dos Anéis, guinada não premeditada que o inquietou tanto quanto aos hobbits assustados e transformou rapidamente uma deliciosa e caprichosa continuação infantil de O Hobbit numa narrativa adulta, às voltas com questões teológicas e filosóficas de enorme alcance e sutileza.
10. Outras personagens apresentaram-se sem que houvesse tempo de tratá-las em detalhe, como Berúthiel, mencionada brevemente por Aragorn na travessia de Moria e sobre a qual nada de certo se sabia, a ponto de suscitar numa entrevista um longo palpite espontâneo sobre sua identidade e seu ódio aos gatos, como Círdan, guardião dos Portos Cinzentos, que permaneceu personagem menor e pouco desenvolvida, e como os dois Magos Azuis chegados com Gandalf, Saruman e Radagast, que simplesmente desaparecem do legendário e talvez tenham sido corrompidos por Sauron ou fundado religiões de mistério e cultos gnósticos no Oriente, sendo espantoso que um mundo tão complexo e verossímil, dotado de coerência interna da realidade e de cultura, religião, política, lei, povos, línguas, topografia e clima próprios, não contenha mais pontas soltas.
11. A imaginação imensamente fértil de Tolkien foi moldada pelo amor à linguagem, semente linguística de todo o mito, já que, sendo linguista para quem tudo é linguístico e por isso tão cuidadoso com os nomes, ele começou ainda criança a inventar línguas para captar o modo estético das que aprendia e descobriu que uma língua não pode existir no vazio nem ser cortada pela metade, precisando ganhar vida, de modo que as línguas vieram primeiro e o país depois.
12. Desde a primeira infância Tolkien amou as línguas e nelas se destacou, embora raramente se dedicasse à que deveria estudar, preferindo o galês e o inglês quando devia estudar latim e grego e o finlandês quando devia concentrar-se no inglês, estudando ainda na adolescência espanhol, francês, anglo-saxão, nórdico antigo, gótico e galês, e, ao trabalhar no Oxford English Dictionary após a Primeira Guerra Mundial, recebeu de seu superior, Henry Bradley, o elogio de possuir um domínio do anglo-saxão e da gramática comparada das línguas germânicas sem igual entre os homens de sua idade.
13. A partir dos treze anos Tolkien criou línguas próprias, das quais as mais detalhadas e complexas seriam as élficas, o sindarin e o quenya, não algaravias arbitrárias, mas idiomas realmente possíveis, com raízes, leis fonéticas e flexões coerentes, nos quais derramou todo o seu poder imaginativo e filológico, fonte da riqueza e da concretude que o distinguiram de todos os demais filólogos por ter estado dentro da linguagem, modelando o élfico sobre o que o celta poderia ter se tornado caso evoluísse de outro modo, a partir do fascínio infantil por nomes galeses, e fazendo cada língua divergir em caminhos distintos a partir de uma estrutura primitiva comum, por mudanças semelhantes às das línguas conhecidas, de modo que o hino a Elbereth e o lamento de Galadriel possuem modos e prosódias inteiramente diferentes.
14. As línguas inventadas logo se tornavam enfadonhas quando nada lhes conferia peso, significado e profundidade, reduzindo-se a meros jogos mentais e abstrações complexas, pois dar sabor individual a uma língua exige tecer nela os fios de uma mitologia individual, que opera dentro do esquema natural da mitopoese humana assim como a forma das palavras opera dentro dos limites da fonética humana, e, inversamente, a construção de uma língua gera uma mitologia.
15. A linguagem sem história pouco significa, e não é possível abstrair uma língua da cultura ou do povo a que pertence.
16. Owen Barfield, outro Inkling, formulou o que Tolkien desejava argumentar sobre mito e linguagem, mas ainda não havia articulado intelectualmente em meados dos anos 1920, ao sustentar em Poetic Diction, de 1928, que a linguagem deriva da mitologia, e não o contrário, concepção da antiga unidade semântica que, segundo carta de Lewis, modificou toda a perspectiva de Tolkien e o deteve a tempo em suas aulas, havendo também da parte de Barfield forte afinidade com as noções tolkienianas sobre o mito.
17. Não há como reconstruir o momento em que Tolkien percebeu que a derivação da linguagem a partir do mito valia para sua vida, sua obra acadêmica e seu legendário, já que sua própria datação das origens da Terra-média recuou cada vez mais com a idade e tudo o que leu e absorveu passou a fazer parte dele e da grande mitologia, assim como as imagens retidas na memória são combinações de cenas vividas em circunstâncias diversas e com pessoas diferentes, que se fundem numa imagem tida por fiel ao lugar lembrado, embora não o seja.
18. Clyde Kilby, que no verão de 1966 ajudou Tolkien a organizar seus papéis para reescrever O Silmarillion, sustentou que a Terra-média pode ter surgido já por volta dos catorze anos, e o próprio Tolkien atribuiu a origem de toda a sua mitologia aos arrebatadores versos de Cynewulf no poema Crist, que saúdam Eärendel como o mais brilhante dos anjos enviado aos homens, palavras que lhe provocaram a estranha emoção de algo meio despertado do sono, remoto, belo e muito além do inglês antigo, e que ele tentou compreender numa composição apresentada no Oxford Essay Club em 1914 antes de incorporar uma versão élfica de Eärendil à mitologia maior.
19. Ainda que suas origens sejam obscuras, grande parte da mitologia inicial foi construída e posta no papel durante a Primeira Guerra Mundial, quando Tolkien, angustiado com a guerra mecanizada e desumanizada das trincheiras e oficial confessadamente pobre e indisciplinado, concebeu O Silmarillion em cantinas imundas, palestras sob névoa fria, barracas cheias de blasfêmia e obscenidade e abrigos sob fogo de artilharia, encontrando no esboço da mitologia alívio e catarse para exprimir e racionalizar seus sentimentos sobre o bem e o mal, o belo e o sórdido, experiência que gerou Morgoth, despertou plenamente seu amor pelos contos de fadas e deixou trechos da obra escritos no verso de documentos oficiais do exército.
20. Os parâmetros da mitologia estavam definidos em 1926, e os escritos posteriores constituíram compreensões, revelações e manifestações sucessivas dela, inclusive os contos de Arda e da Terra-média, que surgiam na mente como coisas dadas e iam se interligando num trabalho absorvente e sempre interrompido, acompanhado da sensação de registrar o que já estava lá, e não de inventar, em consonância com o sentido latino original de invenção como descoberta e com a autocompreensão dos filólogos como verdadeiros historiadores que desvelam os significados mais profundos de uma cultura, embora tal descoberta fosse tanto teológica quanto linguística.
21. Mesmo admitindo-se que a mitologia tenha sido recebida como forma de revelação, o vasto conhecimento das mitologias germânica, romana, grega e até norte-americana a informou profundamente, sobretudo a literatura do norte europeu, com a Edda Poética islandesa, o Kalevala finlandês, a poesia anglo-saxã, George MacDonald e G. K. Chesterton como influências mais evidentes, somando-se outras menos óbvias, como o interesse pelos sobrenomes rústicos do Kentucky, entre eles Barefoot, Boffin e Baggins, ouvidos de um colega de Oxford, e as Leatherstocking Tales de James Fenimore Cooper, cujos ecos de canoas, travessias, florestas e pradarias aparecem na jornada da Sociedade de Lórien a Tol Brandir e em Aragorn e Éomer.
22. A mitologia permaneceu privada, conhecida apenas pela família e por um assistente de pesquisa, até o encontro com C. S. Lewis em meados dos anos 1920, que reagiu com entusiasmo e deleite à leitura da gesta de Beren, espantado por existir semelhante escrita, recebeu até 1930 grande parte dos poemas, contos em prosa e mapas, passou a admirar a essência cristã da obra após sua conversão, em boa medida devida a Tolkien, chegou a usá-la, para desgosto do amigo, como pano de fundo da Trilogia Espacial e de partes das Crônicas de Nárnia e desempenhou papel decisivo ao incentivar incessantemente a publicação, a ponto de Tolkien reconhecer que, sem esse interesse e essa avidez por mais, jamais teria concluído O Senhor dos Anéis.
23. Os ensaios “Os Monstros e os Críticos” e “Sobre Contos de Fadas”, concebidos como duas partes de um mesmo argumento e proferidos respectivamente na Academia Britânica em 25 de novembro de 1936 e na Universidade de St. Andrews em 8 de março de 1939, iluminam a visão da mitologia em geral e da própria mitologia de Tolkien, sendo o segundo especialmente explicativo de seu pensamento, a ponto de O Senhor dos Anéis ter sido escrito, segundo ele, para demonstrar grande parte de seu argumento.
24. O estudo de Beowulf, poema quase inteiramente memorizado e tido como um dos grandes momentos da história ocidental por alguém que se sentia espírito afim do poeta anônimo, tornou-se referência obrigatória na crítica do poema, louvado por Seamus Heaney como a publicação que mudou o modo de valorizá-lo, e demonstra que a obra importa tanto ao historiador e ao teólogo quanto ao professor de inglês, primeiro porque contém um dragão, criatura rara na literatura medieval cuja presença, personificando malícia, cobiça e destruição, deve ser levada a sério, e segundo porque ninguém dedicaria mais de três mil versos de alta poesia a algo indigno de atenção, sendo o tom elevado e a dignidade prova de uma mente nobre e reflexiva.
25. A maior força de Beowulf reside em manter o tema implícito, e não explícito, evitando a alegoria formal e encarnando o cenário no mundo da história e da geografia, pois tornar o sentido explícito demais destruiria a poesia e o significado, ao passo que o poeta anônimo situou corajosamente o herói mortal num mundo hostil para ser destruído no tempo, mesclando lenda e história e fazendo da mortalidade no estado decaído do pecado um dos temas centrais do poema.
26. O poeta de Beowulf, certamente cristão e contemporâneo da lenta difusão do cristianismo na Inglaterra, entrelaçou belamente as virtudes pagãs e a teologia cristã para mostrar que nem tudo o que era pagão devia ser descartado, cabendo ao cristão abraçar e santificar as virtudes mais nobres da mente pagã nórdica, a coragem e a vontade bruta, já que a imaginação mitológica do norte enfrentou o problema do mal pondo os monstros no centro, dando-lhes vitória sem honra e encontrando uma solução poderosa e terrível na vontade e na coragem nuas, espírito capaz de reviver ainda hoje e do qual um cristianismo vigoroso necessita, assim como o influxo germânico, com a religiosidade dos mitos nórdicos e a inquietação dos povos migrantes, irrompeu na história como lança arremessada ao infinito e, assimilado à afirmação cristã, produziu o imenso impulso medieval de romper os limites do mundo.
27. A santificação do melhor do mundo pagão reflete o pensamento de Santo Agostinho, que mandava reivindicar para uso cristão tudo o que os filósofos disseram de verdadeiro e harmônico com a fé, tirando-o de seus possuidores ilegítimos, e que na Cidade de Deus recorreu a Cícero e Platão para mostrar a compatibilidade de um cristianismo florescente com um mundo pós-romano estável, prenunciado por Clemente de Alexandria, para quem as fés pré-cristãs eram ensino preparatório e a filosofia serviu de pedagogo dos gregos rumo a Cristo, assim como a lei preparou os judeus, de modo que Platão e Aristóteles abriram caminho ao cristianismo à semelhança de Abraão e Moisés.
28. O poeta de Beowulf seguiu o conselho de Clemente e Agostinho ao apropriar-se do melhor da cultura pagã e santificá-lo como cristão, projeto tido por essencialmente cristão, como ilustra a observação, feita durante um passeio no bosque ao encontrar uma celidônia, de que as combinações de ave-marias e pais-nossos rezadas ao colher a flor substituíram as runas que antigamente se pronunciavam antes de apanhá-la.
29. Com a chegada e a aceitação do cristianismo muda a compreensão da natureza do bem, mas a natureza do mal permanece a mesma, pois os monstros não partem, venham ou vão os deuses, e o cristão continua, como seus antepassados, um mortal cercado por um mundo hostil, enquanto os monstros seguem inimigos da humanidade, infantaria da velha guerra, e tornam-se inevitavelmente inimigos do Deus único.
30. A verdadeira batalha continua sempre, através do tempo e do espaço, a luta entre a alma e seus adversários, e, como Beowulf descobre, o salário do heroísmo, cristão ou pagão, é a morte, vontade de Deus para os homens bons cujo exemplo supremo é Cristo, seguido pelos mártires da Roma pagã.
31. Em 1939, na Escócia, a conferência “Sobre Contos de Fadas” começa com uma ressalva decisiva: o reino dos contos de fadas é vasto, profundo e alto, repleto de feras e aves, mares sem praia e estrelas sem conta, beleza que é encantamento e perigo constante, alegria e tristeza afiadas como espadas, e quem nele vagueia pode julgar-se afortunado, mas sua riqueza e estranheza travam a língua do viajante que deseja relatá-las, e fazer perguntas demais ali é perigoso, sob pena de os portões se fecharem e as chaves se perderem.
32. A análise erudita do reino encantado só se faz com risco para a própria história, porque, como a tradição, o mito e os contos de fadas são coisas frágeis.
33. Apenas um acidente da história recente fez os contos de fadas parecerem destinados às crianças, adaptação que também ocorre com a música, a poesia, os romances, a história e os manuais científicos, e essa relegação ao quarto infantil é perigosa para adultos e crianças, pois tais contos exigem uma mente capaz de separar fato e fantasia, algo que as crianças, cujo conhecimento do mundo é pequeno demais para distinguir o fantástico, o estranho, o absurdo e o meramente adulto, ainda não conseguem, desejando antes conhecer a realidade, o perigoso e o seguro, o bom e o mau, ainda que o menino Tolkien desejasse dragões com desejo profundo, sem querê-los na vizinhança, por saber que um mundo que contém ao menos a imaginação de Fáfnir é mais rico e belo, a qualquer custo de perigo.
34. A fantasia não pertence à categoria do devaneio ou do transtorno mental, mas exige a mais alta qualidade de mente e, em última instância, de caráter, sendo atividade humana natural que não destrói nem insulta a Razão, nem embota o apetite pela veracidade científica ou obscurece sua percepção, já que quanto mais aguda e clara a razão, melhor a fantasia produzida, e se os homens chegassem a não querer ou não poder perceber a verdade dos fatos e das evidências, a Fantasia definharia até sua cura ou pereceria convertida em Delírio Mórbido.
35. O homem decaído pode perverter os contos de fadas, a fantasia e o mito, convertendo-os em instrumentos de propagação do mal, razão pela qual a fantasia deve permanecer na imaginação mental e na palavra escrita, pois levá-la às artes visuais animadas, como o cinema ou o teatro, resulta necessariamente em tolice ou morbidez.
36. Apesar de seus muitos perigos e das grandes possibilidades de incompreensão no mundo moderno, o esforço de entrar no reino encantado vale a pena e pode ser até necessário à sobrevivência do homem moderno, porque os contos de fadas e a fantasia, como formas elevadas de arte, iluminam a vasta herança legada pelos antepassados, renovam o assombro diante das coisas banalizadas, revelando a potência das palavras e a maravilha da pedra, da madeira e do ferro, da árvore e da relva, da casa e do fogo, do pão e do vinho, numa provável alusão à Eucaristia e à transubstanciação, e permitindo ver as coisas como deveriam ser vistas, e oferecem uma fuga não da realidade, com sua vida e morte, conforto e desconforto, mas da monotonia, do conformismo e da mecanização da modernidade e do sonho progressista que reduz a complexa realidade a uma sombra das verdadeiras maravilhas da criação.
37. Acima de tudo, os contos de fadas e a fantasia permitem ao escritor agir como subcriador, artista feito e criador à imagem do Criador supremo, chamado a criar com a maior prodigalidade possível, já que quem inventa um mundo inteiro adora a Deus mais eficazmente do que o mero realista, mas, por sermos decaídos, inquietos e propensos ao orgulho, até os bem-intencionados podem perverter o dom da criatividade e transformar a arte em poder a serviço de si, como exemplifica Fëanor, o maior dos elfos, dotado por Ilúvatar do Espírito de Fogo, que cria as três Silmarils com a luz das Duas Árvores, Telperion e Laurelin, e, possessivo de sua subcriação embora ela contenha uma luz além de sua capacidade de criar, recusa entregá-las aos regentes angélicos quando Morgoth destrói as Árvores e deixa os Poderes sem luz.
38. O melhor conto de fadas e a melhor subcriação proporcionam a eucatástrofe, a alegria inesperada, fugaz vislumbre da Alegria para além das muralhas do mundo, evangelium raro que talvez não se repita numa vida inteira, e o conto de fadas supremo, o mito verdadeiro, é a encarnação, crucificação e ressurreição de Cristo, cuja alegria cristã, a Gloria, é da mesma espécie, porém infinitamente mais alta, pois no coração do cristianismo está um mito que também é fato, o antigo mito do Deus que morre descendo, sem deixar de ser mito, do céu da lenda à terra da história, de modo que na Encarnação a arte foi verificada, Lenda e História se encontraram e se fundiram com a vinda de Deus ao Tempo, e o envio do Espírito Santo revela o mistério da autoria pelo qual o autor, permanecendo fora e independente de sua obra, também nela habita, em plano derivado, como fonte e garantia de seu ser.
39. A questão da alegoria permanece uma das mais espinhosas no estudo de Tolkien, pois, ao surgir O Senhor dos Anéis, resenhistas difundiram rapidamente suposições equivocadas, como a de que Sauron representaria Hitler ou Stálin, de que o Anel e seu poder supremo simbolizariam as novas e temíveis armas atômicas que moldavam o pós-guerra ou de que a obra inteira representaria a Segunda Guerra Mundial.
40. A mitologia não serve de alegoria, não possui significado interior ou mensagem intencional nem caráter alegórico ou tópico, como declara o prefácio de A Sociedade do Anel, e a alegoria é rejeitada e detestada onde quer que se perceba, pelo temor, já expresso em “Os Monstros e os Críticos”, de que explicitar demais o sentido destrua a arte e o significado mais profundo da obra, já que a essência do mito consiste em não ter mancha alguma de alegoria para quem o cria e, ainda assim, sugerir alegorias incipientes a quem o lê.
41. Ainda assim, as histórias contêm juízos morais explícitos e implícitos, necessários num mundo que parecia descer ao caos e a uma nova idade das trevas, e as crenças e a visão de mundo de Tolkien foram comunicadas sob a veste mítica e lendária, na medida em que cada pessoa é uma alegoria que encarna, num conto particular e vestida com as roupas do tempo e do lugar, a verdade universal e a vida eterna.
42. A Terra-média representa a Europa de um passado remoto anterior à história registrada, pois o termo anglo-saxão designa a terra entre os oceanos, a Europa cristã, com Rhûn como o Oriente da Ásia, da China e do Japão, Harad e o sul como a África e o Condado como a Inglaterra, e o legendário nasceu do desejo de dar uma mitologia à Inglaterra, terra pobre de mitos próprios, já que a lenda arturiana era galesa e excessivamente marcada pelo cristianismo e pelos bretões e Beowulf tratava de dinamarqueses e geatas, desgosto diante de mitos quase todos galeses, escoceses, irlandeses, franceses ou alemães, enquanto os ingleses só tinham coisas como João Matador de Gigantes, que levou à decisão de criar um mito e ao desejo de dedicar O Silmarillion à rainha Elizabeth II com a observação de que a mitologia era a única riqueza que faltava ao seu país.
43. Os hobbits representam o melhor dos anglo-saxões anteriores à invasão normanda, pois, como os ingleses formados por jutos, anglos e saxões, os hobbits, formados por Pés-Peludos, Grados e Cascalvas, migraram do leste e ocuparam terras que pertenceram a um poder maior já desaparecido, e outros elementos anglo-saxões aparecem nos Rohirrim, que seriam anglo-saxões desenvolvidos numa cultura equestre, na cerimônia da entrada de Gandalf no Paço Dourado, espelho da entrada de Beowulf no grande salão, e no nome da Marca, antiga tradução de Mércia, numa fusão do afeto pelos anglo-saxões com a estima pela cultura guerreira dos indígenas norte-americanos de Cooper, preferidos a Alice no País das Maravilhas e A Ilha do Tesouro por oferecerem vislumbres de um modo arcaico de vida e, sobretudo, de florestas.
44. Grande parte do sentimento pró-inglês, e não britânico, nasceu da mudança na infância da África do Sul para a Inglaterra, pois as primeiras lembranças africanas pareciam estranhas, e a chegada ao campo inglês, aos três ou quatro anos, trouxe ao mesmo tempo o sentimento nativo e o assombro pessoal de quem chega de fora, de modo que a Terra-média se baseia no maravilhamento e no deleite diante da terra tal como é, particularmente da natureza.
45. Concebido originalmente como mito para a Inglaterra, o legendário cresceu muito em alcance e significado até tornar-se, sobretudo em O Senhor dos Anéis, um mito para a restauração da própria cristandade, na esteira dos intrépidos missionários anglo-saxões, em especial São Bonifácio de Crediton, que levaram as tradições clássicas e cristãs ao coração da Europa pagã e bárbara, converteram inúmeros povos unindo-os sob Roma e coroaram Pepino, gesto que conduziria ao reconhecimento papal de Carlos Magno como imperador em 800, de modo que o retorno do rei Aragorn ao trono legítimo se assemelha ao restabelecimento de um Sacro Império Romano efetivo com sede em Roma, numa equivalência entre Gondor e a Itália registrada em diários e cartas, como a chegada à cabeça da cristandade qual exilado das províncias distantes voltando à casa dos pais e as férias em Gondor, isto é, Veneza, centralidade de Roma coerente com a convicção de que a Reforma foi a responsável última pelo mundo moderno secularizado.
46. O mito também serve para atenuar o ressurgimento do nacionalismo, pois, conforme Lord Acton, o fim da cristandade significaria a ascensão nacionalista, uma vez que o cristianismo se alegra com a mistura das raças, enquanto o paganismo se identifica com suas diferenças, sendo a verdade universal e os erros variados e particulares, e fazer coincidir em teoria Estado e nação leva a exterminar, escravizar, proscrever ou subordinar os considerados inferiores.
47. A mitologia é um instrumento profundo para moldar os objetivos, as visões de mundo e as ações dos homens, a ponto de quem não crê na história cristã como fato, mas dela se alimenta continuamente como mito, poder estar mais vivo espiritualmente do que quem a aceita sem nela pensar muito, e os criadores de mitos, tendo visto a Morte e a derrota final, recusam-se a recuar no desespero, convertem muitas vezes a lira em vitória, inflamam os corações com fogo lendário e iluminam o Agora e o sombrio Passado com a luz de sóis que ninguém ainda viu.
