EPÍSTOLA DAS ALTAS TORRES
HCAE
A Epístola das Altas Torres — Apresentação e Título
A “Epístola das Altas Torres” foi redigida por Sohravardi em árabe, à diferença dos demais relatos e tratados místicos reunidos no volume, todos redigidos em persa.
- O melhor esclarecimento do título, que se apresenta sob dupla forma, encontra-se no grande comentário composto por Ali ibn Majdoddim ibn Moh. ibn Mahmud Shahrudi Bastami, conhecido pelo apelido de Mosannifak — natural de Bastam no Khorassan, compatriota portanto de Abu Yazid Bastami.
- Mosannifak nasceu em 803/1400-01 e morreu em 873/1468-69; escreveu seu comentário no final da vida, em Adrianópolis, em 866/1461-62, precedendo-o de uma longa dissertação sobre o sufismo de seu tempo, na qual relata suas próprias experiências místicas; intitulou o conjunto “Solução dos enigmas e descoberta dos tesouros” (Hall al-romuz wa-kashf al-konuz).
- Um dos manuscritos confere ao Shaykh al-Ishraq não apenas a qualificação de “Shaykh maqtul” (o Shaykh morto, executado), mas a de shahid — “mártir” — reconhecida por seus discípulos: “o Imam mártir Sohravardi.”
As Duas Formas do Título
O título do tratado se apresenta sob duas formas distintas, cada uma revelando um aspecto essencial da obra.
- A primeira forma, presente desde a estrofe 1, é: “Palavras de sabor místico e marcas de ardente desejo” (Kalimat dhawqiya wa-nikat shawqiya).
- O comentador Mosannifak sublinha que em todos os seus livros o Shaykh al-Ishraq designa o conhecimento próprio ao místico como “luz do coração” (nur al-qalb) — conhecimento que ressortece ao gosto íntimo, à experiência interiormente saboreada, no sentido do latim sapere: “palavras sapenciais”.
- Essa “sapiência” caracteriza o que Sohravardi opõe como hikmat dhawqiya (sabedoria divina, teosofia proposta ao gosto íntimo) à hikmat bathiya (filosofia teórica e dialética) — contraste entre a teosofia iluminativa dos “Orientais” no sentido metafísico (hikmat al-Ishraqiyun) e a filosofia dos Peripatéticos (hikmat al-Mashshayin).
- O segundo elemento do título — nikat shawqiya — complementa o primeiro: nikat são as marcas ou rastros deixados no solo pela frappe do ardente desejo, indicando o sentido oculto das “palavras de sabor místico”.
- A segunda forma do título — “Epístola das Altas Torres” (Risalat al-abraj) — é a preferida aqui, pois as “altas torres” marcam melhor a originalidade do tratado ao oferecer à visão interior a moldura em que o autor encena a travessia da cidadela do microcosmo no mundus imaginalis.
- A palavra borj é a transcrição do grego pyrgos, “torre”, reencontrada no Ocidente medieval como Burg em alemão — castelo-forte (o Burg do Graal, por exemplo).
- O plural boruj designa correntemente os signos do zodíaco, os doze “castelos celestes”; o plural abraj, forma pouco usual empregada por Sohravardi, visa evitar confusão com o sentido corrente de boruj, pois não se trata aqui dos signos do zodíaco da astronomia física, mas das dez torres flanqueando a cidadela do microcosmo.
Estrutura da Obra — As Quatro Partes
A travessia da cidadela do microcosmo constitui o momento central da Epístola, apresentada como uma série de estrofes numeradas divididas em quatro grandes partes.
- A primeira parte (estrofes 1 a 12) é essencialmente uma exortação.
- A segunda parte (estrofes 13 a 18) evoca o exemplo dos grandes místicos.
- A terceira parte (estrofes 19 a 28) descreve a ascensão das altas torres da cidadela do microcosmo.
- A quarta parte (estrofes 29 a 31) apresenta a abertura do mundo do Anjo ao final da ascensão.
Primeira Parte — A Exortação e a Preexistência da Alma
A exortação se dirige aos Ikhwan al-tajrid — “irmãos da anachorese” — que pediram que os propósitos do tratado fossem postos por escrito.
- Tajrid (ato de separar, o grego khôrismos, e ato de se separar, o grego anakhôrêsis) designa o ato de ascese interior pelo qual o homem espiritual se separa das condições sob as quais sucumbe a existência terrestre — ignorância, cegueira espiritual, ambição de honrarias.
- Esse ato de renúncia, de anakhôrêsis, valida eo ipso o vínculo de parentesco espiritual do místico não só com os “irmãos” que praticam a mesma anakhôrêsis, mas com o pléroma das entidades arcangélicas “separadas” da matéria.
- O desejo de estar entre aqueles que se parecem com seu “pai” faz reaparecer o leitmotiv do Anjo-Espírito Santo como Nous patrikos, cuja existência Sohravardi encontrava confirmada pelos versículos do Evangelho de João.
Segunda Parte — O Exemplo dos Grandes Espirituais
A segunda parte propõe o exemplo dos grandes espirituais, com o simbolismo da Lua tipificando os estados do místico até o estado de união transformante.
- Abu Yazid Bastami, Hallaj e outros entre os anacoretas espirituais (ashab al-tajrid) foram “Luas no céu do tawhid”.
Terceira Parte — A Ascensão da Cidadela do Microcosmo
A citadela do microcosmo é visualizada como uma cidadela flanqueada por dez altas torres (abraj) — correspondendo perfeitamente à arquitetura do castelo do microcosmo no “Vade-Mecum”.
- A ideia é introduzida por um motivo ishraqi característico: “A ti cabe resolver a teurgia humana” — em termos de cosmologia ishraqi, toda espécie natural ou espiritual é a teurgia de seu Anjo, e “resolver essa teurgia” designa a travessia do microcosmo como única via para “involuir” o cosmos físico e alcançar o mundo do Anjo.
- As “torres atmosféricas” (jawwaniya, de jaww, a atmosfera) tipificam os sentidos internos — o que está no espaço interior, entre o céu e a terra; as “torres continentais” (barraniya, de barr, terra firme) tipificam os sentidos externos — a terra firme como limite exterior do espaço interior.
- O comentador Mosannifak reúne a propósito da nona torre — a da Imaginação ativa — dados sobre a metafísica da Imaginação e do imaginal professada pelos ishraqiyun: “Seu nome varia segundo que nela se reflitam os raios das estrelas ou os raios da Lua” — no primeiro caso, a Imaginação degenera em fantasia e só secreta o imaginário; no segundo, ela é a Imaginatio vera guiada e inspirada pela potência intelectiva.
- No “Livro das Tábuas”, Sohravardi deu o mais marcante exposé de sua metafísica da Imaginação ativa, mostrando como ela era ora a “árvore bendita” em que os Eleitos colhem os altos conhecimentos que são o “pão dos Anjos”, ora ao contrário a “árvore maldita”.
Quarta Parte — A Presença do Anjo e o Guia Interior
O peregrino que terminou sua viagem iniciática se encontra no limiar do Castelo-Forte da Alma, em presença do Anjo — designado como Javidan Kharad, Sabedoria eterna, o Anjo Gabriel, o Espírito Santo, a Inteligência agente, o Anjo da humanidade.
- Sohravardi tipifica esse Anjo sob os traços de um shaykh, de um sábio (pir), de um mestre espiritual de eterna juventude (piri-javan) e de incomparável beleza.
- Mosannifak pergunta por que o autor diz “shaykh” — não se trata da idade, pois vários relatos sublinham os traços juvenis da aparição; o emprego da palavra visa algo essencial: o Anjo é ele mesmo um guia espiritual, um morshid.
- Segundo os ishraqiyun de Sohravardi, o peregrino místico, o salik, não precisa de um shaykh humano como morshid — o fato de ser um anacorета espiritual implica que o Anjo-Espírito Santo já é o seu “shaykh”; o Anjo-Espírito Santo, Gabriel, é o morshid dos ishraqiyun, e eles não precisam de nenhum morshid humano — nenhum guru, como se diz no Ocidente —, ao contrário do que professam os Mashayekh e os sufis.
- O papel do shaykh humano se limita, segundo a espiritualidade dos ishraqiyun, a preparar o encontro do discípulo com o verdadeiro shaykh, espiritual, invisível, interior — o guia que é o Anjo ou a “Natureza Perfeita”, para quem Sohravardi compôs um de seus mais belos salmos.
- Os dois tratados seguintes (Tratados XI e XII) mostrarão o encontro e o diálogo com o guia pessoal, o mestre interior — aquele que a escola de Najmoddim Kobra designaria como shaykh al-ghayb, “testemunha no Céu”; o encontro com esse mestre interior marca o ponto culminante da Busca do conhecimento de si, que só pode ser atingida pelo encontro com o alter ego celestial.
- O tratado se encerra com a evocação do companheirismo que agrega o místico à “confraria iniciática” das Inteligências arcangélicas: “Jamais aquele que se tornou seu familiar é abandonado por eles nem deixado na angústia.” “Quando te tiveres elevado sucessivamente de um ao outro, sem dúvida verás resplandecer em ti os vestígios da condição divina.”
