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Bradley Birzer

BIRZER, Bradley J. J. R. R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle Earth. 1st ed ed. New York: Regnery Publishing, 2023.

Introdução

1. Entrar no reino encantado, compreendido como uma visão sacramental e litúrgica da criação, significa abrir-se à descoberta gradual da beleza, da verdade e da excelência, acesso concedido apenas por convite e sempre sob risco, pois as verdades ali encontradas superam o entendimento meramente humano e reduzem as maiores obras do homem a quase nada diante da majestade da criação, experiência ao mesmo tempo humilhante e exaltante, conforme a convicção firme de J. R. R. Tolkien.

2. Em “Smith de Wootton Major”, último conto publicado em vida por Tolkien, um homem comum e caridoso, agraciado no décimo aniversário com o dom de forjar objetos de extraordinária beleza, recebe por esse batismo da aurora um convite ao reino encantado, onde se descobre o menor dos seres, deixa-se seduzir a ponto de passar dias contemplando uma única árvore ou flor e enfrenta maravilhas e mistérios tão avassaladores que, diante dos terríveis marinheiros élficos que retornam vitoriosos das batalhas nas Marcas Sombrias, cai prostrado de medo enquanto eles passam cantando em triunfo.

3. A prostração de Smith diante de visões grandiosas não visa diminuir sua importância, mas indicar o lugar dele e da humanidade inteira na economia da criação, pois, assim como Chesterton afirmou que o homem se sente mais livre ao curvar-se e mais alto ao inclinar-se, é a compreensão do transcendente que permite a Smith tornar-se plenamente homem, ensinamento sustentado por Tolkien ao longo de toda a vida.

4. O reino encantado constitui um dos melhores caminhos para compreender o dom da graça, ao revelar como sacramento e liturgia permeiam a lei natural e a ordem natural, ligando a pessoa ao próprio passado e ordenando sua compreensão do universo moral, tal como em “Sir Gawain e o Cavaleiro Verde”, cuja vitalidade e tensão provêm de mitos antigos, cultos e símbolos remotos, o que confirma não haver meio melhor de ensino moral do que o verdadeiro conto de fadas, enraizado e narrado como história, e não como alegoria moral disfarçada.

5. Além de ensinar verdades superiores, o reino encantado une as pessoas em duas espécies de comunidade, a deste tempo e lugar e a que transcende todos os tempos e lugares, porque beleza e terror são realidades ligadas a um mundo espiritual verdadeiro, e tocá-las, ainda que em dúvida ou fantasia, desperta as coisas profundas da alma.

6. O mito, do qual o reino encantado é uma espécie, ocupa lugar marginal no mundo moderno, mas isso depõe contra a modernidade, e não contra o mito, que pode ser justamente o remédio capaz de salvar o mundo moderno de si mesmo, como sugere o poema “Mythopoeia”, em que, à maneira das Bem-Aventuranças, são declarados bem-aventurados os criadores de lendas que não esqueceram a Noite nem convidam a fugir para os prazeres organizados, para as ilhas de lótus da felicidade econômica e para as seduções falsificadas e produzidas por máquinas.

7. O mito transmite verdades profundas que resistem à descrição e à análise por meio de fatos e números, tornando-se arma mais poderosa para a renovação cultural do que a ciência e a tecnologia racionalistas modernas, pois exalta a beleza da criação divina e a natureza sacramental da vida, responde a uma época enferma de utilitarismo e literalismo que clama por mitos e parábolas como verdade transcendente, e ensina homens e mulheres a serem plenamente humanos, e não meras engrenagens da imensa máquina da sociedade tecnológica moderna.

8. Imaginativo não equivale a imaginário nem a subjetivo no sentido moderno de falso, já que todo artista verdadeiro sente, consciente ou inconscientemente, tocar verdades transcendentais cujas imagens são sombras de realidades vistas através do véu, e o místico natural, embora não saiba com certeza que algo existe por trás das nuvens ou dentro das árvores, crê que a busca da beleza é o caminho para encontrá-lo e que a imaginação funciona como uma espécie de encantamento capaz de invocá-lo.

9. Além de abrir caminho para as verdades mais altas, o mito desempenha papel vital em qualquer cultura por unir os membros das comunidades, uma vez que a lenda, criada pela maioria sensata da aldeia, merece mais respeito do que o livro de história escrito pelo único louco do lugar, e os povos partilham símbolos e mitos que dão sentido à sua existência e os ligam a uma ordem transcendente, de modo que quem não tem simpatia pelos mitos não tem simpatia pelos homens e torna-se impossível separar os homens de seus mitos.

10. Muitos contemporâneos, numa estranha aliança entre adeptos da modernidade secular e fundamentalistas cristãos que a abominam, rejeitam a importância do mito, pois para o modernista formado no pragmatismo de James e Dewey o mito é mentira por escapar aos sentidos e à verificação científica, sendo característica central da modernidade a diluição da realidade ricamente sentida e imaginada e sua substituição por falsificações baratas, signos e substitutos, enquanto para o pós-modernista o mito não passa de uma narrativa subjetiva entre outras, desprovida de qualquer importância transcendente.

11. Para os fundamentalistas religiosos, os mitos também são mentiras e rivais perigosos da verdade cristã, capazes de desviar os incautos até as garras do inferno, razão pela qual julgam inútil estudar a Saga dos Volsungos ou Homero quando os Evangelhos bastam para a salvação, concluindo que todo mito provém do diabo e que os antigos deuses e semideuses da Grécia, de Roma e do norte da Europa eram apenas demônios disfarçados.

12. Mesmo os mitos pagãos buscavam exprimir as verdades maiores de Deus e possuem o poder de servir como anamnese, trazendo à consciência antigas experiências do transcendente, mas permanecem perigosos enquanto pagãos e precisam ser santificados e postos a serviço de Deus, como ilustra a lenda de São Bonifácio, que derrubou o carvalho sagrado de uma tribo germânica em cujo lugar brotou um pinheiro iluminado com velas, origem da árvore de Natal, motivo de batismo do pagão repetido ao longo da história na fixação do Natal e da Páscoa em festas pagãs, no discurso de São Paulo sobre o Deus Desconhecido, na releitura cristã de Platão e Cícero por Santo Agostinho, na síntese entre Aristóteles e o cristianismo por Santo Tomás de Aquino e na construção de igrejas e mosteiros sobre antigos lugares sagrados pagãos, como o grande montículo-templo de Cahokia.

13. O papel do homem na santificação do mundo é cooperativo e limitado, pois, preso à sua materialidade, ele apenas vislumbra as coisas mais altas e as imita de modo pobre, como Smith percebe ao constatar que a boneca venerada por sua aldeia é mesquinha diante da Rainha do Reino Encantado, que o consola dizendo ser melhor uma pequena boneca do que nenhuma memória do Reino Encantado, já que para alguns ela é o único vislumbre e para outros o despertar, vislumbre da verdade, da beleza e da excelência para além do mundo tangível que conduz à alegria verdadeira chamada eucatástrofe.

14. Em toda a mitologia da Terra-média, de O Silmarillion a O Senhor dos Anéis, afirma-se obstinadamente que a esperança do mundo moderno reside no retorno a alguma forma de Res Publica Christiana, cuja configuração permanece incerta, porque não cabe ao homem planejar o universo, mas empregar os dons recebidos de Deus em benefício de todos, assim como Edmund Burke ensinou que o tremendo Autor do nosso ser é também o autor do nosso lugar na ordem da existência e nos dispôs segundo Sua vontade para desempenharmos o papel que nos foi atribuído.

15. Pela reflexão sobre verdade, razão, ciência, arte e mito e pela esperança de renovação da cristandade e de fim do terror ideológico do século XX, Tolkien integra o grupo dos humanistas cristãos, ao lado de T. S. Eliot, C. S. Lewis, Christopher Dawson, Eric Voegelin, Russell Kirk e Romano Guardini, os quais indagam qual é o papel da pessoa humana na criação divina e como o homem nela se ordena, sustentando, contra o humanismo antropocêntrico, secular, renascentista ou iluminista, que só se compreende a posição do homem no mundo reconhecendo-o criado à imagem de Deus e sujeito às leis natural e divina, grupo do qual Tolkien deve ser contado entre os maiores pensadores e porta-vozes.

16. Os sete capítulos da obra percorrem sucessivamente uma breve biografia de Tolkien, a natureza do mito e do reino encantado com suas ideias acadêmicas sobre mito e linguagem e o propósito de reviver a coragem nórdica infundindo-lhe a doutrina cristã da graça para restaurar uma cristandade autêntica, as concepções do Bem e da ordem criada com o papel de Deus/Ilúvatar e os simbolismos sacramentais do legendário, o dever do homem nessa ordem a partir de Gandalf, Aragorn, Faramir, Frodo e Sam como arquétipos dos heróis ocidentais, a concepção do mal, a filosofia política diante da modernidade e das ideologias perversas do século XX e, por fim, o legado de Tolkien e o poder de sua mitologia para reavivar a compreensão da reta razão.

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