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folktale:tolkien:flieger:contos-de-fadas:1.2

1.2 Realidade

FLIEGER, Verlyn. There would always be a fairy tale: more essays on Tolkien. Kent, Ohio: The Kent State University Press, 2017.

Recriando a realidade

1. Toda ficção proporciona alguma forma de escape, pois conduz a personagens, acontecimentos e mundos existentes apenas na obra, de maneira que a diferença entre narrativas realistas e fantásticas depende sobretudo da extensão de seu afastamento da realidade observável.

2. A desqualificação do escapismo como preferência infantil pela ilusão desconsidera que a experiência adulta do mundo pode tornar a fantasia especialmente valiosa como reconfiguração da realidade, embora sua legitimidade como leitura para adultos continue sujeita a controvérsias.

3. As críticas de Edmund Wilson e Germaine Greer associam o interesse por Tolkien à imaturidade e à regressão, deslocando a avaliação literária para a desqualificação do público e convertendo uma diferença de gosto em suposta evidência de inadequação intelectual.

4. A apreciação da literatura imaginativa depende mais de disposições individuais do que da idade, enquanto o afastamento proporcionado pela fantasia pode produzir perspectiva e renovar a percepção do cotidiano, permitindo reconhecer mais claramente o familiar depois do encontro com o extraordinário.

5. A reflexão sobre a fantasia deve ser compreendida como investigação descritiva de seus procedimentos e efeitos, oferecendo critérios para relacionar a prática ficcional de Tolkien à sua teoria e examinar sua influência sobre a produção posterior.

O ensaio

1. A função dos contos de fadas inclui a criação de um mundo secundário ao qual se pode ter acesso, e o sentido medieval de aventura acentua que essa passagem envolve exposição ao perigo, ao desconhecido e ao sobrenatural no domínio de Faërie.

2. Faërie reúne o processo de produzir encantamento, o mundo imaginativo criado por esse processo e o estado mental de quem o experimenta, constituindo um conceito dinâmico que articula atividade artística, configuração narrativa e experiência do leitor.

3. O escape oferecido pela fantasia depende do reconhecimento rigoroso dos fatos do mundo primário, mas esse reconhecimento não exige submissão à realidade observável, cujos materiais podem ser reorganizados para produzir possibilidades distintas.

4. Os mundos ficcionais realistas e fantásticos compartilham a condição de construções imaginativas fundadas em elementos reconhecíveis, de modo que a Londres de Sherlock Holmes e a Terra-média diferem pelo grau de correspondência com lugares existentes, sem pertencer a categorias ontológicas opostas.

5. A linguagem constitui o instrumento da subcriação porque permite separar qualidades de seus objetos habituais e recombiná-las em formas novas, mas a liberdade de imaginar exige coerência interna para que o mundo secundário permaneça convincente e renove a percepção do mundo primário.

6. A recuperação consiste em restabelecer uma visão clara do que a familiaridade tornou opaco, e as criaturas fantásticas podem favorecer esse processo ao tornar reconhecíveis aspectos humanos, inclusive nos orcs, cujas hostilidades, ressentimentos e modos de falar expõem comportamentos cotidianos desagradavelmente próximos.

7. A defesa do escape também reage à sujeira, à mecanização e à desumanização da sociedade industrial, distinguindo a procura legítima de liberdade e alívio da deserção moral e reconhecendo a força dessa necessidade diante da rápida destruição de formas rurais de existência.

8. As modalidades mais profundas de escape respondem a limitações constitutivas da condição humana, incluindo o desejo de explorar ambientes inacessíveis, comunicar-se com outras espécies e transcender a morte, aspirações às quais os contos oferecem realização imaginativa.

9. O consolo do final feliz alcança sua forma mais intensa na eucatástrofe, cuja reversão inesperada da ameaça em alegria depende da possibilidade efetiva de sofrimento e fracasso, pois somente a proximidade de um desastre torna significativa a experiência da libertação.

A ficção

1. O reconhecimento de O Hobbit e O Senhor dos Anéis como fantasias não justifica atribuir-lhes o mesmo público ou a mesma realização artística, pois a associação automática entre fantasia, conto de fadas e literatura infantil produz avaliações que ignoram suas diferenças de tom, complexidade e finalidade.

O Hobbit

1. O Hobbit dirige-se claramente a um público infantil e mobiliza elementos tradicionais dos contos de fadas, como a busca de um tesouro, um herói improvável e encontros com trolls, goblins e elfos, apresentando também o encantamento característico de Faërie.

2. A entrada no mundo secundário combina a estranheza do hobbit com hábitos domésticos reconhecíveis, estabelecendo uma realidade na qual cartas, cachimbos e tarefas esquecidas convivem com magos, animais falantes e objetos mágicos sem perder a sustentação no cotidiano.

3. A justaposição de convenções domésticas e elementos maravilhosos permite perceber cada conjunto de maneira renovada, de modo que um cumprimento dirigido a um mago transforma simultaneamente a banalidade da expressão e a distância habitual da figura sobrenatural.

4. A viagem de Bilbo reproduz internamente a passagem do leitor ao mundo encantado, mas também constitui uma descoberta de si, pois a saída da segurança doméstica desperta disposições aventureiras reprimidas e converte o encontro com Faërie em transformação psicológica.

5. A presença dos elementos tradicionais não assegura uma eucatástrofe inteiramente convencional, porque a narrativa muda de tom ao alcançar a Montanha Solitária, aproximando-se da épica e deslocando a morte do dragão do protagonista para Bard, personagem introduzida mais tarde.

6. O desenvolvimento final aproxima o mundo secundário de questões contemporâneas de cobiça, política, alianças e guerra, fazendo a cooperação entre povos rivais depender da ameaça de inimigos comuns e deixando transparecer a memória de um conflito mundial e a expectativa de outro.

7. A intervenção das águias oferece uma libertação parcial, mas a morte de Thorin e o retorno doméstico de Bilbo não compõem uma única reversão consoladora plenamente integrada, resultando em uma combinação de conto de fadas e épica cuja importância também reside nas possibilidades posteriormente desenvolvidas.

O Senhor dos Anéis

1. Os doze anos de elaboração de O Senhor dos Anéis permitiram aprofundar motivos, personagens e situações apenas esboçados em O Hobbit, além de aplicar com maior consistência os princípios criativos amadurecidos na escrita anterior e na reflexão sobre os contos de fadas.

2. A continuação ultrapassou rapidamente o público, o tom e a atmosfera de seu antecedente, tornando-se uma narrativa extensa, amarga e aterradora que, embora acessível a muitas crianças, oferece possibilidades de compreensão progressivamente maiores conforme a maturidade do leitor.

3. O Condado funciona simultaneamente como reconstrução afetiva de um mundo ligado à infância de Tolkien e como espaço fantástico para o leitor moderno, cuja entrada na narrativa depende tanto do reconhecimento de hábitos familiares quanto da estranheza dos hobbits.

4. A passagem dos hobbits do Condado para a Floresta Velha estabelece um limiar explícito entre segurança cotidiana e alteridade perigosa, reproduzindo dentro do mundo secundário uma nova travessia para Faërie, compartilhada pelas personagens e pelo leitor.

5. A ameaça da Floresta Velha nasce em grande parte de comportamentos naturais interpretados por viajantes inquietos, mostrando que o encantamento também depende da transformação da percepção, enquanto o Velho Salgueiro aproxima essa ambiguidade da presença de uma entidade associada à árvore.

6. Barbárvore concentra em uma personalidade individual a alteridade antes distribuída por toda a floresta, convertendo a consciência apenas pressentida das árvores em interlocução reconhecível e aproximando o estranho da experiência familiar de um encontro entre desconhecidos.

7. Lothlórien realiza de maneira mais deliberada a imagem convencional do mundo feérico, combinando fronteiras aquáticas, árvores extraordinárias, habitantes élficos e uma atmosfera de magia para constituir um espaço secundário especialmente encantado dentro da própria Terra-média.

8. A particularidade temporal de Lórien intensifica sua condição feérica, pois a percepção de uma terra preservada em outra relação com o tempo permite ultrapassar imaginativamente os limites que regulam a experiência cotidiana do mundo exterior.

9. A passagem de Frodo por Lórien transforma o escape em recuperação sensorial, fazendo sons, cheiros, formas e cores conhecidas recuperarem uma intensidade inaugural, como se a realidade familiar fosse percebida com clareza pela primeira vez.

10. A reivindicação do Anel por Frodo e sua destruição após o ataque de Gollum produzem uma eucatástrofe extraordinária, cujas consequências incluem restauração política, casamentos, fertilidade e reencontros, compondo para a coletividade um amplo desfecho de felicidade.

11. A felicidade coletiva encontra uma exceção decisiva no destino de Frodo, que permanece excluído da plenitude prometida pela vitória.

12. A tragédia de Frodo ultrapassa a perda de uma personagem secundária porque atinge o próprio centro da narrativa, deixando o responsável pelo sacrifício sem benefício pessoal equivalente e privado de integridade física, inocência, pertencimento e do Anel que dominara sua existência.

13. O prolongamento da narrativa após a vitória permite representar tanto as consequências da guerra na vida comunitária quanto o sofrimento persistente do sobrevivente, demonstrando que os efeitos dos acontecimentos ultrapassam a resolução do enredo e os limites convencionais do final feliz.

14. O destino de Frodo contesta uma concepção simplificadora de escapismo ao impor o reconhecimento da fragilidade e da perda, enquanto o encantamento experimentado pelos leitores continua oferecendo distância, renovação da sensibilidade e redescoberta das possibilidades do mundo cotidiano.

15. A recuperação também produz consequências literárias, pois o desejo de reencontrar o encantamento cria novos públicos, incentiva outros escritores a inventar mundos secundários e estimula teorizações destinadas a desenvolver, modificar ou sistematizar seus procedimentos.

Os herdeiros

1. A força e a integridade da Terra-média estimularam sucessivas gerações de fantasistas, favoreceram séries extensas e reativaram o interesse por recriações mitológicas anteriormente pouco difundidas, ampliando o espaço editorial para narrativas inspiradas em tradições como as celtas.

2. O crescimento da fantasia e de sua legitimidade acadêmica conduziu a classificações mais precisas, como as categorias de portal e busca, imersão, intrusão e liminaridade, definidas pela maneira como o fantástico se apresenta e pela relação que estabelece com personagens e leitores.

3. A leitura de O Senhor dos Anéis como fantasia de portal e busca reconhece a passagem de uma existência cotidiana ao contato direto com o extraordinário, embora essa travessia aconteça entre regiões de um mesmo mundo, cujas diferenças se distribuem em graus de estranheza.

4. A coexistência de intrusão, liminaridade, imersão e travessia na mesma narrativa limita a exclusividade das categorias, pois o Anel já integra o Condado, a magia de Lórien depende da perspectiva de quem a observa e a familiarização com o mundo secundário constitui justamente o escape.

5. Os mundos de Fronteiras do Universo combinam lugares reconhecíveis e elementos fantásticos, fazendo a estranheza depender fortemente da familiaridade prévia do leitor com ambientes concretos e oferecendo, nessa perspectiva, menor afastamento do mundo primário do que a Terra-média.

6. A transformação de ambientes cotidianos em espaços instáveis e extraordinários produz um efeito de desfamiliarização que pode ser compreendido como fantasia liminar, na qual o leitor descobre o próprio mundo como território de encantamento e inquietação.

7. A defesa de Fronteiras do Universo como realismo acentua a função dos recursos fantásticos na representação de experiências humanas universais, especialmente amadurecimento, sofrimento e aprendizagem, em vez de atribuir ao maravilhoso uma finalidade autônoma.

8. A familiaridade de Lyra e Will não lhes confere maior existência objetiva do que aos hobbits ou às criaturas fantásticas, enquanto as passagens entre versões alternativas de Oxford e Cittàgazze multiplicam os efeitos de deslocamento e tornam relativa a própria identificação do mundo real.

9. Um mesmo espaço narrativo pode funcionar como limiar para o leitor, portal para uma personagem e intrusão para outra, demonstrando que a utilidade das classificações depende da perspectiva adotada e da capacidade de esclarecer a experiência concreta da fantasia.

10. A expansão da fantasia em livros, filmes, jogos e ambientes virtuais continuará estimulando investigações sobre seus mecanismos, mas a permanência das obras para quem lê por prazer não depende da sobrevivência dos sistemas críticos que procuram explicá-las.

11. A condição simultânea de criador e teórico torna Tolkien uma exceção especialmente fecunda, porque sua ficção e sua reflexão se esclarecem e se transformam reciprocamente.

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