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islamismo:corbin:sadra:lpm:03-terceira-penetracao

TERCEIRA PENETRAÇÃO

HCLPM

Do que constitui a essência do ser in concreto

O ser é a coisa mais apta a possuir uma realidade existente, e várias considerações decisivas testemunham esse fato.

1a consideração posta a testemunho

A realidade de cada coisa é seu próprio ato de ser, do qual resultam os efeitos e as eficiências que dela se esperam — sendo o ser, portanto, entre todas as coisas, o mais apto a possuir uma realidade.

  • É pelo ser que tudo o que não é o ser vem a possuir uma realidade; assim, o ser existe por si mesmo in concreto, ao passo que as quididades existem in concreto por ele, não por si mesmas.
  • Quando se diz de um conceito — o homem, o cavalo, o céu, a água, o fogo — que possui uma realidade ou uma existência, isso significa que existe in concreto uma certa coisa à qual esse conceito se aplica e à qual se atribui ser homem, ser cavalo etc.
  • Os conceitos realizados nos indivíduos concretos são intitulações atribuídas a esses últimos; dizer que esses conceitos são realizados significa que seu conteúdo conceptual é atribuído a uma coisa em virtude de uma atribuição essencial — não acidental.
  • Os juízos formulados nesses casos, tais como “isto é um homem” ou “isto é um cavalo”, são juízos necessários essenciais; o mesmo vale para o conceito de realidade, existência e seus sinônimos.
  • O juízo formulado no caso da existência é um juízo de necessidade essencial — para os seres necessários por outro — ou de necessidade pré-eterna — para o Ser Necessário por si mesmo.

Ao atribuir ao conceito de realidade ou de existir — que é uma representação espontânea — o ser de uma realidade ou uma existência, não se trata de uma atribuição comum a várias coisas, mas de uma atribuição primária essencial, não comum a várias coisas.

  • A coisa da qual depende que a quididade possua uma realidade é precisamente aquela à qual se atribui o conceito de realidade ou de existencialidade (mawjudiya — o fato de ser existente).
  • Para o ser, há necessariamente algo que receba o atributo in concreto e ao qual essa intitulação seja essencialmente atribuída pelo modo de atribuição comum a várias coisas.
  • Quando uma intitulação é atribuída a uma coisa in concreto, essa coisa é uma individuação — Zayd, por exemplo, em relação a “homem” — e a intitulação adquire realidade nessa coisa e por ela.
  • Do mesmo modo há para o conceito de ser uma individuação in concreto; ele possui, portanto, uma forma determinada e concreta, independentemente de toda consideração do intelecto e de toda intervenção do pensamento.
  • O ser — o existir — é portanto existente efetivamente, e a existencialidade do ser in concreto significa que ele é por si mesmo existente de fato in concreto, da mesma maneira que Zayd é de fato um homem.
  • A existencialidade do homem (mawjudiya) significa que algo in concreto é homem — não que algo in concreto é existência — ao passo que a existencialidade do ser significa que algo in concreto é ser, existência, isto é, realidade.

O ser não é existente porque haveria nele uma segunda existência sobreposta a ele como um acidente — a existencialidade do ser pertence à própria essência do ser.

  • A diferença com a quididade está em que a existencialidade do homem significa que algo in concreto é homem, ao passo que a existencialidade do ser significa que algo in concreto é ser, existência, isto é, realidade.

Todo existente in concreto é outro que o ser, pois comporta uma mistura e uma composição — ainda que apenas para o pensamento — à diferença do ser puro.

  • Os filósofos dizem: todo existente não necessário por si mesmo (momkin) — isto é, todo o que possui uma quididade — forma um par composto; não há, portanto, nenhuma quididade que seja uma realidade simples.
  • Em suma: o ser é existente por si mesmo, não por outro que si; com isso ficam afastadas as aporias relativas à existencialidade do ser.
  • O conceito abstrato do ser por uma operação do intelecto é como todos os outros universais e conceitos lógicos — a reidade, a quididade, a não-necessidade (momkiniya) etc. — com a diferença de que o que corresponde a esse conceito do ser são coisas enraizadas na realidade positiva e concreta.

A todas as existências — os atos de existir — correspondem realidades concretas, mas seus nomes próprios são ignorados; para suprir a ausência desses nomes, diz-se “a existência disto”, “a existência daquilo”, referindo-se à quididade.

  • O conjunto das existências necessita, no pensamento, do conceito geral; em compensação, os nomes e as propriedades das quididades próprias são conhecidos — homem, cavalo, ovelha etc.
  • A existência real de cada coisa — seu ato de ser absolutamente próprio — não pode ser expressa por um nome próprio e um qualificativo próprio, porque a formação dos nomes e qualificativos está em correspondência com os conceitos e os universais lógicos, que não correspondem às ipseidades individuais em ato de existir nem às formas concretas.

2a consideração posta a testemunho

Quando se diz “isto existe in concreto” e “aquilo existe no pensamento”, o que se entende por concreto (al-kharij, extramental) e por pensamento não diz respeito à categoria dos receptáculos, nem à dos lugares, nem à dos substratos — o que se significa é que a coisa possui uma existência da qual resultam os efeitos e eficiências que dela se esperam.

  • Que o fogo aquece, que a água resfria etc. — eis os efeitos esperados da existência concreta; em contraposição, a ideia do fogo não aquece, a ideia da água não resfria.
  • Se o ato de ser tivesse por única realidade a simples atualização da quididade, não haveria diferença entre o ser concreto e o ser puramente ideal — entre o ôntico e o lógico; ora, isso é impensável, pois a quididade pode ser atualizada no pensamento sem por isso existir in concreto.

3a consideração posta a testemunho

Se a existencialidade das coisas resultasse das suas próprias quididades — e não de algo outro — seria impossível tomá-las como predicados umas das outras e pronunciar que uma coisa é uma certa coisa, como quando se diz “Zayd é um vivente” ou “o homem é um caminhante.”

  • O conteúdo do juízo predicativo e o que recebe o atributo constituem a reunião, na existência concreta, de dois conceitos que diferem; pronunciar que uma coisa é uma certa coisa significa que essas duas coisas estão reunidas em seu ato de existir, embora difiram quanto ao conceito e à quididade.
  • O que provoca a diferenciação é outro que o que provoca a reunião — tal é o que enuncia o juízo que afirma que o juízo predicativo postula a reunião in concreto e a diferenciação no pensamento.
  • Se o ato de ser não fosse outra coisa que a quididade, o aspecto da identidade não se distinguiria mais do aspecto da diferenciação — o consequente é falso, e portanto o antecedente também.
  • A validade do juízo predicativo tem por fundamento uma certa unidade e uma certa diferenciação: se houvesse unidade pura e simples, não haveria juízo predicativo; se houvesse multiplicidade pura e simples, também não haveria.
  • Se o existir fosse uma simples abstração conceptual, sua unidade e sua pluralidade apenas corresponderiam à unidade e à pluralidade dos conceitos e quididades aos quais estaria referido — e nenhuma atribuição comum entre as coisas seria verdadeira.

4a consideração posta a testemunho

Se o ato de ser não fosse em si mesmo existente, seguir-se-ia que nenhuma coisa seria existente — a falsidade do consequente implica a falsidade do antecedente.

  • Quando se considera a quididade em si mesma, independentemente do ato de ser, ela é não existente (ma'duma); considerada em si mesma, fazendo abstração tanto da existência quanto da não existência, a quididade não é nem existente nem não existente.
  • Se a existência não fosse em si mesma existente, não seria possível afirmar uma da outra — isto é, afirmar que a quididade existe — pois afirmar algo de outra coisa, ou ligá-lo a ela, ou considerá-la ao mesmo tempo que ela, pressupõe a existência da coisa da qual se afirma.
  • Se a existência não fosse em si mesma existente, e se por sua vez a quididade tampouco é em si mesma existente, como algo de existente seria alguma vez realizado? A quididade nunca seria existente.
  • Quem se refere ao seu sentimento íntimo compreende, com toda certidão, que — a menos que a quididade faça um só com o ato de existir desde a origem, como é a doutrina aqui professada, ou que ela seja o sujeito ao qual advém acidentalmente o existir, como é a opinião corrente entre os peripatéticos, ou que seja ela que, inversamente, advém como acidente à existência — é impensável que a quididade seja alguma vez existente de qualquer maneira.
  • Ligar um conteúdo conceptual a outro, sem que um ou outro exista, ou que um seja o acidente do outro, ou que ambos existam, ou que ambos sejam acidente de um terceiro, é uma operação radicalmente inviável — o intelecto só pode constatar sua impossibilidade.

A proposição de que a existencialidade das coisas decorre da ascendência que as liga ao Ser Necessário é inoperante, pois a existência para a quididade não é como a filiação para as crianças — já que a qualificação das quididades pela existência não é outra coisa que a própria existência delas (cf. parágrafo 28 e seguintes).

  • Bahmanyar, em seu Kitab al-Tahsil, declara: “Quando dizemos que tal coisa é existente, entendemos duas coisas: a primeira é que ela possui um certo ser — como quando dizemos 'Zayd está em relação' — e isso é falar de maneira figurada; a segunda é que ela existe no sentido verdadeiro da palavra.”
  • Ao dizer que a coisa é existente, entende-se que ela é sua própria existência, da mesma maneira que no sentido verdadeiro o termo em relação é a própria relação.

5a consideração posta a testemunho

Se o ato de ser não tivesse uma forma in concreto, nenhuma realidade parcial nas espécies — nenhum indivíduo de espécie alguma — teria jamais realidade, pois a quididade não repugna em si mesma nem a ser comum a vários, nem a receber a universalidade conferida no pensamento.

  • A quididade seria particularizada por mil particularizações resultantes da adição de conceitos múltiplos, mas tudo isso não basta para constituir uma individualidade.
  • O indivíduo comporta necessariamente algo que se sobrepõe à natureza comum (tabi'at moshtarika), e esse acréscimo deve ser algo individualizado por essência — algo de que não se possa conceber que advenha em comum a vários.
  • Precisamente por ato de ser, de existir, entende-se esse algo; se esse algo não tivesse realidade nos indivíduos da espécie, nenhum dos indivíduos dessa espécie teria realidade in concreto.

A tese de que a individuação resulta da relação com o Ser Divino individualizado por si mesmo é refutada pelo exemplo dado anteriormente (parágrafo 25), pois a relação de uma coisa com outra pressupõe a individuação de uma e de outra.

  • A relação enquanto relação é ela mesma algo de conceptual e de universal; ora, acrescentar o universal ao universal jamais produzirá a individualidade.

A relação, enquanto conceito lógico entre outros, não constitui uma relação nem é um conceito desprovido de autonomia — ela é despojada da nisbiyat, do esse ad, isto é, da ausência de autonomia concreta.

  • Quando o que se considera é a quididade por essência, tal como ela é em si, a quididade não sustenta relação com algo outro que ela mesma, enquanto não possui um ato de ser pelo qual está em relação com seu existenciador e instaurador.
  • Por existência (wojud) entende-se precisamente esse ato de ser (kawn), que só é possível inteligir e conhecer pela visão presencial (shohud hoduri), como se explicará mais adiante.

6a consideração posta a testemunho

O acidente é de duas sortes: o acidente que advém à existência e o acidente que advém à quididade — e exemplos de cada sorte mostram a diferença entre qualificação in concreto e qualificação lógica.

  • O acidente que advém à existência é, por exemplo, a adveniência in concreto da cor branca ao corpo, da situação-em-cima ao céu, da universalidade e da realidade de espécie ao homem, da realidade de gênero ao animal.
  • O acidente da quididade é, por exemplo, a adveniência da diferença específica ao gênero ou a adveniência da individuação à espécie.
  • Os compiladores profissionais entre os filósofos concordam em dizer que a qualificação da quididade pela existência e a adveniência desta àquela não são nem uma qualificação in concreto nem a adveniência de um acidente imanente materialmente a seu substrato.
  • Isso porque seria necessário que o qualificado tivesse de antemão um certo grau de realidade e de ser — um grau de ser onde ainda não sofreria a mistura da qualificação por esse atributo (a saber, a existência) — o que é impensável.
  • A qualificação da quididade pela existência é uma qualificação lógica; nela, só há adveniência pela análise operada pelo pensamento; nessa sorte de adveniência, não é possível que o substrato possua anteriormente um grau de ser e de realidade em ato de existir.
  • Ao se dizer que a diferença específica é um acidente do gênero, não se quer dizer que o gênero tenha uma realidade em ato de ser independentemente da diferença específica — o que se quer dizer é que o conceito de diferença é extrínseco ao conceito de gênero e a ele ligado do ponto de vista do pensamento, embora a diferença forme um só com o gênero do ponto de vista da existência.
  • O mesmo vale para a quididade e a existência, quando se diz que a existência é um dos acidentes da quididade.

Se o existir não tivesse uma forma e uma realidade in concreto, sua adveniência à quididade seria como todas as demais abstrações lógicas que se ligam à quididade depois que esta é positiva e estabelecida.

  • A existência — o ato de ser — é necessariamente algo pelo que precisamente a quididade é existente, e com o que a quididade não faz senão um in concreto, embora dela difira quanto ao sentido e ao conceito, em razão da operação analítica do espírito.

7a consideração posta a testemunho

Os filósofos declaram que a existência dos acidentes em si mesmos é precisamente sua existência para seu substrato — isto é, a existência efetiva do acidente consiste precisamente em sua imanência a seu substrato.

  • A imanência do acidente a seu substrato — a imanência da cor negra a um corpo, por exemplo — é uma coisa concreta que se sobrepõe à sua quididade.
  • Mesmo que o substrato não esteja implicado na quididade do acidente sozinha, ele está implicado na existência desse acidente, a qual é sua acidentalidade mesma e sua imanência a esse substrato.
  • Tal é o sentido da proposição que os filósofos enunciam no Livro da prova: o substrato está implicado nas definições dos acidentes; acrescenta-se também que é algo que, em razão da definição, vai em excedente ao objeto definido — como a implicação do círculo na definição do arco, ou o bâtisseur na definição do edifício.
  • A acidentalidade do acidente — a da cor negra, por exemplo — acidentalidade que constitui sua existência efetiva, sobrepõe-se à sua quididade.

Se o ato de ser não fosse algo real in concreto — mas apenas algo que o pensamento distingue por abstração na quididade, sendo o existir apenas o verbo ser da cópula — então a existência da cor negra, por exemplo, consistiria pura e simplesmente em ser-negra, isto é, em sua nigritude, e não em sua imanência efetiva a um corpo negro.

  • Ora, dado que a existência dos acidentes — o que constitui sua acidentalidade mesma e sua imanência a um substrato — é algo que se sobrepõe às suas quididades universais respectivas, o mesmo se dará a fortiori para as substâncias: a existência das substâncias in concreto sobrepõe-se à sua quididade, uma vez que sua existência é pressuposta pela dos acidentes.
  • Nenhuma diferença há entre quem afirma a realidade concreta da existência da substância e quem, ao contrário, faz dela uma abstração considerada pelo pensamento: ambos sustentarão a mesma tese respectiva quanto à existência do acidente.

8a consideração posta a testemunho

Os graus do intenso e do fraco — nas coisas que comportam uma escala de intensidade e de fraqueza — constituem, segundo os filósofos, espécies diferenciadas pelas diferenças lógicas, e isso ilumina o aspecto do problema aqui tratado.

  • Na intensificação qualitativa — a da cor negra, por exemplo — que é um movimento qualitativo, os filósofos seriam constrangidos, se o ato de ser consistisse apenas em certa maneira pela qual o espírito considera a quididade (amr i'tibari), a admitir que sejam realizadas espécies infinitas compreendidas entre dois limites.
  • A cada uma das definições definindo um grau mais intenso ou mais fraco corresponderia, sendo tratar-se sempre de uma quididade específica, quididades diferenciadas quanto ao conceito e quanto à realidade — tantas quanto as definições supostas ao infinito; ora, um infinito em ato é inconcebível.
  • Certes, se todo o conjunto tem uma existência única e uma forma única contínua — como é o caso das grandezas quantitativas contínuas fixas (a linha, a superfície, o sólido matemático) ou móveis (o tempo) — as definições particularizando os graus em tantas espécies só existem então em potência, e nenhuma consequência absurda se segue; a unidade está em ato, enquanto a multiplicidade está em potência.
  • Mas se o ato de ser não tem forma concreta, a consequência é inevitável e a dificuldade se ergue — a de um infinito em ato.
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